JESUÍTAS: 500 ANOS DE TRADIÇÃO E EXCELÊNCIA ASSINE NOSSA NEWSLETTER CONTATO

Colunas Rudá Ricci

07/11/2008  |  domtotal.com

A diferença política na região sudeste

Já teve início, principalmente nas listas de discussão na internet, a abertura de apostas sobre os futuros de Aécio Neves, José Serra e Gabeira. Nos últimos dias, rondaram sugestões de todo tipo, incluindo o nome de Gabeira como alguém que poderia galvanizar o descontentamento nacional. Comentarei esta tese, em primeiro lugar, já que em artigo anterior (ver “Primeira contabilidade das eleições no segundo turno”) analisei as possibilidades dos governadores de São Paulo e Rio de Janeiro. Em seguida, tentarei desenvolver uma breve análise sobre como esses três Estados do sudeste vêm construindo lideranças políticas com perfis muito distintos entre si. Na verdade, os dois temas se relacionam.

A tese sobre o surgimento (ou ressurgimento) de Gabeira no cenário nacional apóia-se nas seguintes premissas:

1) A eleição no Rio de Janeiro foi diferenciada de todas experiências eleitorais do país;
2) Ainda é um onda que se propala, pois ela está sendo rolada pela internet em grupos de discussões;
3) Jornalistas de várias regiões (principalmente do Sul, Sudeste e Centro-Oeste) buscam com ansiedade informações mais detalhadas sobre este fenômeno;
4) A campanha de Gabeira teve repercussão internacional. Está sendo acompanhado como experiência de sucesso pelo movimento Global Green porque Gabeira apresentou-se na campanha ancorado por um movimento voluntário e espontâneo - Smart Mob, por exemplo - que visava mobilizar politicamente em torno de prestações de serviço comunitários e de solidariedade - doar sangue foi uma delas - sem sujar as ruas, sem comitês tradicionais, sem cabos eleitorais tradicionais, integrando em redes virtuais;
5) A campanha de Gabeira teria passado por fora da burocracia do Estado e partidária. A campanha mobilizou mais de 8 mil voluntários, e mais de 1 milhão de acessos, que agora se constituiriam uma rede social;
6) Finalmente, em função deste capital político, uma chapa Gabeira/Marina da Silva poderia se apresentar como um outra força política no universo da transição do lulismo 2010.

A tese é instigante, mas não me parece alicerçada em tendências nacionais. Antes, está ancorada numa situação que me parece muito local, muito carioca. Tentarei fundamentar esta impressão.

Gabeira sempre chamou atenção internacional, assim como de vários segmentos de classe média, por ser um outsider. Seu livro “O que é isso, companheiro?” é, desde o título, uma provocação ao marginal. Mas uma provocação não conservadora. Assim, firmou-se como o avesso do avesso do avesso. Um transgressor que não rompe com a ordem. Tipicamente carioca (embora seja mineiro). Seus outros livros (de “Entradas e Bandeiras”, “O Crepúsculo do Macho” à “A Maconha”) reforçaram esta imagem. Somente em 2006, com o livro “Navegação na Neblina” (uma coletânea de seus artigos focados na prática política formal), começa a construir uma ponte entre o perfil construída desde sua volta do exílio à sua performance parlamentar.

Assim, sempre esteve em destaque como uma espécie de novidade permanente, além de bem exótico. O fato é que, a partir daí, não há elementos que garantam uma tendência de crescimento de sua liderança política, como representante de massas. Chama a atenção, gera curiosidade, mas não percebo que galvanize ou mobilize uma mudança de comportamento nacional.

Relembro que Gabeira possui um perfil outsider, líder de bandeiras públicas intelectualizadas. Ocorre que um contingente imenso de pobres brasileiros subiu para classe C nos últimos cinco anos: 42% da população brasileira já é classificada como classe média (a grande maioria na linha de fronteira, obviamente). Esta situação alterou o perfil e o ideário da classe média brasileira. Mesmo porque, houve achatamento do poder aquisitivo das classes médias mais abastadas. Assim, temos de um lado o ressentimento dos segmentos mais “tradicionais” da classe média brasileira, mas a euforia dos emergentes deste segmento social. Ora, até a grande imprensa nacional confunde uma possível aspiração da classe média nacional com o padrão norte-americano.
No nosso caso, a ascensão social se deu pelas políticas de transferência de renda e previdência. Aliás, os municípios com mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país vivem desses recursos. As transferências de receitas federais e estaduais representam quase 80% da composição do orçamento anual de uma gama imensa de municípios brasileiros pequenos e/ou pobres. Assim, como ser prefeito em oposição aos ministros e secretários estaduais de governo? Gabeira não penetra, nem de longe, nesta lógica.

Há, ainda, o fenômeno recente (que o antropólogo Gilberto Velho apontou de relance numa entrevista) na política nacional: os clássicos formadores de opinião não criam mais a “onda de opinião” que ocorria em nosso país. Nas últimas eleições ocorreram movimentos inversos, em muitos casos (a classe média alta e bem instruída alterando sua opinião a partir de uma “onda popular”. Em muitas capitais, o voto volúvel é muito significativo. Aliás, o voto volúvel é uma situação típica do Rio de Janeiro. Nenhuma liderança deste Estado se manteve por muito tempo em evidência nos últimos anos. A partir de Marcello Alencar, tivemos uma sucessão de lideraças de momento: Anthony Garotinho, Cesar Maia, Benedita da Silva. Lideranças que surgiram, duraram poucos anos e mergulham no ostracismo. Por qual motivo? Justamente porque o Estado do Rio de Janeiro vive uma crise econômica e social há anos. E com a crise, o sistema de representação formal é corroído sistematicamente. O fenômeno Gabeira nas eleições deste ano parece herdeiro desta fluidez.

