Colunas José Adércio Leite Sampaio
Ai de ti, Haiti
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui.
(Caetano)
Sei que todos estão suficientemente informados sobre a tragédia que se abateu sobre o Haiti. Sei que todos estão sensibilizados o bastante para ouvir algo que os faça mais pesarosos e com disposição para ajudar. Mas ainda assim remexo o assunto.
Por que logo o Haiti? A resposta pode exigir incursões metafísicas que, definitivamente, não tenho preparo nem tempo para enfrentá-la. Noves fora esse tortuoso caminho, podemos tentar respondê-la de diversos modos. Nada, por certo, para justificar que seria preferível o epicentro sísmico ter ocorrido na vizinha República Dominicana, no Brasil, nas Bahamas ou em Cuba, Washington, Paris, Berlim ou Tóquio.
Ninguém merece a tragédia, embora todos estejam sempre suscetíveis a seus flagelos. Uns mais, outros menos. Mais, por exemplo, pela existência de falhas geológicas bem sob os pés. Mas há falhas em muitos outros lugares. Pode ser questão de tempo. Entretanto, nem todos se mostrarão tão frágeis como se mostraram os haitianos.
Logo o Haiti, o primeiro país latino-americano a se tornar independente e, por cima, a primeira revolta negra bem sucedida nas colônias europeias, talvez, no mundo. O Haiti, de nome poético, “Terras Altas” ou “Montanhas sobre o Mar”, que foi um dos lugares mais prósperos das Américas não resistiu à sina da instabilidade política e, antes do terremoto natural, sofreu seus terremotos políticos, arrastando o povo para a miséria.
A tragédia nos remete a outra e a seus porquês. Quem faz o destino de um povo, ele mesmo ou seus governantes? Pois que sejam os dois para evitar disputas. Mas como pode um povo ser senhor de sua vida num mundo dominado por um modelo econômico predatório? Chamem a insinuação de oligofrenia de esquerda, então, respondam: como construir uma sociedade livre e igual ou, até menos, fazer casas resistentes a tremores e um planejamento urbanístico que suporte os maus humores da natureza à margem do mundo?
As chuvas de verão no Brasil mostram, todo ano, que, embora muitos sofram com o aguaceiro, é a periferia que mais pena, que morre de uma morte injusta, a morte por ser pobre e não ter outro lugar para morar senão nas ribanceiras. Pois é a periferia do sistema global que também padece mais, morre mais, essa dor mais doída que revela nossa incapacidade, brasileira, haitiana, humana de não conseguirmos ser minimamente justos, minimamente iguais na felicidade e até na dor.
Que posso mais dizer? Ai de ti, Haiti. Ai de nós. Mossorós.
José Adércio Leite Sampaio
é Jurista. Graduado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre e Doutor em Direito Constitucional pela UFMG. Procurador Regional da República. Professor da Escola Superior Dom Helder Câmara.
Últimos artigos / José Adércio Leite Sampaio
- 18/06/2013 | Movimento Passe Livre: A Lógica de Benjamin
- 12/06/2013 | Os filhos de Rousseau
- 05/06/2013 | O direito de ser feliz (III)
- 29/05/2013 | O gorila invisível
- 20/05/2013 | Democracia constitucional entre a emoção e a razão


Comentários