Colunas Johan Konings
21/03/2012
Formação e pessoa
Para a participação cidadã, ativa e criativa numa mudança que não seja um projeto pré-fabricado, é preciso formação humana integral, formação para a percepção e a responsabilidade.
Alguém me perguntou qual era o problema número um da Bélgica. Respondi: os belgas. Na mesma lógica, provavelmente, o problema número um do Brasil devem ser os brasileiros. O problema não é, em primeiro lugar, “o Brasil”, o Governo, o Estado, o FMI, as estruturas, a colonização portuguesa... O problema não é, em primeiro lugar, algo anônimo ou coletivo, mas as pessoas. Eu mesmo usei muito o discurso de “transformar as estruturas”, e esse discurso está certo, mas é insuficiente. É verdade que não se consegue mudar as pessoas se são prisioneiras de condicionamentos estruturais insuperáveis. Mas, por outro lado, como é que você vai superar esses condicionamentos estruturais, sem pessoas que o façam? Aguardando até que as estruturas “se mudem”? Haja paciência! Gandhi disse: “Seja você mesmo a mudança que quer ver no mundo.”
As mudanças estruturais só acontecem quando se modificam as cabeças porque as pessoas participam como sujeitos. Diz-se: “Você nunca vai conseguir mudar as pessoas”. De fato, as pessoas não serão mudadas se elas mesmas não se mudam, mudando de atitude, de cabeça. Mas se elas estão envolvidas como sujeitos na mudança necessária, é diferente. Isso, com a condição de que elas mesmas criem a mudança, não a executem mecanicamente segundo previsões sonhadas pelo lado direito ou pelo lado esquerdo do cérebro.
Para essa participação ativa e criativa numa mudança que não seja um projeto pré-fabricado, é preciso formação humana integral, formação para a percepção e a responsabilidade.
A percepção está muito fraca. As pessoas parecem cegas e surdas. O profeta Isaías desejava que seu povo se libertasse de sua surdez e cegueira “pelas palavras do livro” (Is 29,18). E qual seria entre nós o símbolo da surdez? Os jovens ensurdecidos pelos decibéis de suas “raves”, os carros de som que, sem fiscalização, tiram o sossego de todos, os velhos que não querem ouvir nada, mas fingem que sabem tudo? E quanto à cegueira: os motoristas que avançam sem querer ver que o cruzamento está saturado, que estacionam em fila dupla ou tripla, fechando o trânsito, que não notam o ciclista na pista? Ou os responsáveis pelo ensino que não veem que as crianças passam pela escola sem aprender a ler? Tudo isso é símbolo, quer dizer, sinal que aponta para muito mais. Revelações cotidianas da surdez e da cegueira, da falta – nem sempre inocente – de percepção.
Será falta de cultura geral, como dizem certos acadêmicos? Depende do que se entende por isso. Se cultura significa cultivo do que é valioso na vida humana em geral, está certo. Se significa apenas erudição, não vale. O país com a melhor educação escolar do mundo, a Finlândia, não parece predestinado a brilhar pela erudição: não está no centro do mundo ou na encruzilhada das grandes culturas. Não penso que muitos finlandeses estudem grego e latim. Já matemática, sim, e música de todos os tempos, também! E entendem de internet, criaram e até distribuíram de graça o Linux. Não são enciclopédias ambulantes e falantes, mas sabem onde encontrar as informações de que precisam.
Formação humana integral não é profusão de informações, nem de erudição importada. Trata-se, fundamentalmente, da percepção pessoalmente assimilada, segundo a possibilidade de cada um, do mundo em que se vive, em todas as suas dimensões: pessoal, pública, cultural, política, religiosa, econômica, ecológica... É essa a verdadeira cultura geral que se espera todos tenham, a fim de viver e ajudar os outros a viver, da melhor maneira possível, para o bem de todos.
E além da percepção, o outro objetivo da formação humana integral é a responsabilidade. Quem vai responder por aquilo que eu faço? A coletividade, o Brasil? Não. Eu mesmo! Ora, para poder responder por aquilo que faço é preciso que eu saiba bem o que estou fazendo, quais as implicações e conseqüências, “com que mexe” aquilo que faço, o que devo saber e observar para que surta o efeito desejado.
Percepção e responsabilidade são os pilares da formação humana integral. Cultura erudita pode ser útil para algum aspecto, conhecimento técnico avançado para outro, mas o que é necessário para todos sermos sujeitos daquilo que juntos vivemos e construímos é a formação humana integral: formação para perceber o que determina nossa convivência e reforçar nosso senso de responsabilidade, no contexto que assim percebemos. Por essa via chegaremos a mudar coisas de longo alcance – inclusive, estruturais.
