Copenhague: Análise da Conjuntura Política Ambiental
A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das ‘Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU. A presente análise toma como referência as "Notícias" publicadas de 09 a 22 de dezembro de 2009. A análise é elaborada, em fina sintonia com o IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - CEPAT - com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.
Sumário:
Copenhague fracassa
Um crime climático
Lições de Copenhague
Urgência de outro paradigma
O Brasil em Copenhague
Ousado lá fora, tímido aqui dentro
‘O Brasil tem tudo o que o mundo sonha’
Eis a análise.
Copenhague fracassa. Um crime climático
"Não há planeta B" – cartaz de um manifestante em Copenhague.
“A cidade de Copenhague foi palco de um crime climático, com os homens e mulheres culpados fugindo para o aeroporto com vergonha". As palavras de Kumi Naiodoo, diretor internacional do Greenpeace, resume a profunda frustração com a Conferência do Clima.
“Fracasso, fracasso e fracasso”. Foram as palavras que mais se ouviram ao término da Conferência do Clima em Copenhague. Um desrespeito com o mundo afirmaram as organizações da sociedade civil, sobretudo as ambientalistas.
Considerada a maior reunião diplomática da história, a 15ª Conferência do Clima (COP-15), frustrou as enormes expectativas que se depositaram sobre ela. Os denominados “líderes mundiais” foram incapazes de chegar a um acordo mínimo. O encontro terminou com um rascunho considerado “covarde” pelas organizações ambientalistas.
O texto não prevê metas obrigatórias de redução de emissões de CO2 até 2020 e ainda ameaça a existência do já superado Protocolo de Kyoto. O documento é vago. Prevê redução de 50% das emissões de CO2 em 2050, porém não fixa meta para 2020 – o objetivo mínimo cogitado por todos antes do inicio da Cúpula. Ao mesmo tempo não detalha os mecanismos financeiros, não prevê acordo sobre a verificação das ações ambientais em países em desenvolvimento e não tem força de lei vinculante.
"Marchamos em Berlim e o muro caiu. Marchamos pela África do Sul e o apartheid caiu. Marchamos em Copenhague – e vamos conseguir um Acordo pra Valer”. O otimismo de Desmond Tutu não se confirmou.
Confirmou-se o desfecho já anunciado na Conjuntura da Semana que postamos há um mês. Na oportunidade destacávamos que um dos eventos mais aguardado do ano estava fadado ao fracasso em função da pouca vontade demonstrada pelos países mais ricos – nos países ricos vive 20% da população mundial, mas eles respondem por 60% das emissões industriais desde 1990 –, sobretudo dos EUA, que em função de sua conjuntura interna foi para a Conferência com uma proposta tímida. Associado a tibieza dos americanos, viu-se muita retórica da União Européia e a costumeira intransigência chinesa.
Outro problema crônico da Conferência: o processo burocrático e complicado de negociação, que exigia o consenso de 192 países. A Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece a necessidade de uma ampla reforma em seus processos de decisão com vistas ao próximo encontro sobre mudanças climáticas.
Havia uma agenda de consenso sobre os pontos a serem enfrentados na Conferência: 1) a necessidade de se estabelecer metas de emissão de CO2 – a referência, aceita por todos de que a temperatura do planeta não pode subir mais do que 2 graus Celsius até o final desse século; 2) definição de mecanismos de auxílio e proteção aos países mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas, como transferência de tecnologias, para facilitar o acesso pelos países em desenvolvimento de tecnologias de baixa emissão e; 3) regras de financiamento – o Fundo do clima –, de como os países ricos, principais responsáveis pelo aquecimento atual ajudariam os países pobres a descarbonizarem sua economia – aqui incluía-se o debate do REDD. Porém, tudo ficou na estaca zero.
Copenhague mais parecia uma torre de Babel. Nada foi acordado e tudo foi postergado. As chances agora de uma nova tentativa de acordo se voltam para a Cidade do México em 2010.
Nada garante que no próximo encontro se chegue a um acordo. O histórico de negociações não aponta para essa perspectiva. A ausência de um compromisso mínimo faz aumentar o número daqueles que já consideram o enfrentamento a causa climática, uma causa perdida.
