Colunistas Paulo Roberto de Almeida

17/12/2009

Todas as leis da estupidez humana, suite et fin...

De minha parte, sempre achei que, mais do que uma Belíndia, ou seja, uma país meio Bélgica, meio Índia – como queria o economista Edmar Lisboa Bacha –, o Brasil era, bem mais, uma espécie de “Argentália”, ou seja, um país tão ciclotímico economicamente quanto a nossa vizinha competidora futebolística, e tão prolífico em políticos corruptos quanto a Itália, uma de nossas inspirações gastronômicas e histriônicas mais conhecidas no último século.

Em meu artigo anterior, eu havia transcrito apenas duas das cinco leis (geniosas e geniais) da estupidez humana, tal como formuladas quase duas décadas atrás pelo famoso historiador italiano Carlo Maria Cipolla (infelizmente já falecido). Fiquei, então, devendo aos leitores, a transcrição da série completa, de molde a poder compartilhar com todos os interessados o deleite de conhecer e apreciar os fundamentos históricos da velha “bêtise humaine”, tal como ele, um medievista reputado, a compreendia.

Transcrevo, pois, em sua exposição mais sintética possível – a partir do original italiano, uma vez que não consegui mesmo achar o pequeno volume em minhas estantes abarrotadas de livros –, essas cinco leis, agregando depois comentários do próprio Cipolla sobre seu contexto histórico-estrutural. Como diriam os americanos, quote:

1. Sempre e inevitavelmente, cada um de nós subestima o número de indivíduos estúpidos em circulação.

2. A probabilidade de que uma certa pessoa seja estúpida é independente de qualquer outra característica dessa pessoa.

3. Uma pessoa estúpida é uma pessoa que causa um dano a outra pessoa, ou a um grupo de pessoas, sem que ela obtenha qualquer vantagem para si mesma, ou até sofrendo, ela mesma, algum dano.

4. As pessoas não estúpidas sempre subestimam o potencial nocivo das pessoas estúpidas. Em especial, os não estúpidos esquecem constantemente que, a qualquer momento, em qualquer lugar e em qualquer circunstância, tratar e/ou associar-se a indivíduos estúpidos se revela, infalivelmente, um erro custosíssimo.

5. A pessoa estúpida é o tipo de pessoa mais perigosa que possa existir.

Unquote. Cipolla acrescenta logo em seguida: “Não é difícil compreender como o poder político, econômico ou burocrático acrescenta ao potencial nocivo de uma pessoa estúpida. Mas devemos ainda explicar e compreender o que é que torna essencialmente perigosa uma pessoa estúpida; em outras palavras, em que consiste o poder da estupidez”.

Talvez Cipolla estivesse pensando, quando escreveu estas linhas, em sua Itália natal, um país que consegue ostentar políticos tão corruptos e safados quanto o... Japão, por exemplo. Ahah!, peguei vocês: pensando que eu fosse tirar do meu bolso algum exemplo tupiniquim, não é? Mas é que vocês não conhecem a inacreditável capacidade dos políticos japoneses em se reproduzir continuamente, sua insaciedade pelo dinheiro corporativo e estatal, sua estabilidade notória, graças ao conservadorismo de uma população que ainda aprecia samurais e senhores da guerra.

De minha parte, sempre achei que, mais do que uma Belíndia, ou seja, uma país meio Bélgica, meio Índia – como queria o economista Edmar Lisboa Bacha –, o Brasil era, bem mais, uma espécie de “Argentália”, ou seja, um país tão ciclotímico economicamente quanto a nossa vizinha competidora futebolística, e tão prolífico em políticos corruptos quanto a Itália, uma de nossas inspirações gastronômicas e histriônicas mais conhecidas no último século.

Bem, deixando japoneses e italianos de lado, acho que a rationale explicativa de Cipolla se encaixa como uma luva em nossa situação política atual, estes tempos de mensalão oficialmente patrocinado pelo Estado e implementado de modo absolutamente amador pelo partido no poder. Como explicar, de outro modo, que os “homens” do poder tenham roubado de forma tão canhestra, improvisada e desorganizada, e como nós, que pagamos tudo isso, suportamos passivamente a continuidade de tanta desfaçatez e tanta desonra republicana? Só pode ser por estupidez, de uns e de outros. Se não, vejamos...

