Páscoa
Celebra-se a páscoa do cordeiro, cujo sangue nas ombreiras da porta das casas dos israelitas os protegeu do anjo exterminador. Páscoa doravante será a memória viva da grande libertação de Israel do Egito.
Celebra-se a Páscoa como a festa maior do Cristianismo. A liturgia reserva-lhe longa preparação de 40 dias extensivos e uma semana intensiva, chamada na expressão latina de “hebdomada maior” – a semana maior, popularmente de semana santa. Ela lança as raízes na história de Israel. Tudo começou na escravidão. Experiência humana tão passada como atual, tanto em nível pessoal como social. Quem não experimentou em algum momento da vida preso, atado, limitado? Quantos grupos humanos, mulheres e crianças, índios e negros, sem-casa e sem-terra, desempregados e migrantes não sofreram na carne a dominação, a exploração, e porque não dizer a escravidão?
Páscoa remonta a esse dado antropológico e histórico, na vida pessoal e social. Lá estava Israel amassando tijolos, sob o peso da condenação de morte de todos os filhos homens. Na aflição grita-se por salvação, por consolo, por libertação. Do outro lado, tantas e tantas vezes, estão ouvidos moucos. Com Israel não aconteceu assim. Alguém ouviu. Diz o Senhor a Moisés: “Eu vi a opressão de meu povo no Egito, ouvi o grito de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento de seus sofrimentos. Desci para libertá-los das mãos dos egípcios” (Ex 3, 7-8). E conhecemos a história.
Celebra-se a páscoa do cordeiro, cujo sangue nas ombreiras da porta das casas dos israelitas os protegeu do anjo exterminador. Páscoa doravante será a memória viva da grande libertação de Israel do Egito. E onde o judeu se reúne para celebrar, o filho menor pergunta ao pai: - “Por que é esta noite diferente de todas as outras noites? A resposta vem: - “ Pois nesta noite nós celebramos a saída de Israel da escravidão para a liberdade e redenção. Éramos escravos do faraó no Egito e Deus tirou nosso povo de lá com uma mão forte e uma promessa de redenção”. Convidam-se os participantes do rito pascal a fazer a mesma experiência que o povo fez outrora na realidade da história, agora na rememoração dos sinais. É a alegria da festa com vinho e cordeiro assado, sem faltar as ervas amargas para não se esquecer a dor passada e o pão ázimo recordando a pressa da fuga.
O cristão, recolhendo tal experiência, pergunta-se sobre que dominações ainda o oprimem. De que libertação carece? E Páscoa representa que vitória? Transfere para o Novo Testamento a lição do Antigo. Volta-se então para o centro da sua própria fé. Lá está Jesus postado como quem foi derrotado pelos inimigos. Conseguiram fazer com ele o pior possível no seu tempo. Condená-lo à morte de cruz. Com isso, imaginava-se que tudo estava consumado. Ele mesmo dissera tal frase na hora derradeira (Jo 19, 30). Pairava uma escuridão sobre toda a terra não somente entre meio dia e três horas da tarde (Lc 23, 44), mas sem limite de tempo. Na sexta-feira de Jesus concentraram-se todas as dores, mortes, sofrimentos, pecados e violências sofridas da humanidade.
Páscoa vem como resposta. A vida triunfa no corpo crucificado de Jesus e em todos os crucificados da terra. A morte deixa de ser a última palavra sobre a história. O pecado, que se implantara em Adão e em todos os descendentes, é batido pela graça. Paulo resume: Onde abundou o pecado, aí transbordou a graça (Rm 5, 20) O algoz não pode prevalecer sobre a vítima, gritou o filósofo alemão diante do horror nazista. Páscoa anuncia a vitória da ressurreição sobre os cadáveres, da justiça sobre a maldade, do amor sobre o ódio. Quando Cristo ressuscita não pode haver tristeza; ele dissipa o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade. A luz esplendorosa de Páscoa espanca definitivamente a escuridão. Christus surrexit! Cristo ressuscitou! Aleluia.
