Data: 13/03/2009
Crer num mundo de muitas crenças e pouca libertação

Hoje vivemos outro momento cultural. A secularização, ao destronar as religiões institucionais, permitiu uma privatização e explosão estonteante de expressões religiosas. Vivemos um mundo de muitas crenças. Já não é mais a secura racional que desmonta os ritos religiosos. É a emoção que os faz proliferar por todos os lados.

Título que escolhi para um livro em que abordei a temática da fé (São Paulo/Valencia, Paulinas/Siquem, 2003). O paradoxo traduz a situação da fé hoje. Um toque de história esclarece-o. Ontem a secularização batia-se contra a fé cristã, que se tinha sobrecarregado de muitas formas religiosas, obrigando-a a um processo de purificação e de concentração no cerne do evangelho. Isso foi lá pelas décadas de 60 e 70. Os intérpretes dividiam as opiniões. Alguns, os mais conservadores, temiam a secularização como feroz inimigo. Viam-na devastando impiedosamente terrenos religiosos. Os sinais visíveis da religião encurtavam-lhe a presença. Os hábitos de freiras e as batinas dos padres eram aposentados. Os sinais e costumes religiosos cediam espaço para gestos seculares.
Outros, porém, alegravam-se com tal ataque. Agora sim a fé cristã demonstra o que ela é, uma vez despida dos rebocos religiosos. A secularização é-lhe teste positivo. E, em muitos casos, a fé cristã superou-o airosamente, embora muitos cristãos tenham sofrido detrimento quanto aos ritos religiosos que cumpriam e com os quais identificavam a própria fé.

Hoje vivemos outro momento cultural. A secularização, ao destronar as religiões institucionais, permitiu uma privatização e explosão estonteante de expressões religiosas. Vivemos um mundo de muitas crenças. Já não é mais a secura racional que desmonta os ritos religiosos. É a emoção que os faz proliferar por todos os lados. A expansão dos meios de comunicação social permite que desde meu quarto tenha acesso a qualquer tipo de forma religiosa que circula no universo veloz da Internet. Que fazer diante de tantas ofertas religiosas?

O comportamento religioso mais comum tem sido semelhante ao do freguês que antes freqüentava a única padaria ou mercearia de sua cidadezinha e se munia dos produtos que ela oferecia. Hoje entra num shopping center e defronta-se com ofertas quase infinitas e vai construindo sua cesta de compras. Imaginem a proliferação de denominações religiosas e formas pararreligiosas como um imenso supermercado. Aí acorrem as pessoas para selecionar o seu kit religioso. E diante desse fenômeno religioso surge a pergunta: como crer cristãmente? Que atitude crítica a fé cristã, de corte libertador, estabelece com essa inundação religiosa?

A fé é um percurso. Em cada momento da história o refazemos. As paisagens variam, os empecilhos e as facilidades para a viagem modificam-se. Hoje nos cercam as flores perfumadas da religiosidade pós-moderna. Uns falam de Nova Era. Ela embriaga-nos com sua fragrância de tal modo que facilmente nos sentimos embevecidos e deixamos de caminhar. A fé cristã conhece a austeridade dos desertos e não somente o colorido dos jardins. Atravessa os terrenos arenosos da injustiça, levando-nos a um compromisso sério de transformação da realidade.

A fé cristã sofreu em tempos passados o embate de uma razão moderna autônoma, pretensiosamente onipotente, não aceitando nenhum rincão da verdade que não fosse aprovado pela pesquisa empírica. Eis que essa mesma razão padece atualmente de forte doença. Os monstros, que ela gerou, sobretudo na forma de razão instrumental, tais como bombas atômicas, campos de concentração, genocídios de povos e etnias, lançaram-lhe em rosto a sua perversidade. Enfraquecida, desprestigiada na sua obra maior de construção da cultura ocidental, é substituída na pós-modernidade pela subjetividade exacerbada, pela emoção, pela busca imediata do prazer e do gozo.

Ninguém poderia esperar que a fé, que por ela fora combatida, lhe venha em defesa. Sem uma razão consistente, a humanidade corre o risco de despencar pelos abismos do subjetivismo, do niilismo e do arbitrário. A fé defende-lhe a capacidade de chegar à verdade, de encontrar fundamentos profundos para os grandes valores. Sem eles a sociedade não consegue caminhar. Cabem, portanto, um diálogo crítico com a razão e uma atitude de discernimento diante do fenômeno religioso.

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