Cipolla dá os motivos para tanta estupidez disseminada impunemente, durante tanto tempo, aqui como lá (supostamente): “Essencialmente, os estúpidos são perigosos e funestos porque as pessoas racionais não conseguem imaginar e compreender um comportamento estúpido. Uma pessoa inteligente pode compreender a lógica de um bandido. As ações do bandido seguem um modelo de racionalidade. O bandido quer alguma coisa ‘mais’ na sua conta. Dado que ele não é suficientemente inteligente para conceber métodos com os quais obter o seu ‘mais’ procurando ao mesmo tempo um ‘mais’ para os outros também, ele acaba obtendo o seu ‘mais’ causando um ‘menos’ ao seu próximo”.

Tudo isso não é justo, mas é racional, como lembra Cipolla, e se é racional pode ser previsto. É possível, em suma, prever as ações de um bandido, as suas manobras sujas e as suas deploráveis aspirações e, talvez, se pudesse antepor algumas oportunas medidas de defesa (embora eu acrescente que, no Brasil, alguns poucos conseguiram enganar a muitos durante muito tempo). Mas, com uma pessoa estúpida, isto é absolutamente impossível. Como está implícito na terceira lei fundamental, uma pessoa estúpida pode persistir sem qualquer motivo em suas ações, sem um plano preciso, nos momentos e nos lugares mais improváveis e impensáveis. Não existe nenhuma maneira racional de prever quando uma pessoa estúpida se lançará ao ataque. Pelo que constato, acho que o Brasil está sofrendo um ataque especulativo de estupidez galopante. Vocês não acham?

Finalmente, é preciso também levar em conta uma outra característica desse tipo de situação. Como argumenta Cipolla, a pessoa inteligente sabe que ela é inteligente. O bandido está plenamente consciente de ser um bandido (ainda que eu duvide que essa regra se aplique plenamente a alguns dos nossos personagens políticos plus en vue). Em outra vertente, os ingênuos – ou néscios, diríamos nós – estão plenamente convencidos de sua própria credulidade. Mas, ao contrário de todos esses personagens, o estúpido não tem a menor idéia de que ele é um estúpido. Eis justamente o que contribui para dar maior força, incidência e eficácia à sua ação devastadora.

Com efeito, o estúpido não é sequer inquietado por aquele espírito que os ingleses chamam de self-consciousness. “Com um sorriso nos lábios, como se estivesse fazendo a coisa mais natural do mundo, o estúpido acaba tranquilamente por destruir todos os nossos planos, aniquila a nossa paz, complica a nossa vida e o nosso trabalho, nos faz perder dinheiro, tempo, bom-humor, apetite, produtividade – e tudo isso sem qualquer malícia, sem remorso e sem razão. Apenas estupidamente”.

Não tenho certeza de que o brilhante esquema teórico-histórico de Cipolla se encaixa perfeitamente neste nosso país algo surrealista, mas por vezes eu também tenho a impressão de que estamos entregues a uma tribo de néscios e de estúpidos – ou talvez até a uma quadrilha de bandidos –, que nos está fazendo perder o nosso bom humor, aquela non-chalance típica dos brasileiros, que alguns traduziriam por “jeitinho”, nosso espírito tolerante e gozador, enfim, todas aquelas qualidades e más-qualidades pelas quais somos conhecidos em várias latitudes e longitudes ao longo dos séculos.

Talvez isso já existisse de modo subreptício e subterrâneo há muito tempo, mas minha impressão é a de que todas essas más-qualidades emergiram com maior ímpeto nos últimos anos, ou estarei imaginando? A rigor, o Brasil nunca teve perigos mais “hollywoodianos”, como a máfia e o complexo industrial-militar, por exemplo. A nossa contribuição genial para o progresso da estupidez humana talvez seja mesmo essa combinação perfeita de credulidade, de estupidez e banditismo que, à diferença do outro produto bruto, faz crescer continuamente a nossa Produção Interna de Bobagens.

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