Colunas Carlos Brickmann
12/04/2010
A morte mora ao lado
Ninguém é culpado, ninguém sabe de nada, ou, como diz o prefeito de Niterói, RJ, ele não tomou conhecimento do assunto amplamente estudado "porque há estudos sobre tudo". Resultado: quantas mortes sem sentido!
O morro do Bumba, em Niterói, não era um morro: era um lixão desativado, coberto por uma camada de terra. Um lixão esquecido? Não: foi usado até 1985. As autoridades, portanto, sabiam do que se tratava. O morro do Bumba não era um aterro sanitário: faltava-lhe o apuro tecnológico dos aterros, como mantas impermeabilizantes, estudo da inclinação das encostas, essas coisas. E, mesmo que fosse um aterro sanitário dos mais modernos e requintados, não se constrói em cima de aterros sanitários em lugar nenhum do mundo: quando o lixo se decompõe, o solo se move, e as construções perdem a base. O que se faz é construir parques, com árvores de raízes horizontais - e monitorá-los, porque onde se coloca lixo sempre há o risco de escapamento de gás metano, altamente explosivo.
O morro do Bumba não desabou com as chuvas: ele explodiu (há depoimentos de autoridades à TV em que citam a explosão). A explosão derrubou encostas e abriu caminho para a enxurrada. Abriu caminho também para as explicações mal-arrumadas das autoridades incompetentes; abriu o caminho para os túmulos. Um especialista em lixo, Enio Raffin, descreve o que aconteceu com grande precisão (veja em www.brickmann.com.br, seção Artigos). Nas mortes do morro do Bumba, as águas em fúria só completaram o serviço dos Governos em letargia.
Depois das mortes
O problema, a propósito, não termina com o enterro das vítimas. O chorume, aquele líquido malcheiroso que escapa do lixo, cheio de germes e bactérias, correu para os rios e para o mar, poluindo-os; e já alcançou as águas subterrâneas, que afetarão quem mora muito longe do Bumba. Os ratos ganharam novo alimento para multiplicar-se. E, além de tudo, a leptospirose, transmitida por sua urina, é a surfista fiel das grandes enchentes. Mas ninguém sabe de nada.
Livres, enfim
Escapamos por pouco: o vice-presidente José Alencar desistiu de se candidatar a qualquer cargo nas próximas eleições e poderá ocupar a Presidência nas viagens de Lula. Se Alencar quisesse ser candidato, o substituto seria o presidente da Câmara, Michel Temer. Como Temer também é candidato (provavelmente a vice de Dilma, mas no mínimo à reeleição como deputado), também não poderia assumir. E o substituto legal, já hoje, seria o presidente do Senado, José Sarney. É duro pensar nisso. E lembrar que no caso ele seria o chefe da Polícia Federal, que investiga as empresas de sua família, comandadas por seu filho, é ainda pior.
...e teve azia
Dizem que o marechal Teixeira Lott, candidato do presidente Juscelino Kubitschek à sucessão, defendeu o confisco cambial (uma taxa sobre exportações de café) em São Paulo, o maior exportador. No Recife, reduto de esquerda, se opôs à legalização do Partido Comunista. Bastaria que invertesse o local das declarações, e tudo bem - mas quem ensina política a quem não nasceu para isso? Agora Dilma Rousseff sugere aos mineiros que desprezem o candidato de sua chapa ao Governo e prefiram o tucano Antonio Anastasia, desde que votem nela para presidente. Nome que sugeriu para a composição: Dilmasia. O presidente Lula, que conhece tudo de política, deve ter sentido aquela queimação no estômago.
Nome por nome
O candidato do PMDB ao Governo mineiro, Hélio Costa, teve a promessa de apoio do PT - afinal, foi ministro de Lula até há poucos dias. Apesar disso, os pretendentes do PT querem porque querem enfrentá-lo nas urnas. Mas a história da Dilmasia foi demais: o peemedebista disse preferir a chapa Serrélio.
Ficha limpa? Onde?
Político, como qualquer ser vivo, tem instinto de sobrevivência. É por isso que o projeto de lei da Ficha Limpa, que bloqueia a candidatura de quem tiver sido condenado por tribunal de segunda instância, mesmo que ainda não haja condenação definitiva, só passa se houver pressões irresistíveis - e, não esqueçamos, as Diretas-Já, empurradas por imensas multidões, foram derrotadas assim mesmo. Quem quer aprovar uma lei que poderá prejudicá-lo na eleição seguinte? As emendas propostas pelos políticos ao projeto de iniciativa popular, enviado ao Congresso com 1,6 milhão de assinaturas, são até engraçadas - a do petista Fernando Ferro, por exemplo, propõe que só condenações definitivas, sem recurso possível, bloqueiem as candidaturas. Traduzindo: exatamente como é hoje.
Passa um paninho
É possível combater, com bons argumentos, o projeto da Ficha Limpa, pela imposição de uma pena a quem não foi condenado em definitivo. Pode-se argumentar ainda que cabe ao eleitor, e não aos tribunais, decidir o destino de uma candidatura. Mas ninguém vai usar esse tipo de argumentação: como a opinião pública é muito favorável ao projeto da Ficha Limpa, os parlamentares, sempre em nome de seu instinto de sobrevivência, vão concordar com ele, mas tomarão as providências necessárias para que não ande.
E, se andar, não funcione.
