Data: 03/03/2009
O Dom Helder que conheci

Homem pequeno e frágil, Dom Helder tinha características curiosas: quase não se alimentava. Todos diziam que ele comia feito passarinho. Também dormia pouco, tinha um horário estranho de sono: se deitava por volta de onze, levantava às duas da madrugada, sentava numa cadeira de balanço e se entregava à oração.

De uma carta, recém-divulgada, de Dom Helder Camara (1909-1999), arcebispo
de Olinda e Recife, datada de 27/28 de maio de 1969 e endereçada a seus
amigos e amigas, a quem chamava de "família mecejanense" (Mecejana é o
distrito de Fortaleza no qual ele nasceu):

De repente, às 13h30min me chega o boato de que o padre Antônio Henrique
havia sido assassinado. Procura daqui, procura dali, ele foi identificado no
necrotério de Santo Amaro, onde dera entrada como cadáver desconhecido.

Estaria com sinais de sevícias incríveis: três balas na cabeça, uma
instalada na garganta, sinais evidentes de que foi amarrado pelos braços e
pelo pescoço, e arrastado... 28 anos de idade, três anos de sacerdote.
Crime: trabalhar com estudantes e ser da linha do Arcebispo.

Coube-me procurar os velhos pais e dar-lhes a notícia terrível.

No necrotério ­ onde ficamos até 19h, quando o cadáver foi liberado pelos
médicos legistas ­ vivi uma avant-première de minha própria morte.
Burburinho na sala. Gente chegando de todos os cantos. A imprensa escrita,
falada, teve ordem de ignorar o acontecimento, mas demos avisos a todas as
paróquias, por telefone e recados pessoais.

Levei-o para a matriz do Espinheiro. (...)

Na primeira concelebração, às 21h, tínhamos mais de 40 sacerdotes, e a
igreja, enorme, estava transbordante de jovens.

Dei uma tríplice palavra:

· Palavra de fé, aos velhos Pais, esmagados de dor;

· Palavra de esperança aos jovens com quem ele trabalhava; assumi o
compromisso de que eles não ficariam órfãos;

· Aos fiéis que enchiam o templo ­ mais uma vez a imprensa escrita e falada
tinha ordem para recusar até o aviso pago de falecimento. Pedi que ajudassem
a espalhar que às 9h haverá nova concelebração, saindo o enterro, às 10h,
para o cemitério da Várzea, que é o cemitério da família.

Li, então, a nota, assinada pelo Governo Colegiado, nota que a imprensa não
divulgará, mas que nós tentaremos espalhar por toda a cidade, pelo País e...
pelo Mundo.

Faz, pois, 40 anos que padre Henrique Pereira Neto foi assassinado no
Recife.

O coordenador

Conheci Dom Helder Câmara - cujo centenário de nascimento ele teria
comemorado no último dia 2 de fevereiro - quando era bispo auxiliar do Rio
de Janeiro, nos anos 60. Homem de muitos talentos e tarefas, ocupava-se
também da Ação Católica, movimento que agrupava o chamado A, E, I, O e U
(JAC, JEC, JIC, JOC e JUC). Eu participava da direção nacional da JEC
(Juventude Estudantil Católica). Dom Helder nos coordenava, cuidava de nos
matricular numa escola, com bolsa de estudos, e de nos assegurar recursos
para o trabalho, como passagens aéreas que possibilitavam aos dirigentes do
movimento viajar por todo o país. Graças ao prestígio dele, as portas se
abriam.

Embora ele nos assegurasse o "atacado", às vezes padecíamos no "varejo".
Morávamos em Laranjeiras - 12 rapazes da JEC e da JUC (Juventude
Universitária Católica) -, num apartamento de três quartos, verdadeira
república da pindaíba! Ali, com frequência se hospedavam os líderes
estudantis Betinho, de Minas, e José Serra, de São Paulo. Tínhamos recursos
para viajar e escritório bem montado na rua Miguel Lemos, em Copacabana, mas
nem sempre para a voracidade de nosso apetite juvenil...

Na época, o governo Kennedy, preocupado com a penetração do comunismo na
América Latina, criou o programa chamado ³Aliança para o Progresso²: doava
leite e queijo, em caixas de papelão, para os pobres do Brasil. Parte da
cota da Igreja ia para a nossa alimentação. Como as caixas ficavam meses no
porto, umedeciam e o alimento se deteriorava. Tivemos sérios problemas de
saúde por comer o queijo do Kennedy e beber o leite da Jaqueline...

O empreendedor

Além dos anos em que fiquei na direção da Ação Católica (1962-1964),
convivi com Dom Helder no último período da vida dele; anualmente eu
participava, no Recife, da Semana Teológica promovida pelo grupo Igreja
Nova. Nunca deixava de visitá-lo na igreja das Fronteiras, onde residia.