O chefe da Unidade de Mudanças Climáticas do Centro de Pesquisa da Comissão Europeia, Rank Raes, está entre aqueles que têm dúvidas que um acordo freie o avanço do desastre que se projeta. Segundo ele, nem mais o limite dos 2 graus Celsius é possível: "Seria bonito. Eu colocaria 10 assinaturas, não uma. Uma pena que seja irrealista: os dois graus são um objetivo que não está mais ao nosso alcance. Dizer isso é um ato de honestidade. Assim como é um ato de honestidade dizer que, se não nos mexermos logo, se não fecharmos em poucos anos a torneira dos gases do efeito estufa, não conseguiremos nem parar em três graus".
A possibilidade real de um aquecimento superior a dois graus Celsius seria devastador. Os cenários acima desse limite considerado suportável prevêem uma mudança drástica na face da Terra:
Dois graus Celsius: As ondas de calor que atingiram a Europa em 2003, deixando milhares de mortos, voltarão a acontecer, todos os anos. O sudeste da Inglaterra vai se acostumar com temperaturas de 40 graus Celsius no verão. Partes da Floresta Amazônica começam a se transformar num deserto, enquanto o aumento de CO2 na atmosfera vai promover a acidificação dos oceanos, tornando improvável a sobrevivência de recifes de corais e milhares de formas de vida marinha. Mais de 60 milhões de pessoas, a maioria na África, sofrerão com aumento de casos de malária.
Três graus Celsius: Um cenário cada vez mais provável. Com tal elevação, o aquecimento global se torna incontrolável, fazendo com que esforços para mitigação passem a ser inviáveis. Milhões de quilômetros da Floresta Amazônica serão queimados, liberando carbono das árvores e do solo, incrementando o aquecimento, talvez até em 1,5 grau Celsius. Desertos vão avançar no sul da África, na Austrália e no oeste dos EUA. Bilhões de pessoas serão forçadas a abandonar suas terras, em busca de água e alimento. Na África e no Mediterrâneo, a oferta de água vai diminuir entre 30% e 50%. No Reino Unido, secas no verão serão seguidas por enchentes no inverno. A elevação do nível do mar vai causar o desaparecimento de países-ilha, e também de lugares como Nova York, Flórida e Londres.
Quatro graus Celsius: Cenário possível, com um acordo fraco. Nesse estágio, o permafrost (solo congelado) do Ártico se torna grande ameaça. Metano e carbono aprisionados no solo serão liberados na atmosfera. Ainda no Ártico, a cobertura de gelo desaparecerá, causando a extinção do urso polar e outras espécies nativas. Na Antártica, o degelo vai se acelerar, incrementando a elevação do nível do mar, fazendo com que diversas ilhas fiquem submersas. Itália, Espanha, Grécia e Turquia podem virar desertos. A região central da Europa passa a ter temperaturas médias de 50 graus Celsius no verão, típicas de desertos.
Cinco graus Celsius e além: Um pesadelo altamente improvável. Com um aumento médio de cinco graus, as temperaturas na Terra vão ficar tão quentes quanto àquelas de 50 milhões de anos atrás. No Ártico, as temperaturas subirão bem mais do que a média global — acima de 20 graus Celsius —, significando que a região ficará sem gelo o ano inteiro. A maior parte das regiões tropicais, subtropicais e mesmo as regiões de latitudes média se tornarão inabitáveis por causa do calor. A elevação do nível dos mar fará com que a maioria das cidades costeiras do planeta tenha que ser abandonada. A população humana será drasticamente reduzida.
Corrobora esse cenário, recente estudo que afirma que o aquecimento global pode ser maior que o esperado.
É a possibilidade desses últimos cenários que faz com que Leonardo Boff afirme que rumamos para o desastre. Segundo ele, “a humanidade penetrou numa zona de treva e de horror. Estamos indo ao encontro do desastre. Anos de preparação, dez dias de discussão, a presença dos principais líderes políticos do mundo não foram suficientes para espancar a treva mediante um acordo consensuado de redução de gases de efeito estufa que impedisse chegar a dois graus Celsius. Ultrapassado esse nível e beirando os três graus, o clima não seria mais controlável e estaríamos entregues à lógica do caos destrutivo, ameaçando a biodiversidade e dizimando milhões e milhões de pessoas”.
