Colunas José Adércio Leite Sampaio
Kitsch Cristina
I wish I was special, but I´m a creep, I´m a weirdo (Radiohead).
Nosso amor, Cristina, virou um roteiro previsível de falsetes, palavras ditas e repetidas ao aceno automático da vida. Promessas vãs, brigas infindas e confissões iguais, vulgares, filmes noirs de glamour duvidoso. É como fôssemos agora um par de velhos a girar seus choros num Dodge Dart 76 ao som da música de Odair: “As minhas coisas de repente estão tristes.” Nos descobrimos kitsches, kitsches, Cristina, triste, como no fim é toda história de amor, o excesso na cor das palavras, os gestos exagerados, as mentiras estranguladas entre gritos como fôssemos um e outro culpados, inocente, sabemos, ninguém é. Não seríamos nós a exceção.
Viramos bregas, Cristina, como um bolero rasgado de Reginaldo, um tango desafinado de Delfino, uma declaração de amor de Roberto. Escute, Cristina, não desligue, somos humanos e erramos. Somos humanos e amamos. Somos humanos, Cristina, amar é um engano; amar é um engodo, Cristina, que se compra nas farmácias da solidão, essa desventura de querer o pedaço que nos falta no pedaço que também falta ao alheio que inexplicavelmente nos atrai, injustificadamente nos apraz. Mas a mais, amar é uma esperança. De sermos infinitos, de sermos imortais, Cristina, mas são todos humanos, desgraçadamente humanos. Não seríamos nós a exceção.
Nada é bastante ou poderia ser, porque já começamos no erro de achar que o amor nos compraz e redime. O amor é a trapaça que nos esconde de nós mesmos, de nosso tamanho formiga, de nossas dores anímicas, nossas dores humanas, Cristina. Não grite, Cristina, não chore, não torne ainda mais clichê o que não mais a encanta.
Sei que o amor não é matemática, mas calculei que seria assim, a mentira medida para despertar essa fúria que nos nega a dois, porque amor também não é intolerância e negação. Se a mentira foi insana, a sua reação foi uma lástima, Cristina, sinal de que nosso amor foi um equívoco de nossa natureza - humana.
Ai que nosso amor se tornou tão comum que não distinguimos, como queríamos, nossa história de outras. Iludidos somos todos, Cristina, que amamos ou pensamos. E, de toda forma, não me culpe, nem se culpe, o amor sempre é meio patético e cafona mesmo. Não seria o nosso, o que chamávamos de amor, diferente. Por isso nos descobrimos kitsches, Cristina. Mas amar é humano, Cristina, e continuar amando também. Por isso, não desligue, não se desligue. Odair ainda toca e os velhos estão a girar seu Dodge Dart 76.
José Adércio Leite Sampaio
é Jurista. Graduado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre e Doutor em Direito Constitucional pela UFMG. Procurador Regional da República. Professor da Escola Superior Dom Helder Câmara.
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