Homem pequeno e frágil, Dom Helder tinha características curiosas: quase
não se alimentava. Todos diziam que ele comia feito passarinho. Também
dormia pouco, tinha um horário estranho de sono: se deitava por volta de
onze, levantava às duas da madrugada, sentava numa cadeira de balanço e se
entregava à oração. Era, como ele dizia, seu "momento de vigília". Rezava
até as quatro, dormia mais uma hora, hora e meia, e levantava para celebrar
missa e começar seu dia.

Nos anos 60, Dom Helder encabeçava, no Rio, a Cruzada São Sebastião,
projeto de desfavelização criado por ele. Malgrado a meritória intenção de
propiciar aos mais pobres condições dignas de moradia, não deu certo: sem
renda suficiente ou desempregados, moradores de favela eram transferidos
para um apartamento que tratavam de sublocar; ou arrancavam a banheira, a
pia, a torneira, para fazer dinheiro e comer.

Como Dom Helder obtinha recursos? Havia um programa de grande sucesso na TV,
no qual sorteava-se uma pessoa da platéia, colocava-a numa cabine fechada, a
partir da qual a escolhida não conseguia enxergar nada do que se passava
fora. O auditório, repleto de prendas: carro, televisor, liquidificador,
geladeira, relógio, pinça, cortador de unhas... uma porção de objetos.

Dom Helder recebeu convite do patrocinador do programa para perguntar ao seu
Joaquim, operário sorteado: "O senhor troca isto por aquilo?" Joaquim não
tinha ideia do que estava sendo proposto, cabia-lhe responder sim ou não.
Isso umas sete ou oito vezes, até que, cessada a pergunta, o objeto da
última troca era o prêmio merecido.

O auditório, na torcida pelo operário, lamentou quando seu Joaquim deixou de
ganhar um carro por preferir, jogando no escuro, um abridor de latas. O
apresentador lamentou ao entregar-lhe o prêmio: ³O senhor teve a
oportunidade de ganhar este carro ou aquela geladeira, mas insistiu no
abridor de latas... Queremos agradecer, em nome de nossos patrocinadores, a
presença de Dom Helder; e aqui vai um cheque para as obras da Cruzada São
Sebastião.

Dom Helder, gênio da comunicação, virou-se e propôs: "Seu Joaquim, você
troca isto (o cheque) por este abridor?" E entregou o cheque ao operário!

No dia seguinte, na sede da Ação Católica, comentamos com ele: "Mas Dom
Helder, o senhor abriu mão do dinheiro da Cruzada, uma contribuição
importante! Como vai obter igual valor?" Ele retrucou: "Ah... vocês não têm
ideia: o que perdi no cheque ganhei em publicidade. Maiores recursos virão".

O articulador

Homem de mil atividades, dotado de profundo senso crítico, Dom Helder tinha
o dom de dialogar com qualquer pessoa, de qualquer nível. Figura muito
carismática, difícil alguém considerá-lo inimigo depois de falar
pessoalmente com ele, ainda que continuasse a discordar de suas ideias.

Espírito gregário, onde Dom Helder chegasse juntava gente em torno dele. Foi
quem criou a CNBB, inventando as conferências episcopais, e o CELAM, o
conselho dos bispos da América Latina. Todos esses organismos que, de certa
forma, descentralizam a Igreja romana, saíram da cabeça do bispo que, para
azar dos militares golpistas, virou arcebispo exatamente em 1964. O papa o
nomeou para São Luís e, dias depois, o transferiu para a arquidiocese de
Olinda e Recife, na qual ele permaneceu até falecer.

O agitador

Dom Helder despontou, em 1972, como forte candidato ao Prêmio Nobel da Paz.
Hoje sabemos que não ganhou o prêmio por duas razões: primeiro, pressão do
governo Médici. A ditadura se veria fortemente abalada em sua imagem
exterior caso ele fosse laureado. Mesmo dentro do Brasil Dom Helder era
considerado persona non grata. Censurado, nada do que o ³arcebispo vermelho²
falava era reproduzido ou noticiado pela mídia de nosso país.

A outra razão: ciúmes da Cúria Romana. Esta considerava uma indelicadeza,
por parte da comissão norueguesa do Nobel da Paz, conceder a um bispo do
Terceiro Mundo um prêmio que deveria, primeiro, ser dado ao papa...

Nos anos 70, ele era a única figura brasileira a competir, fora do país, com
o prestígio do Pelé. Aonde ia, lotava auditórios. Tamanho o carisma dele
que, em 1971, em Paris, convidado a falar num auditório em que cabiam 2 mil
pessoas, tiveram que transferi-lo para o Palácio de Esportes, que comporta
12 mil.