Lições de Copenhague
Na análise de Boff, Copenhague nos ensina duas lições: “A primeira é a consciência coletiva de que o aquecimento é um fato irreversível, do qual todos somos responsáveis, mas principalmente os países ricos. E que agora somos também responsáveis, cada um em sua medida, do controle do aquecimento para que não seja catastrófico para a natureza e para a humanidade. A consciência da humanidade nunca mais será a mesma depois de Copenhague. Se houve essa consciência coletiva, por que não se chegou a nenhum consenso acerca das medidas de controle das mudanças climáticas?”
Aqui surge a segunda lição, diz Boff: “O grande vilão é o sistema do capital com sua correspondente cultura consumista. Enquanto mantivermos o sistema capitalista mundialmente articulado será impossível um consenso que coloque no centro a vida, a humanidade e a Terra e se tomar medidas para preservá-las. Para ele centralidade possui o lucro, a acumulação privada e o aumento de poder de competição. Há muito tempo que distorceu a natureza da economia como técnica e arte de produção dos bens necessários à vida. Ele a transformou numa brutal técnica de criação de riqueza por si mesma sem qualquer outra consideração. Essa riqueza nem sequer é para ser desfrutada mas para produzir mais riqueza ainda, numa lógica obsessiva e sem freios”.
O ambientalista Henrique Cortez, na mesma trilha de Boff, destaca que Copenhague fracassou e continuará fracassando porque “ninguém colocou em debate o atual modelo de desenvolvimento, predatório por definição. Sem esta discussão, continuaremos discutindo como tratar câncer com placebo”, diz ele.
"Enquanto mantivermos o sistema capitalista mundialmente articulado será impossível um consenso que coloque no centro a vida, a humanidade e a Terra e se tomar medidas para preservá-las", diz Boff. O capitalismo com sua ideologia liberal, assim como certa leitura dogmática do marxismo repousam sobre a noção de um progresso infinito e que repetem exaustivamente o mantra do crescimento. Essas correntes trabalham com a idéia de que os recursos naturais do planeta são finitos e que o modelo econômico baseado na produção e no consumo infinito. Esse pensamento tornou-se anacrônico, já não é mais possível.
Estudos comprovam que a pegada ecológica – o impacto do consumo sobre o planeta está muito forte. A pegada usa como unidade o hectare global, que, como o hectare normal, tem 10 mil metros quadrados, mas mede a capacidade de produção de recursos naturais de toda a superfície terrestre – o que inclui áreas de cultivo, florestas, rios e mares, mas não desertos e geleiras.
No mês passado, a ONG americana Global Footprint Network divulgou um índice atualizado com a pegada ecológica do Brasil e de outros 150 países, baseado em dados das Nações Unidas de 2006. De acordo com ele, cada brasileiro tem uma pegada de 2,25 hectares globais, ou seja, a produção de tudo o que consome precisa de 22,5 mil metros quadrados. A média brasileira é um pouco menor que a mundial, segundo a qual cada pessoa na Terra consome 2,6 hectares globais por ano. Mas, e aí está o problema, a Global Footprint calcula que o total disponível de área produtiva no mundo, a chamada biocapacidade, é de apenas 1,8 hectare global por pessoa. Além disso, a biocapacidade vem diminuindo – seja pelo aumento da população ou pela degradação de solos e mares.
Isso significa que os 6,6 bilhões de habitantes do mundo consomem juntos quase 1,5 planeta Terra por ano, com base nos dados de 2006. Ou seja: a população hoje usa em 1 ano recursos que o planeta só consegue repor em 18 meses. No relatório de 2008, baseado em dados da ONU de 2003, a humanidade consumia 1,3 planeta.
“É como se o mundo fosse uma caixa d’água que é abastecida por uma torneira e fornece água por outra, mas a quantidade de água que sai é muito maior do que a que entra”, compara o coordenador do Programa de Educação para Sociedades Sustentáveis da entidade ambientalista WWF-Brasil, Irineu Tamaio. “Por enquanto, a caixa ainda tem água, mas muito em breve ficará vazia. Nós já estamos roubando recursos das próximas gerações.”