O morro do Bumba, em Niterói, não era um morro: era um lixão desativado, coberto por uma camada de terra. Um lixão esquecido? Não: foi usado até 1985. As autoridades, portanto, sabiam do que se tratava. O morro do Bumba não era um aterro sanitário: faltava-lhe o apuro tecnológico dos aterros, como mantas impermeabilizantes, estudo da inclinação das encostas, essas coisas. E, mesmo que fosse um aterro sanitário dos mais modernos e requintados, não se constrói em cima de aterros sanitários em lugar nenhum do mundo: quando o lixo se decompõe, o solo se move, e as construções perdem a base. O que se faz é construir parques, com árvores de raízes horizontais - e monitorá-los, porque onde se coloca lixo sempre há o risco de escapamento de gás metano, altamente explosivo.
O morro do Bumba não desabou com as chuvas: ele explodiu (há depoimentos de autoridades à TV em que citam a explosão). A explosão derrubou encostas e abriu caminho para a enxurrada. Abriu caminho também para as explicações mal-arrumadas das autoridades incompetentes; abriu o caminho para os túmulos. Um especialista em lixo, Enio Raffin, descreve o que aconteceu com grande precisão (veja em www.brickmann.com.br, seção Artigos). Nas mortes do morro do Bumba, as águas em fúria só completaram o serviço dos Governos em letargia.
Depois das mortes
O problema, a propósito, não termina com o enterro das vítimas. O chorume, aquele líquido malcheiroso que escapa do lixo, cheio de germes e bactérias, correu para os rios e para o mar, poluindo-os; e já alcançou as águas subterrâneas, que afetarão quem mora muito longe do Bumba. Os ratos ganharam novo alimento para multiplicar-se. E, além de tudo, a leptospirose, transmitida por sua urina, é a surfista fiel das grandes enchentes. Mas ninguém sabe de nada.
Livres, enfim
Escapamos por pouco: o vice-presidente José Alencar desistiu de se candidatar a qualquer cargo nas próximas eleições e poderá ocupar a Presidência nas viagens de Lula. Se Alencar quisesse ser candidato, o substituto seria o presidente da Câmara, Michel Temer. Como Temer também é candidato (provavelmente a vice de Dilma, mas no mínimo à reeleição como deputado), também não poderia assumir. E o substituto legal, já hoje, seria o presidente do Senado, José Sarney. É duro pensar nisso. E lembrar que no caso ele seria o chefe da Polícia Federal, que investiga as empresas de sua família, comandadas por seu filho, é ainda pior.
...e teve azia
Dizem que o marechal Teixeira Lott, candidato do presidente Juscelino Kubitschek à sucessão, defendeu o confisco cambial (uma taxa sobre exportações de café) em São Paulo, o maior exportador. No Recife, reduto de esquerda, se opôs à legalização do Partido Comunista. Bastaria que invertesse o local das declarações, e tudo bem - mas quem ensina política a quem não nasceu para isso? Agora Dilma Rousseff sugere aos mineiros que desprezem o candidato de sua chapa ao Governo e prefiram o tucano Antonio Anastasia, desde que votem nela para presidente. Nome que sugeriu para a composição: Dilmasia. O presidente Lula, que conhece tudo de política, deve ter sentido aquela queimação no estômago.
Nome por nome
O candidato do PMDB ao Governo mineiro, Hélio Costa, teve a promessa de apoio do PT - afinal, foi ministro de Lula até há poucos dias. Apesar disso, os pretendentes do PT querem porque querem enfrentá-lo nas urnas. Mas a história da Dilmasia foi demais: o peemedebista disse preferir a chapa Serrélio.
Ficha limpa? Onde?
Político, como qualquer ser vivo, tem instinto de sobrevivência. É por isso que o projeto de lei da Ficha Limpa, que bloqueia a candidatura de quem tiver sido condenado por tribunal de segunda instância, mesmo que ainda não haja condenação definitiva, só passa se houver pressões irresistíveis - e, não esqueçamos, as Diretas-Já, empurradas por imensas multidões, foram derrotadas assim mesmo. Quem quer aprovar uma lei que poderá prejudicá-lo na eleição seguinte? As emendas propostas pelos políticos ao projeto de iniciativa popular, enviado ao Congresso com 1,6 milhão de assinaturas, são até engraçadas - a do petista Fernando Ferro, por exemplo, propõe que só condenações definitivas, sem recurso possível, bloqueiem as candidaturas. Traduzindo: exatamente como é hoje.
Passa um paninho
É possível combater, com bons argumentos, o projeto da Ficha Limpa, pela imposição de uma pena a quem não foi condenado em definitivo. Pode-se argumentar ainda que cabe ao eleitor, e não aos tribunais, decidir o destino de uma candidatura. Mas ninguém vai usar esse tipo de argumentação: como a opinião pública é muito favorável ao projeto da Ficha Limpa, os parlamentares, sempre em nome de seu instinto de sobrevivência, vão concordar com ele, mas tomarão as providências necessárias para que não ande.
E, se andar, não funcione.
Carlos Brickmann
é jornalista e diretor do escritório Brickmann&Associados Comunicação, especializado em gerenciamento de crises. Desde 1963, quando se iniciou na profissão, passou por todos os grandes veículos de comunicação do país. Participou das reportagens que deram quatro Prêmios Esso de Equipe ao Jornal da Tarde, de São Paulo. Tem reportagens assinadas nas edições especiais de primeiras páginas da Folha de S.Paulo e do Jornal da Tarde.
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