Colunas Felipe Peixoto Braga Netto
20/05/2009
Como é que se tira isso?
“A gramática precisa apanhar todos os dias para aprender quem é que manda no texto”
Luis Fernando Veríssimo
Que inveja dos escritores de antigamente... Não existia esse maldito corretor ortográfico nos computadores. Alguém sabe como se tira isso? Do meu ele não sai, parece um fiscal, severo e implacável, com um dicionário debaixo do braço, pronto a apontar meus erros. Que diabo!
Não dá pra escrever em paz. Escrevo com medo. Escrevo, e dou uma espiada, de canto de olho, meio que pedindo, submissamente, aprovação. Por exemplo, esse submissamente não foi aprovado. Lá está ele, coitado, sublinhado, escandalosamente, em vermelho. É uma maldade, com as palavras e com os escritores.
Porque, não sei se sabem, mas há palavras tímidas, como há pessoas tímidas. Palavras que não se sentem bem sublinhadas, ainda mais em vermelho. O que pensarão as outras? Lá está ela, sem nenhuma colega - sozinha entre duas vizinhas - marcada com espalhafatosas linhas rubras.
Imagino o suplício de Guimarães Rosa no computador. Sua tela seria de uma vermelhidão só. Rara, raríssima, seria a palavra sem a reprovação vermelha. Acho que ficou livre dessa. Se não, talvez tivesse ficado encantado mais cedo, de raiva. Eu já estou quase lá, quase pegando minha mala para visitá-lo, desgostoso com esses chatos seres informáticos que tudo sabem.
É um pouco humilhante... A espécie que a pertenço, bem ou mal, está nesse planeta há um tempão. O computador é um recente intruso. Não fica bem querer corrigir o homem a todo instante. Deviam ser mais humildes. Não entendo muito de computadores, admito, mas desconfio que o meu tem um prazer supremo em me ver escrevendo besteira, só pra pensar em vermelho: esse Felipe é uma besta!
Sim, eu sei, há escritores que adoram encontrar uma palavra não dicionarizada. São os espíritos inventivos, rebeldes, iconoclastas. Triste, reconheço que não sou assim. Não sei brigar com o corretor. Se ele diz que estou errado, acato. Afinal, ele é amigo dos dicionários, gente de muita letra, eu é que devo estar enganado.
Eventualmente me rebelo. Discutimos ferozmente. Que negócio é esse – brado, furioso – de falar que errei? Você que é um ultrapassado classificador de palavras mortas, digo, exagerando.
Ele não se enerva, e isso é que mais me enerva.
Segue, silencioso e tranqüilo, pronto para, à primeira falha, usar sua invisível caneta vermelha. O pior é que o detestável ser percebeu que tem alguma influência em meu texto. Finjo que não me importo (não quero aumentar o cartaz do abominável informático), tento fingir, mas depois, como quem não quer nada, vou lá e ajeito a frase, tirando-lhe o vermelho incômodo.
Não posso jurar, mas acho que já ouvi, nesses instantes, uma risadinha irônica saindo das caixas de som.
Mas o bom da vida são suas voltas. Um dia da caça... Ou, se preferirem: Quem ri por último... É, caro ser digital: percebo, um pouco espantado, que você não conhece a palavra transgênico. Olha ela aí toda vermelhinha. Percebo-lhe certa desatualização. Coisa triste e grave para um computador. Não queria, juro que não, mas sinto que terei que trocá-lo por um irmão mais novo. É a tal da seleção natural.
Chego na loja, e, dentre a confusão eletrônica disponível, serei claríssimo, explicando:
"Quero um computador burro. Sim, burro, que não fale, de preferência, português".
E aí, quem sabe, voltarei a escrever em paz. Errando muito e à vontade.
Não dá pra escrever em paz. Escrevo com medo. Escrevo, e dou uma espiada, de canto de olho, meio que pedindo, submissamente, aprovação. Por exemplo, esse submissamente não foi aprovado. Lá está ele, coitado, sublinhado, escandalosamente, em vermelho. É uma maldade, com as palavras e com os escritores.
