Domenico Losurdo: críticas a um rebelde aristrocrático
Em razão do lançamento de seu livro: “A linguagem do Império: léxico da ideologia estadunidense”, o Filósofo Italiano Domenico Losurdo realiza uma série de conferências no Brasil, dentre as quais um debate acerca do tema: “Nietzsche e o Marxismo” que foi realizado no dia 06 de maio de 2010 na Faculdade de Educação da UFMG.
Losurdo é um dos maiores filósofos marxistas da atualidade, crítico contumaz do liberalismo e do imperialismo estadunidense. Autor de mais de 20 livros, dentre eles: “Liberalismo. Entre civilização e barbárie ” e “ Nietzsche o rebelde aristocrático”.
Além da escrita cirúrgica que observa as mínimas “escorregadas” de “heróis intelectuais” Losurdo descreve de modo analítico o discurso do império na construção da hegemonia e entende que esta não respeita um mínimo de coerência política e filosófica.
No debate, Losurdo, com uma voz tonitruante, a todo o tempo põe em xeque o “mito” Nietzsche. E quiçá, de modo irônico (visto que Losurdo não é o que se pode chamar de Nietzschiano) diz que “temos que defender Nietzsche contra a Hermenêutica da Inocência”.
Para Losurdo, Nietzsche foi um teórico da escravidão, quando as grandes potências a aboliram, bem como critica a Igreja (Cristã não Católica) somente porque parte dela teria ajudado na empreitada abolicionista ocorrida nos EUA.
Mas, mesmo assim, poderia Nietzsche ter analisado metaforicamente a escravidão? Se sim, dizemos que ele ignorava as questões de sua época. Seria ele, então, um sonhador? Losurdo prefere entender que Nietzsche não era tão ingênuo assim.
Ingenuidades a parte, Losurdo analisa um diálogo possível entre Nietzsche e Marx que se dá na crítica à ideologia, de modo que o primeiro tece seus comentários com o fim de desmascarar os opressores e melhorar as condições de vida dos oprimidos quando, nesse caso, os escravos–operários se rebelariam. Já Nietzsche, crítica a ideologia a fim de contornar essa “desmascaração”, fazendo com que os escravos de cor e de castas continuassem sua missão de raças úteis.
Fica patente nas palavras de Losurdo que Nietzsche, o nosso aristocrata rebelde, teve seu comportamento guiado por uma postura acrítica à expansão colonial, a escravidão e ao que ele mesmo chama de “aniquilamento das raças decadentes”.
Assim, pergunta-se, apesar da profundidade filosófica e complexidade de sua obra, Nietzsche seria alheio a seu tempo? Losurdo entende que para analisar as contribuições de um autor, sejam elas de ordem filosófica ou política deve-se atentar para uma contextualização histórica. Desse modo, não seria possível que um intelectual do porte de Nietzsche pudesse ser alheio ao seu tempo.
Observa-se, então, que a análise de Nietzsche acerca da escravidão não pode ser considerada metafórica ou romântica, no entanto, trata-se por parte do nosso rebelde aristocrático de um distanciamento de algumas respostas verdadeiras, que tem como objetivo a defesa de classe, da sua classe.
Nietzsche falava do alto e representava o alto. O que Losurdo pretende é derrubá-lo desse “altar sagrado da intelectualidade” a fim de que ele possa contribuir como tem contribuído com a perquirição filosófica atual.
Tão válida quanto necessária é a pretensão do filósofo italiano, ainda mais em tempos em que cada vez mais se manifesta um discurso ideológico de império que se utiliza de falsas dicotomias, como por exemplo: “Democracia” VS. “Fundamentalismo”, “Civilização” VS. “Barbárie” a fim da manutenção deste estado de coisas cruel em que a desigualdade social é o termômetro da passividade da sociedade.
Losurdo, tão meticuloso nas suas observações e enérgico na argumentação, choca os mais distraídos. E faz a vida desses caberem nas palavras de Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas: A vida dos distraídos é sempre cheia de surpresas.
O Autor é Monitor de Criminologia do Centro Universitário Newton Paiva. Pesquisador convidado do Grupo de Pesquisa-Ação Criminalidade, Violência e Direitos Humanos.