Apenas dez países são responsáveis por 50% da pegada ecológica mundial, e o Brasil está entre eles. No topo da tabela estão Emirados Árabes e Qatar. “Os dois são grandes exportadores de petróleo por um lado e, por outro, importam praticamente tudo o que consomem, porque tem uma área pequena e pouco produtiva para dar conta do seu consumo interno”, explica a diretora de Estratégias da Global Footprint, Jennifer Mitchell. Isso faz com que cada morador desses países tenha pegadas ecológicas próximas de 10 hectares globais. “É diferente dos Estados Unidos, que têm uma das maiores biocapacidades do mundo, mas pegada muito alta por causa da mentalidade consumista da sociedade.”
A pegada dos EUA supera em mais de três vezes a média mundial: é de 9,4 hectares globais (ou mais de 11 Maracanãs) per capita. Assim, se toda a população do mundo tivesse os hábitos de consumo dos americanos, seriam necessários 5 planetas para manter seu estilo de vida e os recursos naturais provavelmente se esgotariam em menos de 20 anos. Jennifer ressalta que, com os mesmos padrões de conforto e bem-estar, os europeus conseguiram atingir uma pegada ecológica de 5 hectares globais per capita, a metade da americana. Cada um pode medir a sua pegada ecológica.
A crise climática e o fracasso em Copenhague anunciam que precisamos de um novo paradigma civilizacional porque o atual chegou ao seu fim e exauriu suas possibilidades. Necessitamos agora de uma outra economia, um outro estilo de vida, uma outra civilização, outras relações sociais.
Urgência de outro paradigma
A questão do aquecimento global coloca enormes desafios que requerem uma mudança de paradigma sem o qual não é possível enfrentá-los de maneira adequada. Neste sentido, ganha relevância o debate sobre a “justiça climática”, isto é, a atenção devida e necessária aos pobres da Terra, que são, como em todas as catástrofes, sempre os primeiros e os maiores penalizados.
Os países mais pobres são os menores poluidores, mas aqueles que vão ter que arcar com os maiores prejuízos resultantes da mudança climática. A justiça climática implica em remediar as carências em termos de direitos básicos fundamentais da pessoa humana – saúde, educação, água, trabalho... Portanto, tem a ver com a redução das desigualdades sociais. Entrar em um outro paradigma civilizatório requer uma nova compreensão de economia. E aqui se coloca todo o debate – não consensual – sobre o ecodesenvolvimento, ainda embrionário.
Há diversas correntes, que vão desde o “decrescimento”, capitaneada pelo economista francês Serge Latouche, que acaba de lançar no Brasil Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno (WMF Martins Fontes), na esteira do também economista Nicholas Georgescu-Roegen, até a tese da “condição estável”, propugnada por Herman Daly, o economista ecológico vivo mais importante. Segundo o economista brasileiro José Eli da Veiga, um dos maiores economistas ecológicos brasileiros, a tese sobre a condição estável “é bem diferente do decrescimento, e é muito mais palpável para imaginar que alguns países do mundo possam começar a encarar ainda nesse século”.
No debate sobre os novos caminhos a serem trilhados pela economia a questão das fontes energéticas torna-se crucial. Descarbonizar a economia é vital para o futuro do Planeta. Além disso, como sempre insiste com argúcia o ensaísta norte-americano Jeremy Rifkin, “o ponto central é a passagem de um modelo centralizado, vertical, baseado no poder de oligopólios, para um modelo descentralizado em que a energia é produzida pelas instalações renováveis. A energia irá viajar na rede como as informações na Internet”.
Este modelo vai na contramão do modelo energético brasileiro, altamente centralizador, mais facilmente passível de ser atacado e derrubado, causando blecautes, como aquele que aconteceu em novembro passado.
O fato é que, como diz Rifkin, as políticas “estão presas à geopolítica, olham para trás. O que conta, pelo contrário, é a passagem à política da biosfera, às escolhas industriais que utilizam os recursos renováveis dos ecossistemas deixando intactas as bases da produção, em vez de consumi-las com a poluição”.
