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Data:
Concepção de religião, segundo Karl Marx
Autor: Prof. Francisco Haas
Disciplina: Sociologia Geral - 2º Período

Discutir-se-á os pressupostos metodológicos e epistemológicos da sociologia da religião em aportes teóricos subjacentes na sociologia de Marx, enfocando as abordagens relativas à questão da ordem social e suas mudanças.

A maneira marxiana de analisar a realidade social é fundada numa perspectiva ontológica, o que a diferencia substancialmente de Durkheim e Weber. A perspectiva ontológica marxiana difere, em suas linhas básicas e essenciais, das perspectivas gnosiológicas de análise da realidade social. A perspectiva ontológica busca entender, como o em si pode ser capturável em sua integridade. Na perspectiva de Marx, qualquer componente da ação ou da identidade dos indivíduos que não resulte ou não se vincule diretamente a sua inserção “objetiva” no processo produtivo tem um status meramente residual. A devoção religiosa, na medida em que não é um componente essencial das identidades individuais, não foge a essa regra. Tudo que se tem a dizer sobre ela é que é inconsistente com a identidade essencial dos indivíduos, são cognições disfuncionais com o que indivíduos históricos concretos virão a ser. Portanto, a religião não é propriamente objeto de seu estudo, mas de condenação.

Para Marx: “tudo o que existe, tudo o que vive sobre a Terra e sob a água, não existe e não vive, senão em virtude de um movimento qualquer. Assim, o movimento da história cria as relações sociais, o movimento da indústria nos proporciona os produtos industriais etc.”(Miséria da Filosofia).

Ao criticar o método do “Sr. Proudhon”, Marx diz que aquilo que Hegel fez para a religião, o direito etc., o “Sr. Proudhon” “pretende fazer para a economia política.” Ou seja, Marx critica não a dialética, mas a maneira proudhoniana, idealista, de tratar a dialética. Ao contrário de eternizar as idéias, as categorias, Marx as entende como sendo “produtos históricos e transitórios”.

Para o “Sr. Proudhon”,
“cada categoria econômica tem dois lados, um bom e outro mal. Considera as categorias como o pequeno-burguês considera as grandes figuras históricas: Napoleão é um grande homem; fez muito bem, mas também fez muito mal.O lado bom e o lado mal, a vantagem e o incoveniente, tomado em conjunto, formam, segundo Proudhon, a contradição inerente a cada categoria econômica. Problema a resolver: conservar o lado bom, eliminando o mal”. (Idem).

No exercício de explicitação do método gnosiológico do “Sr. Proudhon” em a Miséria da Filosofia, Marx traça as linhas do seu próprio “método”. Neste texto, Marx procura demonstrar ontologicamente, como o em si pode ser capturável em sua integridade. Para ele, a fonte da ciência está no conhecimento crítico do movimento histórico, movimento esse que produz ele próprio as condições materiais da emancipação humana.

A dialética hegeliana era a dialética do idealismo (doutrina filosófica que nega a realidade individual das coisas distintas do "eu" e só lhes admite a idéia), e a dialética do materialismo é posição filosófica que considera a matéria como a única realidade e que nega a existência da alma, de outra vida e de Deus. Ambas sustentam que realidade e pensamento são a mesma coisa: as leis do pensamento são as leis da realidade. A realidade é contraditória, mas a contradição supera-se na síntese que é a "verdade" dos momentos superados.

Hegel considerava ontologicamente (do grego onto + logos parte da metafísica, que estuda o ser em geral e suas propriedades transcendentais) a contradição (antítese) e a superação (síntese). Marx considerava historicamente como contradição de classes vinculada a certo tipo de organização social. Hegel apresentava uma filosofia que procurava demonstrar a perfeição do que existia (divinização da estrutura vigente). Marx apresentava uma filosofia revolucionária que procurava demonstrar as contradições internas da sociedade de classes e as exigências de superação.

Para Marx, a partir do instante em que o processo do movimento dialético se reduz ao simples processo de opor o bem ao mal, de equacionar problemas cuja finalidade consiste em eliminar o mal e empregar uma categoria como antídoto da outra, as categorias perdem sua espontaneidade, a idéia “deixa de funcionar”, já não há vida nela.

Neste sentido, o movimento da história é um processo de construção, satisfação e reconstrução contínua, não linear, das necessidades humanas. É isso que distingue o homem dos animais, cujas necessidades são fixas e imutáveis. É por essa razão que o trabalho, esse intercâmbio criador entre os homens e seu ambiente natural, está na base da sociedade humana. A relação entre o indivíduo e o seu ambiente material estabelece-se por mediação das características particulares da sociedade a que pertence. Quando pretendemos estudar a evolução da sociedade humana, temos de partir do exame dos processos concretos da vida social que constitui condition sine qua non da existência humana.

