14 Fev 2017 | domtotal.com

Caso Victor escancara os negócios nebulosos do futebol brasileiro


Victor, o Santo para a torcida atleticana, é pivô de um imbróglio entre Atlético e Grêmio.
Victor, o Santo para a torcida atleticana, é pivô de um imbróglio entre Atlético e Grêmio.

Por Juliano Paiva

A torcida do Atlético lamentou muito a ida de Lucas Pratto para o São Paulo. As redes sociais bombaram com o assunto. Os resignados postavam: “Pelo menos a grana que vai entrar é boa para o Galo”. Seriam 6,2 milhões de euros (R$ 20,6 milhões) por 50% dos direitos econômicos de Pratto. 

Seriam! Eis que surge a notícia de que o Grêmio ficará com parte do dinheiro da venda do argentino.  R$ 10,5 milhões!! Mais da metade e a saída de Pratto se confirma como um mau negócio para o Atlético. A decisão judicial determina o depósito pelo São Paulo diretamente em uma conta vinculada ao processo. Mesmo que o Tricolor Paulista tenha pago a primeira parcela ao Galo, as demais podem ser bloqueadas. 

A dívida com o Grêmio se refere à compra pelo Atlético do goleiro Victor, em 2012. O Grêmio receberia 3 milhões de euros do Galo, parcelados durante dois anos, e mais 50% dos direitos econômicos do zagueiro Werley, atualmente no Coritiba. Uma parcela de 1,5 milhão de euros não teria sido paga.

O Tricolor Gaúcho precisou ir à Justiça para receber. E obteve êxito! Nas redes sociais, até a torcida atleticana se mostrou surpresa: “O Galo deve pelo Victor? Até hoje?”  Pelo jeito deve e não é pouca coisa.

Essa história toda só escancara como os negócios no futebol brasileiro são nebulosos. Vejamos! Daniel Nepomuceno alardeou na semana passada, em entrevista coletiva, talvez para justificar a venda de um ídolo como Pratto, que se travava da segunda maior venda da história do clube. Bernard, vendido ao Shakhtar Donetsk, por 25 de milhões de euros (R$ 77 milhões), é o recorde. 

Como as redes sociais são implacáveis, surge outra dúvida. O zagueiro Jemerson não é a segunda maior transação da história alvinegra? Na época, há um ano, ele teria (atenção para o teria) saído por 11 milhões de euros (cerca de R$ 48 milhões).   

Pois é. Como a venda de Pratto é a segunda maior se Jemerson TERIA sido vendido por 11 milhões de euros? Ah, mas o Atlético manteve 50% dos direitos de Pratto. O São Paulo será obrigado a comprar os 50% do Galo num determinado prazo? O clube mineiro terá direito a um percentual numa venda futura do argentino. Quanto? Lembrando que o Galo, por contrato, ainda deve repassar ao Veléz 20% do lucro com a venda de Pratto. Ainda assim foi um bom negócio? A tão falada segunda melhor da história do Galo está nebulosa. Nada é detalhado, esclarecido. 

Os clubes brasileiros deveriam ser obrigados a publicar os detalhes dos negócios (vendas, empréstimos) nos sites oficiais. Só ficamos sabendo as minúcias da compra do volante Elias pelo Atlético porque o Sporting publicou em seu site. Quando isso não acontece o que se ouve e lê por aqui é que “os valores não serão divulgados”. E fica por isso mesmo. 

E essa conta pode sair ainda mais cara para o Galo. O Grêmio ameaça ir a CBF pedir que o clube mineiro seja impedido de registrar jogadores por dois anos. A sanção está prevista no Regulamento Nacional de Registro e Transferências de Atletas de Futebol, no artigo 67.

O diretor jurídico do Atlético, Lásaro Cunha, disse que seu clube tem valores a receber por conta de empréstimos do zagueiro Werley pelo Grêmio a Santos e Figueirense. O Imortal, por sua vez, garante que não recebeu nenhuma compensação financeira pelo defensor nas negociações. Os empréstimos teriam sido a custo zero.

É um disse me disse sem fim. Um imbróglio dentro do outro.  

Até quando? Eternamente, enquanto a legislação permitir.  

Juliano Paiva
é jornalista formado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente editor do Dom Total, Paiva trabalhou nos jornais O Tempo, Hoje em Dia e no extinto Diário da Tarde, tradicional periódico de Belo horizonte fechado pelos Associados Minas em julho de 2007. No DT, começou como repórter da editoria Cidades, mas, na época do fechamento do jornal, fazia cobertura esportiva. Também foi responsável pela cobertura de jogos do Campeonato Brasileiro para a Folha de São Paulo no segundo semestre de 2007.
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