Colunas Bruno Terra Dias

03/11/2011

Tempo, memória e simbolismo


Minas Gerais tem suas histórias e suas memórias, registradas em fatos, em sua bandeira, nos nomes de cidades e ruas, nos campos e nos livros de nossa gente. Gente que pautou a vida por valores como a liberdade e a autonomia, a sobriedade no trato da coisa pública e a democracia. O Dia de Finados é momento apropriado a uma reflexão sobre pessoas, fatos, símbolos e valores que constituíram o sentimento de ser mineiro. Esse sentimento atávico que herdamos, que não precisamos explicar, que todos entendemos e que os de outros solos se admiram de não dominar.

 Pois ser mineiro vem antes de ser brasileiro, vem da gênese da Nação. Nossos mártires não se refugiaram nos claustros da indiferença de quem passa pela vida com o cuidado de apagar rastros. Deixaram cantos de liberdade, na poesia e na política, nos atos da vida privada e em família.

Suas marcas foram as de arrostar a infâmia ditada pela coroa portuguesa, acalentar o sonho republicano, abraçar os ideários de liberdade e democracia, pagando mesmo com a vida, o degredo e riscos diversos, o preço de forjar um espírito de resistência contra toda ordem ilegítima, a ponto do estadista maior destas terras, sintetizar: "Minas, seu segundo nome é Liberdade!"

O primeiro compromisso de Minas Gerais, hoje, é com a democracia, forma mais ampla de liberdade política e responsabilidade cívica que nos foram legadas por Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa, Inácio José de Alvarenga Peixoto, Joaquim José da Silva Xavier, Francisco de Paula Freire de Andrada, José Álvares Maciel, Padre José da Silva de Oliveira Rolim, Padre Carlos Correia de Toledo e Melo e Padre Luiz Vieira, no movimento conhecido como Inconfidência Mineira. À época, inconfidência era crime e inconfidente era o tratamento dispensado a quem o cometia. Hoje, inconfidência é o lastro político formativo da Nação e inconfidentes são os seus ideólogos e ativistas, heróis da pátria.

Outros nomes também deu nosso Estado ao Brasil, renovando o compromisso com as liberdades civis. Teófilo Benedito Otoni, nascido na Vila do Príncipe, atual município do Serro, no outono da Colônia (1807).

Tornando-se adulto e afirmando convicções liberais e republicanas logo ao início do Império, participou de Revolução em Santa Luzia, fundou Filadélfia (que mais tarde receberia o topônimo de Teófilo Otoni), foi comerciante, deputado e senador. Faleceu aos 61 anos, em 1869, no Rio de Janeiro. Sua importância, embora digna de fazer com que figure entre os maiores nomes do século XIX, jamais foi adequadamente reconhecida.

 Lafayette Rodrigues Pereira, nascido em Queluz, em 1834, foi advogado, político, jornalista, senador, conselheiro de Estado, diplomata, grande jurista, excelente orador, árbitro em questões internacionais, membro da Corte de Arbitragem de Haia. Era liberal e professava o republicanismo, o que não o impediu de agigantar-se mesmo no Império. Sua vasta produção intelectual é bastante conhecida. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1917.

 A primeira década do século XX foi pródiga, para Minas Gerais e para o Brasil, dotando a política de quatro dos maiores nomes de nossa história. Pedro Aleixo (nascido em Mariana, em 1901), José Maria Alkmin (nascido em Bocaiúva, em 1901), Juscelino Kubitschek de Oliveira (nascido em Diamantina, em 1902) e Tancredo de Almeida Neves (nascido em São João del-Rei, em 1910). Os quatro, por terem biografias mais recentes, são mais conhecidos do público atual, embora muito de suas histórias não alcance a maior parte da população brasileira, que desconhece sua relevância para a formação do Brasil atual.

Homens múltiplos, por vezes antagonizando-se na vida política estadual e nacional, os quatro, e tantos outros, estiveram presentes nos momentos máximos da recente história brasileira, criando o Tribunal de Contas do Estado e integrando sua primeira composição; subscrevendo o Manifesto dos Mineiros contra a ditadura Vargas, em outubro de 1943; dispondo-se a enfrentar, consciente dos riscos à própria vida, a pior crise governamental de 1954, que culminou com a abreviação do mandato presidencial, em ato derradeiro de uma era; abrindo Belo Horizonte, Minas Gerais e o Brasil para os traços da arquitetura singular de Niemeyer; projetando o país para a industrialização; não se escusando à faina de ser Ministro da Fazenda diante da hercúlea tarefa de viabilizar a construção de Brasília, promover a industrialização do país e firmar as bases do crescimento econômico; assumindo a liderança da experiência parlamentarista, de modo a evitar conflitos fratricidas em época de profunda turbulência; recusando subscrição ao AI-5, ainda que ao custo de perder a segurança, pessoal e familiar, de deslocar-se por terra e ar, e plenamente cônscio de que seria impedido de assumir, como civil defensor do ideário democrata, a presidência da República; empolgando multidões, mesmo após o fracasso na votação da Emenda Dante de Oliveira, para legitimar mandato que possibilitasse uma transição pacífica para uma verdadeira democracia; padecendo para prover o quanto necessário a que os ideais que forjaram a ideia de Nação, ao fim do século XVIII, se mantenham vivos, e compromissando o povo mineiro como guardião das liberdades cívicas e democráticas do nosso país.

Eis o testemunho das vidas que os citados, e tantas outras personalidades dignas de lembrança pelas novas gerações, deixaram para inspirar e atribuir novo sentido à data de respeito aos mortos.

Bruno Terra Dias é ex-presidente da Associação dos Magistrados Mineiros (Amagis). Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, ocupando a cadeira nº 34, e do Instituto dos Advogados de Minas Gerais. Bacharel em Direito pela UFMG. Magistrado em Minas Gerais desde 1990. Possui artigos publicados em jornais, revistas jurídicas e de cultura, bem como em sítios eletrônicos especializados. Palestrante em diversos congressos e seminários.


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