A essência do homem é não ter essência, a essência do homem é algo que ele próprio constrói, ou seja, a História. "A existência precede a essência"; nenhum ser humano nasce pronto, mas o homem é, em sua essência, produto do meio em que vive que é construído a partir de suas relações sociais em que cada pessoa se encontra. Assim como o homem produz o seu próprio ambiente, por outro lado, esta produção da condição de existência não é livremente escolhida, mas sim, previamente determinada. O homem pode fazer a sua História, mas não pode fazer nas condições por ele escolhidas. O homem é historicamente determinado pelas condições, logo é responsável por todos os seus atos, pois ele é livre para escolher. Logo todas as teorias de Marx estão fundamentadas naquilo que é o homem, ou seja, o que é a sua existência. Portanto, Marx vê a racionalidade como autocontida, e cognições que a transcendam (a religião) são meras derivações que servem à legitimação dos interesses materiais dos atores.

Para Marx as relações sociais do homem são tidas pelas relações que o homem mantém com a natureza, onde desenvolve suas práticas, ou seja, o homem se constitui a partir de seu próprio trabalho, e sua sociedade se constitui a partir de suas condições materiais de produção, que dependem de fatores naturais (clima, biologia, geografia ... ) ou seja, relação homem-natureza, assim como da divisão social do trabalho, sua cultura.

Marx expressa no Manifesto aspectos que se vêem todos transformados:
“A burguesia rompeu com todos os laços feudais que subordinavam os homens aos seus ‘superiores naturais’, e não deixou entre homem e homem nenhum outro laço senão seus interesses nus, senão o empedernido salário. Transformou o êxtase paradisíaco do fanatismo piedoso (...) A burguesia despiu o halo de todas as ocupações até então honoráveis, encaradas com reverente respeito (...) Em lugar da exploração mascarada sob ilusões religiosas e políticas, ela colocou uma exploração aberta, desavergonhada, direta e nua.” (p. 475-76)

A oposição aqui feita por Marx é basicamente entre o que é aberto ou nu e o que é escondido, velado, vestido. Para ele na maior parte do pensamento especulativo antigo e medieval, todo o universo da experiência sensual parece como o ilusório e o verdadeiro universo é concebido como acessível somente através da transcendência dos corpos, do espaço e do tempo. Em algumas tradições, a realidade é acessível através da meditação religiosa ou filosófica; em outras, só estará à nossa disposição numa existência futura, pós-morte. (BERMANN, 1986; 104)

Para Marx, a moderna transformação, iniciada na época da Renascença e da Reforma, coloca ambos os universos na terra, no espaço e no tempo, preenchidos com seres humanos. Agora o falso universo é visto como o passado histórico, um mundo que perdemos (ou estamos a ponto de perder), enquanto o universo verdadeiro consiste no mundo físico e social que este para nós, aqui e agora (ou está a ponto de existir).

Assim como o movimento da história não é mais do que a sucessão das várias gerações distintas, cada uma das quais explora os materiais, os capitais e as forças produtivas que herdou de todas as gerações precedentes, continuando assim, por um lado, a atividade tradicional, em condições completamente diferentes, e modificando, por outro lado, as antigas condições, por intermédio de uma atividade completamente modificada. A sociedade é comparada a um edifício no qual as fundações, a infraestrutura, seriam representadas pelas forças econômicas, enquanto o edifício em si, a superestrutura, representaria as idéias, costumes, instituições (políticas, religiosas, jurídicas etc.).
Para Marx, religião é a teoria geral deste mundo, a sua soma enciclopédia, a sua lógica sob forma popular o “son point d’honnem” espiritualista, seu entusiasmo, a sua sanção moral, o seu complemento solene, a sua consolação e justificação universal. É a realização fantástica do ser humano porque o ser humano não possui verdadeira realidade.

A ênfase dada à racionalidade prática pode conduzir a uma riquíssima teoria de mudança social: desmistifica certas relações de poder e anda de par com a busca do carisma que, por definição a ela se contrapõe. Assim como a ênfase no aspecto cognitivo das religiões também conduz a uma teoria da mudança social. Por outro lado, a ênfase nos aspectos emocionais, conduz a uma riquíssima teoria de coesão social e ao ensaio genial de que as nossas comunicações e cognições não operam sobre bases cognitivas e sim emocionais.

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