Data: 18/04/2010
Economia verde: a última conspiração

A ofensiva completa a manobra decidida pelo próprio Obama para se livrar finalmente do "Government Sachs", o poder-sombra que dita há décadas a sua agenda aos governos. O outro ataque de Obama ao Goldman é o núcleo duro da sua reforma dos mercados, a qual o presidente leva mais em consideração: uma severa limitação à especulação dos bancos sobre derivados. Porque são a arma de destruição em massa que o Goldman se preparava para usar para a futura "bolha verde". Estava pronto um projeto para o trading de futuros, explorando a criação de uma nova bolsa para as trocas de permissões de emissões carbônicas. A Green Economy de Obama se tornaria o pretexto para um novo mercado criativo: o ambientalismo sequestrado pela Wall Street.

Há 80 anos, aquele que a revista Rolling Stone batizou como The Vampire Squid (o polvo-vampiro) deixa as suas marcas nas euforias especulativas e sobre as crises da economia norte-americana. Saindo sempre intacto. Uma história tão gloriosa alimenta o sentido de impunidade até a arrogância. O primeiro que notou isso foi o economista John Kenneth Galbraith na célebre obra "A grande crise de 1929". Um capítulo é intitulado "In Goldman Sachs We Trust", paródia do lema impresso em todas as notas de dólar: confiamos em Deus. Nos anos 20 do século passado, o Goldman estava na vanguarda na difusão dos "investment trust", antepassados dos modernos fundos comuns de investimento. Livres de acumular dívidas, esses títulos tiveram um papel nefasto na quebra da Wall Street à qual se seguiu a Grande Depressão.

Os anos 70 e 80 são décadas de inovações financeiras nos EUA e em todo o mundo. Acabam as restrições aos movimentos de capitais. Nos EUA, cai a barreira entre bancos de depósito e merchant bank. Em Nova York e Londres, os Big Bangs libertam as Bolsas. É um período áureo para o Goldman Sachs dirigido por Sidney Weinberg, que, junto com outros bancos, cavalga a epopeia do "scalate": financistas audazes atacam colossos históricos do capitalismo, fazendo com que os capitais sejam emprestados pelos mercados. Tornando-se populares as colocações de registros na Bolsa sobre as quais os bancos lucravam comissões generosas. O enxerto dessa era é a New Economy dos anos 90.

O Goldman está na primeira fileira, é ele que coloca na Bolsa o Yahoo!. Em 1999, no ápice da febre de mercado em alta, coloca mais de 47 dot.com (empresas relacionadas à Internet). Usa uma técnica inescrupulosa para manipular as cotações. Aos clientes que querem a garantia de serem servidos por primeiro, impõe o compromisso de adquirir outras ações apenas cotadas no mercado. Assim, garantem-se partidas fulminantes aos novos títulos assim que desembarcam na Bolsa. Conflitos de interesse surgem naquele período entre o Goldman e diversos "top manager" de sociedade cotadas, incluindo a famigerada Enron. Entre 1999 e 2002, a cúpula do Goldman vive uma das suas idades áureas, autodistribuindo-se 28,5 bilhões de gratificações. Ainda em março de 2000, a bolha da New Economy estourou, deixando desastres sobre o campo, incluindo a falida Enron.

E o que importa? Encerrada uma bolha, faz-se uma outra. Ainda está viva a recordação da quebra da New Economy, quando inicia a louca elevação de muitos anos do mercado imobiliário. Espalham-se os empréstimos subprime concedidos a clientes de alto risco de insolvência. O Goldman se destaca no negócio dos títulos estruturados, construídos com a inserção de créditos bancários para os titulares dos empréstimos. Com alto risco de serem irrecuperáveis. Esse é o episódio que está no centro da incriminação por fraude. A SEC demonstra que o Goldman engana seus próprios clientes dando-lhes títulos dos quais esconde o verdadeiro "selecionador". E o gestor dos "hedge fund", John Paulson, um mercadista em baixa que ganha se esses títulos caem. Fraude, mentira, conflito de interesses. Isso ocorre bem no meio da crise que exaure a economia de todo o Ocidente, jogando-a na mais grave recessão desde os anos 30.

Enquanto isso, o Goldman está comprometido também em um outro jogo, não menos importante. Pouco antes da crise, explodiram os preços mundiais de todas as matérias-primas. Desde a metade de 2007 à metade de 2008, os barris de petróleo sobem de 60 a 147 dólares. Um choque energético que contribuirá com a recessão. O Goldman é o rei do negócio dos títulos derivados da energia. Um analista seu, Arjun Murti, se afirma como o "oráculo do petróleo". As suas análises, circundadas por uma auréola de notabilidade, preveem uma elevação de até 200 dólares por barril. Em cinco anos, o volume de capitais investidos nos derivados energéticos se multiplicará em 2.300%. Mais do que os consumos reais da China e da Índia, é o multiplicador das finanças que acentua a rápida elevação dos preços. Até a crise de 2008, um desastre que gera vítimas entre os que possuem poupanças e pensionistas. Só o fundo de pensão dos funcionários públicos da Califórnia, o Calpers, retorna 1,1 bilhões.

Esse era o prelúdio ao novo grande negócio que o Goldman havia sentido. O banco apostou no cavalo certo para as eleições presidenciais de 2008. Doou 981.000 dólares para a campanha eleitoral de Barack Obama, o maior financiamento individual de um privado. Os magos das finanças descobrem uma paixão pela ecologia. A Energy Bill de Obama, na sua primeira versão, quer introduzir nos EUA um sistema análogo ao europeu: permissões de emissões carbônicas, negociáveis em uma Bolsa apropriada. No Goldman, projetam aplicar a essas transações o multiplicador diabólico dos derivados. Logo, a especulação das mudanças climáticas se tornará um mercado de 646 bilhões de dólares (estimativa do governo), destinados a subir a 1 bilhão em poucos anos.

Na sexta-feira passada, Obama emitiu a sentença de morte para esse plano: "Usarei o meu poder de veto presidencial se não for aprovada uma reforma dos mercados com severos limites aos títulos derivados". Poucas horas antes, a SEC havia pronunciado a palavra "fraude". Ao lado do nome que, há 90 anos, a Wall Street venera como um Deus.

Publicado no jornal La Repubblica, 18/04/2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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