Gabeira não é um político novo no cenário nacional. Pelo contrário. Já foi lançado com candidato a vice-Presidente da República, compondo chapa com Lula (sendo substituído logo em seguida pelo deputado José Paulo Bisol, com um perfil também outsider, mas mais acomodado). Enfim, de onde renasceria esta “novidade Gabeira” que incendiaria o país como um Obama tunpiniquim?

Finalmente, os estudos da cultura política do brasileiro não batem em nada com o perfil de Gabeira. Neste caso, não é possível confundir a intenção dos descontentes com a política formal com uma espécie de legitimidade ou identidade com Gabeira, o que o tornaria um candidato-protesto ou, novamente, um político outsider. Mas, mais uma vez, cito pesquisas como a do PNUD (Programa Nação Unidas para o Desenvolvimento) que revela que 42% dos brasileiros não sabem se são favoráveis à democracia ou autoritarismo. Ainda podemos repisar os dados do IBOPE que revelam que a população mais instruída do país é muito mais favorável à tortura (mais de 40%, sendo que entre os menos instruídos esta opinião não atinge mais que 19%, por motivos óbvios), marcada pelo medo social e pela total ausência de formação cidadã nas nossas faculdades. Dados do Provão/Enad indicam, para completar esta seção de dados, que estudantes de carreiras mais valorizadas (administração e engenharia, por exemplo) nunca tiveram qualquer ação de voluntariado ou envolvimento com atividades sociais (mais de 90%) e nem querem ter (mais de 85%) e nem mesmo participaram ou desejam participar de atividades extra-curriculares.

O problema de momento de Gabeira é que é uma figura local ou circunscrita. O centro da política nacional voltou a ser Minas Gerais e São Paulo. Não apenas porque possuem a maior fatia do eleitorado nacional (SP com 29 milhões e MG com 14 milhões, seguido pelo RJ com 11 milhões, além de MG ser o Estado do país com maior número de municípios cujo eleitorado é maior que sua população!), mas porque possuem as lideranças mais estáveis e projetadas publicamente pelo país afora e também porque, hoje, lideram a agenda nacional. Rio de Janeiro não consegue resolver seus problemas domésticos com suas lideranças e evidentemente não é vitrine para o país.

Assim, Gabeira, sem experiência administrativa e sendo eterno outsider da política, só estará no páreo se atrair o voto de protesto. Caso contrário, terá que conquistar um desses dois quesitos: provar ser um bom administrador ou deixar de ser outsider e se envolver mais com esta cultura popular de tipo conservadora.

Se nada mudar significativamente, ele continuará aparecendo aqui ou ali, sem grandes influências no cenário regional ou nacional.

E, assim, finalizo este artigo. Antes, fazendo um breve comentário sobre os políticos em ascensão na região sudeste. Ao menos os vitoriosos ou com grande projeção. Nas quatro capitais e Estados, os políticos vitoriosos ou governantes procuram construir um perfil técnico e racional. Sérgio Cabral é o mais extrovertido, mas não em demasia. Todos, com exceção de José Serra, fazem parte de uma nova geração de políticos. Não são muito ousados administrativamente, procuram, antes, focar o “equilíbrio orçamentário” e produzir grandes obras de infraestrutura. Embora a prática (nos bastidores da política) não seja conciliadora (muito pelo contrário), o discurso que propagam vai nesta direção.

Gabeira, convenhamos, é o avesso deste perfil.
E por este motivo, apenas o aumento de ressentimento nacional, uma crise avassaladora, uma ruptura política no cenário nacional ou no próprio perfil de Gabeira poderá catapultá-lo diretamente ao desafio de 2010. Caso contrário, será uma personalidade de forte representação local e o desejo de alguns poucos brasileiros convencidos que ele será o vetor da mudança institucional necessária.


Rudá Ricci é Sociólogo, Mestre em Ciências Políticas e Doutor em Ciências Sociais. Professor do Mestrado em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior Dom Helder Câmara. Diretor Geral do Instituto Cultiva e membro da Executiva Nacional do Fórum Brasil do Orçamento. Membro do Observatório Internacional da Democracia Participativa. Prêmio Grande Mérito Educacional. Autor de "Terra de Ninguém" (Editora Unicamp), co-autor em "A Participação em São Paulo" (Editora UNESP), "Orçamento Participativo Criança!" (Editora Autêntica) e "Dicionário da Gestão Democrática" (Editora Autêntica). Autor de "Lulismo - Da Era dos Movimentos Sociais à Ascensão da Nova Classe Média Brasileira" (Editora Contraponto).






X Fechar







código captcha






Outros artigos

Vídeos

Lula de 350 quilos passa por necropsia
Acervo de Entrevistas

Agenda Cultural

Cinema  |  Teatro  |  Shows
Filmes Se Eu Ficar
"If I Stay"
Drama
1h46min.

Enquete

Qual deve ser a maior preocupação do candidato à presidente da República que vencer as Eleições?

Diminuir a desigualdade social
Economia
Energia
Mobilidade urbana
Reforma política
Saúde e educação

Participe e concorra a prêmios.

TV DomTotal

Prof. Danilo Mondoni: Luzes do Cristianismo
Mais

Revista

Vol. 10 / Nº 19

CAPES: Qualis B1
Entre as melhores do Brasil