Data: 02/01/2009
A teologia da libertação e a sua força política

Por mais perversa e cínica que seja certa consciência burguesa, ela não tolera um discurso público contra os ideais da teologia da libertação. Que político em algum comício ousa falar contra os pobres? Mesmo que aja nas votações contra eles e esteja envolvido em maracutaias escandalosas, mente descaradamente ao defender os valores da justiça social.

Em nível de sociedade, especialmente de Brasil, a teologia da libertação sinaliza forte presença por meio dos muitos movimentos sociais que nasceram sob seu influxo. Entre eles se inscreve o MST que teve no seu berço a presença da Igreja da libertação. O próprio PT, que atualmente está no Governo, com muitas mudanças naturalmente, teve forte vinculação com as CEBs, produto e causa da teologia da libertação. A vitória do Projeto Popular que esteve por trás da eleição de Lula, na sua última fase, recebeu influência da teologia da libertação. A luta contra a Ditadura militar, que terminou com sua derrocada, foi alimentada, no meio cristão, pela teologia da libertação. Até mesmo setores laicos recorreram a ela.

Por mais perversa e cínica que seja certa consciência burguesa, ela não tolera um discurso público contra os ideais da teologia da libertação. Que político em algum comício ousa falar contra os pobres? Mesmo que aja nas votações contra eles e esteja envolvido em maracutaias escandalosas, mente descaradamente ao defender os valores da justiça social.

De fato, os políticos nas suas falas recorrem a elementos da teologia da libertação, mesmo que sua prática lhe seja a negação. Isso significa que uma linguagem oposta à da teologia da libertação não tem credibilidade e plausibilidade social.

Os pobres são hoje, no horizonte do país e até diria do mundo, em linha de palavra, protagonistas. Políticos e economistas do FMI, do Banco Mundial, do G7 inserem os pobres em seus discursos. Grande parte se deve à presença cristã e, sobretudo a da Igreja Católica.

Alguém poderá dizer que isso não serve de nada, porque no concreto o neoliberalismo nega tal discurso e age maldosamente contra os pobres. É verdade. No entanto, o fato de ter de esconder, de mentir, mostra a sua falta de ética e isso a longo prazo levará a conflitos e a uma crise ética, como estamos a constatar atualmente na tormenta financeira. Essa vitória do discurso do pobre não pode ser menosprezada. Insuficiente, mas passo significativo. A teologia da libertação contribuiu para ele. Evidentemente não só ela.
No interior da Igreja, ela desempenhou papel importante e ainda permanece atuante, embora de maneira menos perceptível. Muitos se atêm às reservas romanas contra ela. Fato real, mas não abarca toda a verdade. A linguagem e os ideais da teologia da libertação, como a opção pelos pobres, entraram de cheio no discurso oficial da Igreja.
Haja vista as falas dos dois últimos pontífices. João Paulo II tornou-a tema recorrente tanto em viagens aos países pobres lamentando-lhes a condição de pobreza, quanto em alerta às nações ricas para o dever da justiça distributiva dos bens. Bento XVI, em Aparecida, relacionou-a com a própria fé cristológica: “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza”. Sem opção pelos pobres, a fé em Cristo está comprometida.

A teologia da libertação teve o mérito de chamar a atenção para a sua inegável evangelicidade. Trouxe-a para o proscênio do teatro da vida eclesial. Na Igreja da América Latina e do Brasil, sua influência, em termo oficial, goza de alta significação. A opção preferencial pelos pobres, feita pelo Episcopado Latino-americano em Puebla, não se entenderia sem o clima criado pela Igreja da libertação, alimentada pela teologia da libertação. Em Aparecida, os bispos retomam de maneira inequívoca a mesma posição. Atravessam o documento episcopal não só a temática dos pobres, mas também elementos fundamentais da teologia da libertação.

Podemos fazer desfilar diante dos olhos uma série significativa de documentos da CNBB que até hoje se nutrem desse imaginário libertador. É verdade que a teologia da libertação não está sob os holofotes da mídia, como em outros tempos. Deixou de ser um monte de sol a brilhar ao sol, para salgar as águas da Igreja e da sociedade na invisibilidade do sabor.

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