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Colunas João Batista Libânio

02/10/2009  |  domtotal.com

Exorcismo e o mundo dos demônios

Deus é o início e o meio e o fim de tudo. O mal, o demônio entram na jogada, como já vencidos. Só nos derrotam, se deixarmos o abrigo de Deus. O mal está como despertador permanente de nossos limites e fraquezas reais. O reencontro com Deus faz-se sempre que rejeitemos o mal e nos voltemos a Ele. Nisso o demônio é derrotado.

Os antigos diziam que a imaginação era a louca da casa. Ela perturba muito a compreensão das verdades e da realidade. O demônio pertence a esse campo em que a fantasia anda solta. Basta ver as pinturas, os termos aplicados ao demônio, as descrições tenebrosas de suas ações terríveis, a dramaticidade dos exorcismos, sempre feitos aos gritos e gestos descabelados.

Esse tema soa arcaico, antigo e superado pela razão moderna, pela teologia do Vaticano II que reduziu a realidade do demônio ao seu verdadeiro tamanho. Críamos terminada a era cultural povoada de superstições, fantasmas, duendes, mulas-sem-cabeça. E precisamente nesse universo de crenças fantásticas proliferam os demônios.
A modernidade avançou tecnológica e cientificamente com inventos extraordinários. A imaginação humana vem sendo agitada mais uma vez por fantasmas. Cabe, portanto, refletir com seriedade teológica sobre a realidade do demônio e do correspondente exorcismo.

No contexto atual de tantas crenças exóticas fica difícil dizer palavra sensata e coerente com a fé cristã. O demônio e o pecado não são o que mais importa para a vida cristã, mas sim a graça e a ação salvadora de Deus em Jesus. São Paulo já enfrentou a questão e resumiu-a em frase lapidar. “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20). “Se pela falta de um só a multidão sofreu a morte, com muito maior razão a graça de Deus, graça concedida a um só homem, Jesus Cristo, derramou-se em abundância sobre a multidão, por um entrou o pecado por outro a graça. Quanto Cristo é maior que o mal” (Rm 5, 15). São Paulo fez questão de comparar o pecado, e, sob esta palavra, entendemos também o demônio, com a graça de Deus em Jesus Cristo para mostrar a fraqueza do primeiro em relação ao senhorio de Deus. Com isso, ele liberta o cristão do medo do demônio. Em seu lugar, está a confiança na força de Deus.

A fé cristã rejeita o maniqueísmo. É uma religião antiqüíssima que faz continuamente suas aparições, senão claramente, ao menos subrepticiamente. Ela defende dois seres infinitamente poderosos: um do Bem, outro do Mal. No fundo, acredita em dois deuses. Um Deus que rege os acontecimentos bons e outro que causa os males. Seria o demônio elevado a um poder ilimitado. Infelizmente há muita gente que na prática pensa assim. A fé cristã afirma a existência de uma Trindade de amor que vela e zela por todos nós.
Medo do demônio é desconhecer o oceano infinito do amor de Deus. O demônio é a anti-pessoa, aquele que nega na realidade o projeto de Deus e que só atua no espaço que nossa liberdade lhe abre. Santo Agostinho compara-o a um cão bravo acorrentado. Só morde quem dele se aproxima. Em vez de ficar procurando sua atuação nas nossas vidas, o mais importante é viver no espírito das bem-aventuranças, segundo a pregação de Jesus. Olhai as aves do céu, os lírios do campo. Deus cuida de todos eles. Então cuidará muito mais de nós (Mt 6, 26ss). Nem com o dia de amanhã devemos preocupar-nos. E muito menos com as ações do demônio.

Deus é o início e o meio e o fim de tudo. O mal, o demônio entram na jogada, como já vencidos. Só nos derrotam, se deixarmos o abrigo de Deus. O mal está como despertador permanente de nossos limites e fraquezas reais. O reencontro com Deus faz-se sempre que rejeitemos o mal e nos voltemos a Ele. Nisso o demônio é derrotado.

A vitória sobre o demônio não é o exorcismo, como muitos pensam. Vivem à busca de exorcistas para expulsar os demônios. Estes são derrotados pela graça, pela pureza de vida, pelo amor a Deus e aos irmãos. Atribuem-se freqüentemente a possessões diabólicas fenômenos psicopatológicos. Por isso, o último recurso é o exorcismo. Antes devem-se submeter os casos estranhos a análises de psicólogos, psiquiatras ou parapsicólogos para que os diagnostiquem. Só, em última instância, quando todas as ciências humanas disponíveis não conseguirem dar conta do fato, entra em questão a possessão diabólica e eventualmente recorrer à autoridade eclesiástica competente para possível exorcismo.

Para o comum dos acontecimentos, temos os recursos disponíveis tanto psicoterapêuticos quanto espirituais correntes, como a oração, a prática da caridade, a vida cristã responsável. Sem sensacionalismos resolveremos a quase totalidade dos casos.


João Batista Libânio é teólogo jesuíta. Licenciado em Teologia em Frankfurt (Alemanha) e doutorado pela Universidade Gregoriana (Roma). É professor da FAJE (Faculdades Jesuítas), em Belo Horizonte. Publicou mais de noventa livros entre os de autoria própria (36) e em colaboração (56), e centenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras. Internacionalmente reconhecido como um dos teólogos da Libertação.






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