Em tudo isso, os países ricos têm um papel importante e irrenunciável, no sentido de ajudar e proporcionar aos países pobres e em desenvolvimento, condições para que possam fazer a passagem para uma nova fase de desenvolvimento sem passar necessariamente pela revolução industrial. A liderança econômica virá da exploração das novas possibilidades abertas pela crise. Será uma liderança “baseada na eficiência energética e nas energias renováveis, no hidrogênio e nos edifícios que produzem mais energia do que a que consumimos.
Sobre esse projeto, pode-se forjar uma frente que compreenda países de tecnologia avançada e países em desenvolvimento, oferecendo os instrumentos mais avançados para quem ainda não desenvolveu a Segunda Revolução Industrial. Desse modo, é possível pular uma fase de desenvolvimento, levando por exemplo as energias renováveis a quem nem conectou a rede elétrica e mantendo juntos o crescimento econômico e os cortes às emissões”, como adverte Rifkin.
Mas, como chama a atenção o jornalista francês Hervé Kempf, autor do livro Como os ricos destroem o Planeta, é igualmente importante acabar com o que se poderia chamar de “espelhismo do consumo”, isto é, a tendência de que os mais pobres olham e aspiram o modo de consumo dos mais ricos e estes, por sua vez, nunca têm limites para o seu consumo. Isso, diz ele, “nos empurra para uma crise ecológica”.
O Brasil em Copenhague. Ousado lá fora, tímido aqui dentro
A proposta brasileira levada a Copenhague de redução voluntária entre 36% e 39% de suas emissões de CO2 até 2020 foi considerada ousada.
O Brasil está entre os maiores poluidores do planeta, sobretudo em função das queimadas de seus biomas, particularmente da floresta amazônica. Os desmatamentos de florestas tropicais, sobretudo pelas queimadas respondem hoje por aproximadamente de 10 a 15% das emissões globais. Trata-se de um valor significativo, praticamente o equivalente a toda a emissão do setor de transportes mundial, responsável por aproximadamente 14% das emissões.
Os índices propostos pelo Brasil para serem alcançados exigem forte redução do desmatamento e queimadas, sobretudo na castigada Amazonia Legal. Ainda pairam uma série de dúvidas de como o país irá garantir de fato essa redução.
Um sinal dessas garantias foi dado pelo ministro Carlos Minc ao anunciar a criação do Fundo Cerrado — semelhante ao que já existe para a Amazônia —, a implementação de uma rede de monitoramento de informações e acertos com outros países emergentes.
É nesse contexto que interessa ao Brasil o debate da REDD - Redução às Emissões por Desmatamento e Degradação que diz respeito à adoção de mecanismos para se evitar o desmatamento das florestas.
A ousadia do Brasil nas negociações internacionais sobre o clima contrasta com o conservadorismo interno. Ainda mais surpreendente foi a perfomance de Lula que brilhou em Copenhague chegando a ofuscar o líder da maior potência mundial Barack Obama. É reconhecida a postura conservadora de Lula sobre o tema da crise ecológica no debate interno – mais de uma vez já demonstrou a sua contrariedade à legislação ambiental considera por ele por demais severa, principalmente por atrapalhar o desenvolvimento de grandes obras.
Uma hipótese para a ousadia de Lula – ao afirmar que se fosse necessário o país faria um sacrifício a mais, colocando dinheiro no Fundo do Clima para ajudar os outros países – desautorizando a ministra Dilma Rousseff, chefe da delegação brasileira em Copenhague, que vinha negando essa possibilidade – é alimentar e reforçar a imagem que cultiva no exterior: “Ciente de que a conferência do clima foi um de seus últimos palcos internacionais antes de deixar o cargo, Lula não perdeu a chance de brilhar... sozinho. Ao defender que o Brasil ofereça recursos para um fundo global, o presidente cuidou bem de seu prestígio, mas desautorizou a chefe de delegação Dilma – que acumulava reveses mesmo antes de sua chegada”, afirma a jornalista Renata Lo Prete.
Em um discurso de improviso Lula surpreendeu a todos ao criticar a intransigência dos países ricos, afirmando que o que estava em jogo não era uma barganha, mas o futuro do planeta. Foi interrompido em quatro ocasiões pelos aplausos da plateia — até mesmo jornalistas de outros países que cobriam o evento bateram palmas em duas ocasiões.