Esta reflexão deve muito a algumas reações recebidas. Mandem reações, estamos conversando.
As mudanças estruturais só acontecem quando se modificam as cabeças porque as pessoas participam como sujeitos. Diz-se: “Você nunca vai conseguir mudar as pessoas”. De fato, as pessoas não serão mudadas se elas mesmas não se mudam, mudando de atitude, de cabeça. Mas se elas estão envolvidas como sujeitos na mudança necessária, é diferente. Isso, com a condição de que elas mesmas criem a mudança, não a executem mecanicamente segundo previsões sonhadas pelo lado direito ou pelo lado esquerdo do cérebro.
Para essa participação ativa e criativa numa mudança que não seja um projeto pré-fabricado, é preciso formação humana integral, formação para a percepção e a responsabilidade.
A percepção está muito fraca. As pessoas parecem cegas e surdas. O profeta Isaías desejava que seu povo se libertasse de sua surdez e cegueira “pelas palavras do livro” (Is 29,18). E qual seria entre nós o símbolo da surdez? Os jovens ensurdecidos pelos decibéis de suas “raves”, os carros de som que, sem fiscalização, tiram o sossego de todos, os velhos que não querem ouvir nada, mas fingem que sabem tudo? E quanto à cegueira: os motoristas que avançam sem querer ver que o cruzamento está saturado, que estacionam em fila dupla ou tripla, fechando o trânsito, que não notam o ciclista na pista? Ou os responsáveis pelo ensino que não veem que as crianças passam pela escola sem aprender a ler? Tudo isso é símbolo, quer dizer, sinal que aponta para muito mais. Revelações cotidianas da surdez e da cegueira, da falta – nem sempre inocente – de percepção.
Será falta de cultura geral, como dizem certos acadêmicos? Depende do que se entende por isso. Se cultura significa cultivo do que é valioso na vida humana em geral, está certo. Se significa apenas erudição, não vale. O país com a melhor educação escolar do mundo, a Finlândia, não parece predestinado a brilhar pela erudição: não está no centro do mundo ou na encruzilhada das grandes culturas. Não penso que muitos finlandeses estudem grego e latim. Já matemática, sim, e música de todos os tempos, também! E entendem de internet, criaram e até distribuíram de graça o Linux. Não são enciclopédias ambulantes e falantes, mas sabem onde encontrar as informações de que precisam.
Formação humana integral não é profusão de informações, nem de erudição importada. Trata-se, fundamentalmente, da percepção pessoalmente assimilada, segundo a possibilidade de cada um, do mundo em que se vive, em todas as suas dimensões: pessoal, pública, cultural, política, religiosa, econômica, ecológica... É essa a verdadeira cultura geral que se espera todos tenham, a fim de viver e ajudar os outros a viver, da melhor maneira possível, para o bem de todos.
E além da percepção, o outro objetivo da formação humana integral é a responsabilidade. Quem vai responder por aquilo que eu faço? A coletividade, o Brasil? Não. Eu mesmo! Ora, para poder responder por aquilo que faço é preciso que eu saiba bem o que estou fazendo, quais as implicações e conseqüências, “com que mexe” aquilo que faço, o que devo saber e observar para que surta o efeito desejado.
Percepção e responsabilidade são os pilares da formação humana integral. Cultura erudita pode ser útil para algum aspecto, conhecimento técnico avançado para outro, mas o que é necessário para todos sermos sujeitos daquilo que juntos vivemos e construímos é a formação humana integral: formação para perceber o que determina nossa convivência e reforçar nosso senso de responsabilidade, no contexto que assim percebemos. Por essa via chegaremos a mudar coisas de longo alcance – inclusive, estruturais.
Esta reflexão deve muito a algumas reações recebidas. Mandem reações, estamos conversando.
Johan Konings
Johan Konings nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colegio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Foi professor de exegese bíblica na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre (1972-82) e na do Rio de Janeiro (1984). Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE - Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte, onde recebeu o título de Professor Emérito em 2011. Participou da fundação da Escola Superior Dom Helder Câmara.
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Comentários
Johan, agradecimentos pelo oportuno e excelente artigo. Saudações. Nelcy
Nelcy Ungaretti Moresco, obrigado, está na hora de retomarmos a visão da educação como verdadeira formação humana.
Konings, parabéns pela bela reflexão. Na condição de educador, comprometido com o lapidadação da alma humana, assino o seu texto e comungo com seu espírito Abraço Celito Meier
Obrigado, Celito, temos de unir nossos esforços para avançar nesta luta urgente.