Colunas José Adércio Leite Sampaio
Inside Job e a naturalização da injustiça
“Inside Job” [Trabalho ´Interno´] é um documentário muito bom, mas com um potencial defeito: induzir-nos duas reações terríveis. Uma, nacionalista, a lamentar que tenha tirado, em 2011, o Oscar das mãos do lixo carioca, enlatado para gringo, é verdade, mas também um grande documentário. Um "Lixo Extraordinário". A outra reação é, todavia, mais grave.
Podemos terminar de ver o documentário com a sensação de que vivemos ainda em sociedade de castas ou de estados. E não podemos mudar o destino das coisas. Há os que nascem, vivem e morrem para trabalhar e se submeter aos rigores da lei, enquanto outros vêm ao mundo para fazer o que bem quiserem, furtando-se às consequências negativas de seus atos.
Uns são corpos e almas à disposição dos comandos e das normas. Outros são seres indiferentes às ordens morais e jurídicas. E imunes às suas penalidades. Podemos adotar duas atitudes em relação a essa injustiça natural. Uma é acreditar nas sanções espirituais. E nos conformarmos. Há um Deus que a tudo vê e, no juízo final, apurará as contas de cada um.
A segunda é professarmos outra crença: a de que poderemos ser um deles. Passaremos a vida a imitá-los, bajulá-los e defendê-los. Serviçais de seus prazeres, não custaremos a encontrar a saída. Dolorosa saída. Sequer cheiraremos o mesmo pó e, ainda por cima, pagaremos por tráfico. Sem direito de defesa.
Mas o documentário tem uma virtude poderosa. Não se trata apenas de apontar o cinismo do sistema capitalista ou a promiscuidade entre o poder político e o poder econômico. Há algo de revolucionário em seu final. Instigar-nos a um inside job mais proveitoso: em que mundo vivemos, convertidos, convencidos ou acomodados. E o que podemos e devemos fazer para mudá-lo.
José Adércio Leite Sampaio
é Jurista. Graduado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre e Doutor em Direito Constitucional pela UFMG. Procurador Regional da República. Professor da Escola Superior Dom Helder Câmara.
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Comentários
as coisas podem deixar de ser tão normais assim... claro que isso não se faz gratuitamente... enfim, verei o filme! (rs)
Concordo - "Lixo Extraordinário" um grande filme! Não vi este que vc comenta, mas o verei, sobretudo depois de ler seu comentário. Talvez se começarmos a nomear esses "fenômenos", não sei, as coisas podem deixar um pouco de serem tão normais. Quem sabe? PERVERSÃO é um dos nomes, ou não? Valeu a dica. Vai pro meu facebook! Um abraço.
Caríssimo professor, você me fez lembrar do trecho da música do grande poeta Renato Russo: " Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo. Quem roubou nossa coragem?" Não podemos nos acomodar ou nos entristecer diante das dificuldades. Como formador de opiniões, como respeitado professor e jurista, você tem uma grande missão de mudar o mundo em sua volta. E, acredito, como uma grande idealista que sou, é possível fazer grandes mudanças. Mas tenho aprendido que a maior mudança que posso fazer é em mim mesma. Se eu conseguir isso, despojando-me dos meus defeitos, fazendo uma reforma íntima, acho que já é um bom começo. Grande abraço e parabéns pelos artigos que sempre acompanho!