Até mesmo a ex-ministra Marina Silva, uma contundente crítica da política ambiental do governo reconheceu a perfomance de Lula: “O presidente Lula, ainda que muitas vezes polêmico, de fato discursa bem. Na COP-15, dentre todos os líderes mundiais, foi dele a fala mais vigorosa e emocionante. Sua chegada deu uma guinada na posição brasileira”.
Ousado lá fora, tímido aqui dentro. Assim pode ser definida a postura do governo brasileiro e de Lula. As contradições se acumulam. Enquanto Lula discursava em favor do clima em Copenhague, a bancada ruralista aprovou um projeto de lei que dá a Estados e municípios autonomia para criar suas próprias leis ambientais.
O projeto de lei – regulamenta as competências de cada ente da federação, federal, estadual e municipal para licenciar, fiscalizar e punir infrações contra o meio ambiente – será um incentivo ao desmatamento e à destruição de biomas, como a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica.
O sinal de alerta foi dado pelo ministro do Meio Ambiente Carlos Minc ainda em Copenhague que disse que pediria o veto a Lula. Para ser coerente com sua postura internacional Lula deveria vetar o projeto, entretanto como Lula “necessita” da bancada ruralista para a “governança” nada indica que de fato isso acontecerá.
A pouca disposição de Lula em peitar os interesses da bancada ruralista manifesta-se ainda em outro caso – no caso da revisão dos índices de produtividade da terra. Até o momento Lula não cumpriu sua promessa feita ao MST e já se passam meses. A bancada ruralistas em sua guerra particular para evitar a revisão dos índices de produtividade para fins de reforma agrária e aproveitando-se da postura vacilante do presidente, aprovou nesses dias um projeto que reduz os critérios de aferição da produtividade. O texto do projeto submete ainda ao Congresso quaisquer alterações sobre índices de produtividade.
O Brasil tem tudo o que o mundo sonha
A agenda ambiental nunca esteve no topo das prioridades do governo. A opção brasileira por Belo Monte, complexo Madeira, transposição do Rio S.Francisco, agrocombustíveis, programa nuclear e até mesmo o pré-sal evidencia um modelo de desenvolvimento tributário da sociedade industrial que se encontra na contramão da crise climática.
O governo justifica essas iniciativas como indispensáveis para a continuidade do crescimento econômico. Surpreende, entretanto a falta de ousadia do país na pesquisa de matrizes energéticas alternativas. O país poderia liderar mundialmente esse processo, entretanto mostra pouca apetência para tanto. O Brasil tem tudo o que o mundo sonha, costuma dizer Washington Novaes, mas não se aproveita disso.
O ambientalista acredita, porém, que o país não será o mesmo pós-Copenhague: "Não é temerário afirmar que o Brasil não será o mesmo após esta reunião, qualquer que seja o desfecho das negociações. Mudanças climáticas e meio ambiente tenderão a deslocar-se para o centro do palco, principalmente na campanha eleitoral pela Presidência da República de 2010", afirma ele.
Segundo ele, “não se pode deixar passar em branco a presença em Copenhague de três possíveis candidatos à sucessão presidencial - a ministra Dilma Rousseff, comandando a delegação brasileira e se expondo diariamente ao bombardeio dos jornalistas; o governador José Serra, promovendo eventos com figuras como o governador da Califórnia, falando da política de seu governo de redução de emissões em seu Estado e assinando acordo de financiamento com BID e Banco Mundial; e a ex-ministra e senadora Marina Silva, desembaraçada das contingências ministeriais e assumindo um discurso mais duro - contribui muito para o "upgrade" no plano interno das questões climática e ambiental. Elas serão um dos temas centrais da próxima campanha presidencial”.
O otimismo de Washington Novaes contrasta com as “notícias” internas. Entre elas, as declarações da própria Marina Silva aceitando a construção de Belo Monte – uma obra devastadora, como já analisada aqui outras vezes.