Porque, não sei se sabem, mas há palavras tímidas, como há pessoas tímidas. Palavras que não se sentem bem sublinhadas, ainda mais em vermelho. O que pensarão as outras? Lá está ela, sem nenhuma colega - sozinha entre duas vizinhas - marcada com espalhafatosas linhas rubras.
Imagino o suplício de Guimarães Rosa no computador. Sua tela seria de uma vermelhidão só. Rara, raríssima, seria a palavra sem a reprovação vermelha. Acho que ficou livre dessa. Se não, talvez tivesse ficado encantado mais cedo, de raiva. Eu já estou quase lá, quase pegando minha mala para visitá-lo, desgostoso com esses chatos seres informáticos que tudo sabem.
É um pouco humilhante... A espécie que a pertenço, bem ou mal, está nesse planeta há um tempão. O computador é um recente intruso. Não fica bem querer corrigir o homem a todo instante. Deviam ser mais humildes. Não entendo muito de computadores, admito, mas desconfio que o meu tem um prazer supremo em me ver escrevendo besteira, só pra pensar em vermelho: esse Felipe é uma besta!
Sim, eu sei, há escritores que adoram encontrar uma palavra não dicionarizada. São os espíritos inventivos, rebeldes, iconoclastas. Triste, reconheço que não sou assim. Não sei brigar com o corretor. Se ele diz que estou errado, acato. Afinal, ele é amigo dos dicionários, gente de muita letra, eu é que devo estar enganado.
Eventualmente me rebelo. Discutimos ferozmente. Que negócio é esse – brado, furioso – de falar que errei? Você que é um ultrapassado classificador de palavras mortas, digo, exagerando.
Ele não se enerva, e isso é que mais me enerva.
Segue, silencioso e tranqüilo, pronto para, à primeira falha, usar sua invisível caneta vermelha. O pior é que o detestável ser percebeu que tem alguma influência em meu texto. Finjo que não me importo (não quero aumentar o cartaz do abominável informático), tento fingir, mas depois, como quem não quer nada, vou lá e ajeito a frase, tirando-lhe o vermelho incômodo.
Não posso jurar, mas acho que já ouvi, nesses instantes, uma risadinha irônica saindo das caixas de som.
Mas o bom da vida são suas voltas. Um dia da caça... Ou, se preferirem: Quem ri por último... É, caro ser digital: percebo, um pouco espantado, que você não conhece a palavra transgênico. Olha ela aí toda vermelhinha. Percebo-lhe certa desatualização. Coisa triste e grave para um computador. Não queria, juro que não, mas sinto que terei que trocá-lo por um irmão mais novo. É a tal da seleção natural.
Chego na loja, e, dentre a confusão eletrônica disponível, serei claríssimo, explicando:
"Quero um computador burro. Sim, burro, que não fale, de preferência, português".
E aí, quem sabe, voltarei a escrever em paz. Errando muito e à vontade.
Felipe Peixoto Braga Netto
é autor de quatorze livros, sendo quatro de sua autoria exclusiva. É professor da Escola Superior Dom Helder Câmara desde 2003, Procurador da República e Procurador Regional Eleitoral em Minas Gerais. Tem participado, em várias instituições, como expositor em cursos e palestras sobre Responsabilidade Civil e Dano Moral. Publicou, entre outros trabalhos: Responsabilidade Civil (Saraiva, 2008); Manual de Direito do Consumidor (Juspodivm, sétima edição, 2012) e As coisas simpáticas da vida (Landy, 2008).
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Comentários
Delícia de texto! Descansa a cabeça (em véspera de prova de TGD - rs) e faz a gente rir... muito bom...
Adoro ler esse tipo de texto. É formidável. Ajuda-me bastante. Aperfeiçou diariamente os meus dotes lusitanos lendo textos diversos. Os seus são ótimos. Parabéns! Sou parnaibano, do litoral piauiense. Grande abraço!
Como sempre um ótimo texto e dessa vez ainda com um boa pitada de humor