Um dia, o governo militar, preocupado com a segurança do arcebispo de
Olinda e Recife, temendo que algo acontecesse a ele e a culpa recaísse sobre
a ditadura, enviou delegados da Polícia Federal para lhe oferecer um mínimo
de proteção. Disseram-lhe: "Dom Helder, o governo teme que algum maluco
ameace o senhor e a culpa recaia sobre o regime militar. Estamos aqui para
lhe oferecer segurança". Dom Helder reagiu: "Não preciso de vocês, já tenho
quem cuide de minha segurança". "Mas, Dom Helder, o senhor não pode ter um
esquema privado. Todos que têm serviço de segurança precisam registrá-lo na
Polícia Federal. Esta equipe precisa ser de nosso conhecimento, inclusive
devido ao porte de armas. O senhor precisa nos dizer quem são as pessoas que
cuidam da sua segurança". Dom Helder retrucou: "Podem anotar os nomes: são
três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo".

O denunciador

Dom Helder morava numa casa modesta ao lado da igreja das Fronteiras.
Frequentemente, as pessoas que tocavam a campainha eram atendidas pelo
próprio arcebispo. Certa noite, a polícia fez uma batida numa favela do
Recife, em busca do chefe do tráfico de drogas. Confundiu um operário com o
homem procurado. Levou-o para a delegacia e passou a torturá-lo. A lógica da
polícia era esta: se o cara apanha e não fala é porque é importante,
treinado para guardar segredos. Vizinhos e a família, desesperados, ficaram
em volta da delegacia ouvindo os gritos do homem. Até que alguém teve a
ideia de sugerir que a esposa do operário recorresse a Dom Helder.

A mulher bateu na igreja das Fronteiras:"Dom Helder, pelo amor de Deus, vem
comigo porque lá na delegacia do bairro estão matando meu marido de
pancadas". O prelado a acompanhou. Ao chegar lá, o delegado ficou
assustadíssimo: "Eminência, a que devo a honra de sua visita a esta hora da
noite?" Dom Helder explicou: "Doutor, vim aqui porque há um equívoco. Os
senhores prenderam meu irmão por engano". "Seu irmão?!". "É, fulano de tal ­
deu o nome ­ é meu irmão". "Mas, Dom Helder ­ reagiu o delegado -, o senhor
me desculpe, mas como podia adivinhar que é seu irmão. Os senhores são tão
diferentes!". Dom Helder se aproximou do ouvido do policial e sussurrou: "É
que somos irmãos só por parte de Pai". "Ah, entendi, entendi". E liberou o
homem.

Essas as tiradas de Dom Helder, capaz de jogadas proféticas que provocavam
certa ciumeira entre os bispos. Ele tinha muitos aliados no episcopado, mas
também quem invejasse seu prestígio mundial.

Durante o tempo em que estive na prisão, Dom Helder moveu intensa campanha
no exterior de denúncia da ditadura brasileira. O governador de São Paulo,
Abreu Sodré, tentou criminalizá-lo. Alegava ter provas de que Dom Helder era
financiado por Cuba e Moscou. Alguns bispos ficavam sem saber como agir,
como foi o caso do cardeal de São Paulo, Dom Agnelo Rossi, amigo do
governador e de Dom Helder. Não foi capaz de tomar uma posição firme na
contenda. Depois a denúncia caiu no vazio, não havia provas, apenas recortes
de jornais.

Incomodava ao governo ver desmoralizada, pelo discurso de Dom Helder, a
imagem que a ditadura queria projetar do Brasil no exterior, negando
torturas e assassinatos. Ele sempre ressaltava que, se o governo brasileiro
quisesse provar que ele mentia, então abrisse as portas do país para que
comissões internacionais de direitos humanos viessem investigar, como fez a
ditadura da Grécia. A ditadura grega era militar, mas abriu as portas para a
investigação, o que o governo brasileiro, evidentemente, nunca fez.

Se nós, hoje, na Igreja, falamos de direitos humanos, especificamente a
Igreja do Brasil, que tem uma pauta exemplar de defesa desses direitos,
apesar de todas as contradições, isso se deve ao trabalho de Dom Helder.
Nenhum episcopado do mundo tem agenda semelhante à da CNBB na defesa dos
direitos humanos. A começar pelos temas anuais da Campanha da Fraternidade:
idoso, deficiente, criança, índio, vida, segurança etc. Isso é realmente um
marco, algo já sedimentado. Também as Semanas Sociais, que as dioceses,
todos os anos, promovem pelo Brasil afora, favorecem a articulação entre fé
e política, sem ceder ao fundamentalismo.

Dom Helder sempre dizia: "Quando falo dos famintos, todos me chamam de
cristão; quando falo das causas da fome, me chamam de comunista".

Isso demonstra bem o incômodo que causava. Não era um bispo que falava
apenas de quem passa fome, mas também das causas da fome e da miséria, o que
incomodava o sistema que se recusa a tratar as causas da miséria, porque
fazem parte de sua própria lógica.

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