Em uma entrevista arrasadora nessa semana ao IHU On-line, a maior voz pública hoje na oposição à construção de Belo Monte, o bispo de Altamira no coração da Amazônia, Erwin Kräutler, não poupa críticas à pessoa de Lula, o seu governo e a Marina Silva por quem se diz profundamente decepcionado.
Sobre Lula afirma o bispo: “Será que Lula sonha com um Shangri-La tropical para esse povo que será atingido pela desgraça de Belo Monte, será que ele quer recuperar o paraíso perdido ou fazer emergir das águas represadas do Xingu uma Atlântida submersa. Déjà vu! Esse filme já conhecemos desde Itaipu, e ainda mais desde Tucuruí e a desastrosa Balbina! Quem dá a garantia para as promessas presidenciais se concretizarem? Quando o lago submergir um terço da cidade de Altamira, o presidente Lula e seu staff já obterão suas polpudas aposentadorias e irão lavar suas mãos, pois não terão que prestar homenagem ou satisfação a quem, naquela altura, governará o Brasil”.
Para Dom Erwin, “a futura geração amazônica irá condenar ao inferno a quem causou toda essa desgraça e arrasou irreversivelmente essa região magnífica. Mas, o arrogante setor energético do Governo não se dispõe a ouvir o brado do povo. Dane-se quem for contra a hidrelétrica! Bem de acordo com aquele antigo provérbio árabe: Os cães ladram e a caravana passa!”.
Em outro trecho da entrevista, o bispo, manifesta sua decepção com a candidata à presidente pelo PV: “Marina Silva me decepcionou. Jamais pensei que ela se submetesse tão tranquilamente aos ditames de sua candidatura à presidência da República. Nunca pensei que ela abrisse mão de sua convicção de defender o meio ambiente contra projetos insanos e imperdoavelmente omissos nos seus estudos de viabilidade. Marina fala como candidata do Partido Verde e, como tal, deveria exatamente assumir a defesa do “Verde das Florestas”! A afirmação “não há como fugir do aproveitamento energético do rio Xingu” é a mesma cantilena que estamos cansados de ouvir da boca dos intransigentes tecnocratas do Governo. Pior, ao repetir esse refrão, Marina capitula diante dos ideais que fizeram dela uma voz respeitada e uma referência em nível nacional e internacional em se tratar da defesa da Amazônia”.
Conclui Dom Erwin: “Não é mais a Marina que eu conheci e hospedei em Altamira no dia em que mataram a Irmã Dorothy! Marina traiu sua missão de vanguarda dos povos da floresta. O que ela espera alcançar com essa mudança de seu visual? Alguns votos dos que até agora fizeram oposição à ela?”, pergunta o bispo.
Belo Monte, tendo presente o debate em Copenhague, tornou-se um símbolo que por detrás de si formula e instiga o debate sobre o Brasil que queremos. A grande questão posta hoje é que tipo de crescimento econômico queremos. Por muito tempo, inclusive na esquerda, acreditou-se que o crescimento econômico seria a varinha de condão para a resolução de todos os problemas. Particularmente da pobreza. A equação é conhecida. O crescimento econômico produziria um círculo virtuoso: produção-emprego-consumo. Porém, o axioma de que apenas o crescimento econômico torna possível a justiça social não é verdadeiro. Será que o grande projeto brasileiro é transformar todos cidadãos em consumidores. E como fica o meio-ambiente? É preciso complexificar o debate.
O debate sugerido, a partir do princípio da ‘ecologia da ação’ – tantas vezes aqui destacado – recomenda que devemos construir uma sociedade que seja sustentável com a natureza, às necessidades humanas presentes e futuras, com uma ética solidária, definidas desde os setores populares, tendo como fim a construção de uma sociedade baseada em valores da solidariedade, liberdade, democracia, justiça e equidade.
Às vésperas do Natal, quando o Deus se encarna e assume a condição humana, é preciso recobrar a esperança no fermento, invisível aos olhos, mas potente em levedar a massa. Como dizia Albert Camus, a porta de saída está no muro.
Conjuntura da Semana em frases
Precipício, no escuro
"Estamos caminhando em direção a um precipício, no escuro" - Richard Betts, do Met Office Hadley Center, centro britânico de estudos sobre mudanças climáticas sobre as incógnitas do clima - O Estado de S. Paulo, 13-12-2009.
