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Colunas Pablo Villaça

29/10/2010  |  domtotal.com

E Se Fosse Verdade

Direção: Mark Waters

Roteiro: Peter Tolan,Leslie Dixon

Elenco: Mark Ruffalo (David Abbott), Reese Witherspoon (Dra. Elizabeth Masterson), Jon Heder (Darryl), Ivana Milicevic (Katrina), Donal Logue (Jack Houriskey)

Sinopse: Arquiteto de San Francisco descobre, em seu armário, o espírito de uma mulher em coma. Logo, eles se apaixonam e ele é o único que pode impedir que os aparelhos dela sejam desligados.

E Se Fosse Verdade é um filminho simpático protagonizado por dois atores carismáticos e talentosos. E, ainda assim, aqui estou eu utilizando a palavra `filminho`, obviamente pejorativa, para descrevê-lo e isto não é um bom sinal. Pois a verdade é que por mais engraçadinha e bobinha que uma produção seja, ela jamais deveria inspirar adjetivos apenas no diminutivo, já que isso revela algo nada admirável: falta de qualquer tipo de ambição por parte de seus realizadores.

Ora, por mais tola que uma idéia possa parecer, ela deve ser levada a sério no mínimo por quem está disposto a desenvolvê-la: Debi & Lóide é um filme idiota? Sem a menor sombra de dúvida. Mas encara sua própria idiotice com zelo absoluto. Já o diretor Mark Waters e os roteiristas Peter Tolan e Leslie Dixon parecem desmotivados por terem consciência de que longas similares a este já foram feitos e refeitos inúmeras vezes, de uma forma de outra, e adotam uma atitude mecânica, como se estivessem no piloto automático.

O fato de não ser `novo` não implica, necessariamente, que um roteiro está fadado ao fracasso. O próprio Mark Waters provou isso ao dirigir o ótimo Meninas Malvadas, que investia no mais do que batido subgênero `comédia adolescente`.

Aqui, no entanto, ele parece ter desistido de se esforçar antes mesmo de rodar o primeiro plano. O resultado é inevitável: por mais que Reese Whiterspoon e Mark Ruffalo se esforcem em criar personagens agradáveis e simpáticos, acabam sendo abandonados pelo filme que os cerca.

Sim, compreendemos que a atriz vive uma jovem médica cuja dedicação exagerada à carreira vem comprometendo sua vida pessoal; sim, percebemos que Ruffalo está deprimido em função do fim de seu casamento (qualquer que seja o motivo deste fim); e, sim, entendemos que, depois de um acidente de carro, o espírito da dra. Elizabeth passa a ser visto pelo rapaz. Mas nada disso soa natural ou, no mínimo, interessante, mas apenas... uma historinha esquemática e desgastada. (E voltei aos diminutivos, como podem perceber.)

A princípio, por exemplo, é interessante perceber que David encara a presença de um espírito em seu apartamento de maneira pragmática, procurando encontrar uma solução para o inconveniente em vez de ficar se debatendo com a questão de que está vendo `fantasmas`; porém, quando mais tarde Elizabeth se interessa pelos problemas pessoais do rapaz de forma súbita, sem qualquer justificativa, compreendemos que, na realidade, a objetividade de David nada mais é do que um sinal claro da preguiça dos roteiristas em desenvolver melhor sua gradual aceitação da situação.

Além disso, as constantes discussões entre os protagonistas jamais soam verossímeis, revelando-se logo como o velho clichê do `casal que briga o tempo todo apenas para disfarçar a atração que sentem um pelo outro`, utilizado em 9 de cada 10 comédias românticas.

Outro velho recurso do gênero empregado pelo cineasta é a utilização da trilha sonora para comentar/reforçar o que está ocorrendo na tela: cada música parece ter sido escolhida para explicar para o espectador (caso este tenha um QI digno de Rob Schneider) o que os personagens estão sentindo naquele momento.

Enquanto isso, o roteiro, sentindo necessidade de colocar mais alguns obstáculos no caminho da heroína a fim de prolongar a duração do filme, acrescenta uma vizinha ninfomaníaca que, é claro, vai gerar algum mal-entendido que leve Elizabeth a questionar a sinceridade do amado – ao menos, por alguns segundos. Aliás, outro `obstáculo` inconseqüente atirado de forma leviana na história pelos roteiristas é aquele relacionado a uma certa decisão que a irmã de Elizabeth deve tomar (uma questão gravíssima que, por incrível que pareça, ela resolve em menos de 24 horas, embora não tivesse a menor obrigação de ser tão temerariamente rápida).

E já que estou questionando o roteiro, por que, afinal de contas, Elizabeth sonha com aquele jardim? Qual é a explicação para aquilo?

É claro que, durante a projeção, E Se Fosse Verdade não resiste a investir em situações presentes em praticamente toda comédia envolvendo espíritos: David é visto com desconfiança por todos, já que aparentemente fala sozinho o tempo inteiro, e há o inevitável momento em que Elizabeth entra no corpo do rapaz e tenta assumir o controle de seus atos (algo que Mark Ruffalo retrata com talento, embora jamais tenha a chance de desenvolver a piada, já que o roteiro logo a descarta – o que é uma pena, já que a brincadeira ofereceu ótimas oportunidades para Steve Martin em Um Espírito Baixou em Mim e para Robert Downey Jr. em Morrendo e Aprendendo).

Previsível do início ao fim, E Se Fosse Verdade é um daqueles filmes que deixam o espectador seguro de que, dentro de 90 minutos, um beijo acompanhado por uma música romântica grandiosa tomará conta da tela. E isto não é necessariamente algo ruim; há um certo conforto em saber que tudo dará certo no final. Mas um pouquinho mais de ambição não machucaria ninguém.


Pablo Villaça é crítico de cinema desde 1994 e colaborador do quadro "Ponto Crítico" da revista SET. Escreve também para o renomado Movie City News, além de ser o único brasileiro citado pelo Rotten Tomatoes, mais famoso portal de críticas da Internet. Em 2005, lançou seu primeiro livro, "O Cinema Além das Montanhas". Editor do site Cinema em Cena, foi o único profissional estrangeiro a participar em Nova York de um seminário sobre Crítica promovido pelo jornal The New York Times. Em 2008, escreveu e dirigiu seu primeiro filme, o curta-metragem "A_Ética".






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