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Colunas Felipe Peixoto Braga Netto

04/11/2009  |  domtotal.com

O mar de Minas

“O mar, meu filho, é uma espécie de saudade...”. Guimarães Rosa

Não haverá estudo decente sobre a alma mineira que exclua o mar. O mar, paradoxalmente, é algo mineiro. É algo que participa da psicologia de Minas. Não, claro, no dia-a-dia dos mineiros. Mas nos desejos distantes traduzidos naquele leve desabafo: “ah, se eu estivesse...”.

Achei engraçada, tempos atrás, uma publicidade que vi: belas fotos de lugares típicos de Belo Horizonte. Só que atrás de todos eles havia, para espanto e prazer, o mar. Foi uma vingança divertida contra a natureza.

O leitor já presenciou um encontro do mineiro com o mar? Eu já. Abandona-se tudo, roupas pelo caminho, carro na calçada, mãe no hospital, tudo passa, na lógica sedenta de sal, a ser secundário e pouco importante, frente às azuis possibilidades marítimas.

O mineiro, conformado porque é o jeito, agora deu para zombar do mar. Li, dia desses, em camiseta, a seguinte frase: "Eu tenho pena do mar porque ele não banha Minas". Eu também tenho. E também achei simpática a brincadeira. É uma forma de dizer: tudo bem, você não me quer, mas não sabe o que está perdendo... Soube depois que a ideia é antiga, lá do século dezoito. Já em 1891 Otávio Ottoni, em canção, dizia: “O mar suspira porque está longe de Minas”. Será? Será Minas, velho mar, a causa dos teus suspiros?

Mas é fato que o mineiro se trai ao falar do mar. Logo ele, tão reservado e contido, se desmancha em excessos, revela saudade. Paulo Mendes Campos diagnosticou: “O mineiro é um marujo ao qual retiraram o mar”. Maldade com o marujo mineiro. Mas lhe fez bem. Essa combinação de montanhas fez desse povo uma coisa única, dignamente bela. Talvez por isso o poeta, certa vez, tenha dito: "O mar de Minas não é no mar./ O mar de Minas é no céu,/ pro mundo olhar pra cima e navegar/ sem nunca ter um porto onde chegar."


Felipe Peixoto Braga Netto Membro do Ministério Público Federal (Procurador da República). Doutorando em Teoria do Estado e Direito Constitucional pela PUC-RIO. Mestre em Direito Civil pela Universidade Federal de Pernambuco. Procurador Regional Eleitoral de Minas Gerais (2010/2012). Advogado da União (1999/2002). Professor de Direito Civil e Direito do Consumidor da Escola Superior Dom Helder Câmara – ESDHC (2003/2015). Professor de Teoria Geral do Direito, Direito Civil e Direito do Consumidor da PUC-MINAS, graduação e especialização (2002/2006). Professor da Escola Superior do Ministério Público da União – ESMPU.






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Comentários

Escreva seu comentário Total de comentários: 5
Rosaria | 06/09/2011 14:20
Caro Prof. Felipe, longe de Minas a muito tempo, li a sua coluna e ela confortou a minha alma e me fez ver o quanto sinto saudades da minha terra querida. Logo que me mudei fiquei muito tempo sem volta a minas, cerca de um ano e meio, quando retornei e andei pelas ruas a coisa mais gostosa que ouvi foi o sotaque mineiro, como é diferente, como é calmo e carinhoso. Mas sobre este mar que sentimos tão dentro de nossa alma, ele esta aá, sai ou olhe pela janela é um mar de montanhas, me diga se a sensação não é parecida. Abraços,
responder comentário Responder Rosaria
Taty TRE | 22/12/2009 20:36
Olha que chique a questão da prova da minha filha: Questão 1(UFJF-2010): “O leitor já presenciou um encontro do mineiro com o mar? Eu já. E não quero ver de novo. Abandona-se tudo, roupas pelo caminho, carro na calçada, mãe no hospital, tudo passa, na lógica sedenta de sal, a ser secundário e pouco importante, frente às azuis possibilidades marítimas. É, velho mar, eu te admiro e canto, mas de longe. Não que eu não queira você por perto. Quero, juro que sim. Mas acontece que você, sei lá porque, não quis salgar Minas. E eu (confesso baixinho), eu não tenho talento para ser feliz fora daqui. Até já tentei, mas minha alegria fixou residência entre as montanhas e disse que não sai, daqui ninguém me tira. Que posso fazer? Você compreende, não posso abandonar minha alegria, visita tão rara. Longe do mar, mas perto de mim. Que suas ondas, doces e eternas, me abençoem e perdoem essa inclinada ingratidão.” Crônica de Felipe Peixoto Braga Netto (alagoano), extraída do livro As Coisa
responder comentário Responder Taty TRE
Cláudia | 06/11/2009 17:10
Felipe, um talentoso escritor registrou "longe do mar, perto de mim...". Sabe quem?
responder comentário Responder Cláudia
Nina | 04/11/2009 17:04
Admirável verdade!
responder comentário Responder Nina



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