"O precipício está lá fora, em algum lugar, você não sabe onde ele está, e, por isso, faz mais sentido parar" - Richard Betts, do Met Office Hadley Center, centro britânico de estudos sobre mudanças climáticas - O Estado de S. Paulo, 13-12-2009.
Brilhou
“Ciente de que a conferência do clima foi um de seus últimos palcos internacionais antes de deixar o cargo, Lula não perdeu a chance de brilhar... sozinho. Ao defender que o Brasil ofereça recursos para um fundo global, o presidente cuidou bem de seu prestígio, mas desautorizou a chefe de delegação Dilma -que acumulava reveses mesmo antes de sua chegada” – Renata Lo Prete, jornalista – Folha de S. Paulo, 19-12-2009.
Reunião do clima I
“Veja como Lula é inteligente. Um ecologista do governo diz que, até dois meses atrás, o presidente pouco sabia — e pouco se interessava — sobre aquecimento global ou efeito estufa. Rapidamente, apreendeu a lição e, em Copenhague, brilhou merecidamente” – Ancelmo Gois, jornalista – O Globo, 19-12-2009.
Lula e Marina
“Mesmo que a senadora Marina Silva tenha razão na visão crítica, não há como não reconhecer a habilidade e a capacidade do presidente Lula de roubar as bandeiras alheias e assumi-las como se fossem suas, o que, compreensivelmente, irrita os adversários” – Merval Pereira, jornalista – O Globo, 19-12-2009.
Vigoroso e emocionante
“O presidente Lula, ainda que muitas vezes polêmico, de fato discursa bem. Na COP-15, dentre todos os líderes mundiais, foi dele a fala mais vigorosa e emocionante. Sua chegada deu uma guinada na posição brasileira” – Marina Silva, senadora – PV-AC – Folha de S. Paulo, 21-12-2009.
Capitalismo
"Se quisermos salvar a Terra e a humanidade, não temos outra alternativa se não acabar com o sistema capitalista" – Evo Morales, presidente da Bolívia – O Estado de S. Paulo, 17-12-2009.
Banco capitalista
"O que eles estão dizendo nas ruas é que ''''se o clima fosse um banco, eles já o teriam salvo''''. Eu acho que é verdade, Se o clima fosse um banco capitalista, um banco capitalista, um daqueles grandes, eles o teriam salvo” – Hugo Chávez, presidente da Venezuela – Valor, 17-12-2009.
Devolva o Prêmio, Obama!
"O prêmio Nobel não está à altura da expectativa que a população do planeta coloca sobre ele. Obama, faça alguma coisa. Ou você vai ter de devolver aqui o prêmio Nobel” – Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente – O Estado de S. Paulo, 20-12-2009.
Dilma frita
“Se a ministra Dilma Rousseff for submetida a outra cenografia como a de Copenhague, talvez possa disputar uma vaga de vereador em Muriaé. Ela teve que disputar câmeras com Carlos Minc, prestígio com Marina Silva e tribuna com Lula. Só faltou disputar o salto em distancia com Maurren Maggi” – Elio Gasperi, jornalista – Folha de S. Paulo, 20-12-2009.
Campanha política
"O Brasil devia chegar à cúpula sobre mudança climática com um verdadeiro grupo de negociadores e não para fazer campanha política para 2010" – Marina Silva, senadora – PV-AC – portal do jornal O Estado de S. Paulo, 19-12-2009.
Merda
"Não quero saber se o João Castelo (prefeito de São Luís) é do PSDB, se outro é do PFL (atual DEM) e não quero saber se é do PT. Quero saber se o povo está na merda. Eu quero tirar o povo da merda em que ele se encontra" – Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República – O Estado de S. Paulo, 11-12-2009.
Palavrão
“Em São Luís, o palavrão descabido (de Lula) foi a expressão simbólica da política liturgicamente encarnada na figura do governante porque se expressa por meio dos mesmos palavrões do povo. Recurso que não resolve problemas, mas acalma carências que aqui se tornam diariamente impolíticas mediações políticas” – José de Souza Martins, sociólogo – O Estado de S. Paulo, 20-12-2009.
