O caminho dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio
As regras do mercado invadiram esse setor da vida humana que funciona na base da demanda e da oferta.
Quando a demanda escasseia, a oferta busca os meios sofisticados para despertá-la e assim fazer passar seu produto. E no momento a procura parece alta, então as ofertas proliferam.
A seca espiritual da sociedade materialista provoca crescente sede de experiências religiosas. As pessoas peregrinam pelo circuito das águas de religiões a buscar alguma fonte para desalterar-lhes a sede. Multiplicam-se as ofertas desde aquelas vindas do longínquo Oriente até as brotadas em nosso solo. Pertence a esse momento de pós-modernidade o desejo de experiências religiosas. Saboreiam-se os produtos e selecionam-se aqueles de gosto agradável.
As regras do mercado invadiram esse setor da vida humana que funciona na base da demanda e da oferta. Quando a demanda escasseia, a oferta busca os meios sofisticados para despertá-la e assim fazer passar seu produto. E no momento a procura parece alta, então as ofertas proliferam.
As experiências espirituais entram nessa farândola de propostas com objetivos diversos. Umas revelam-se ricas nas proteínas da emoção de rápida digestão. Ao saciar, provocam mais sede. O momento seguinte precisa ser mais intenso de preferência no meio a grupos e multidões. Enchem-se estádios. Vibra-se até a exaustão física e emocional. Volta-se para casa aliviado por pouco tempo até que nova onda de desejos aflore. Entra-se na roda inexorável do desejo-satisfação-desejo. A sede de símbolo, de gozo, de prazer, de satisfação por parte do ser humano nunca se estanca. Vê aí sua felicidade.
Há as experiências do silêncio e contemplação. Outro departamento. Buscam-se lugares retirados, bonitos, em que a alma descansa na tranqüilidade serena de uma natureza pacífica. Os orientais pontificam nesse setor. A meditação não se encarreira para nenhum objeto e muito menos para objetivos prático-existenciais. Vale por ela mesma. Repousa sobre si. Apóia-se na sua gratuidade sem necessariamente referir-se a um Mistério pessoal, em diálogo.
Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio transitam por outro caminho. Distancia-se da via das emoções de massa. Pede retiro, solidão e empenho pessoal. Participa do desejo do silêncio. Escolhe com freqüência lugares calmos em que a natureza facilita a elevação da mente. Difere, porém, do puro repouso espiritual. A expressão “Exercícios” denota já outra disposição interior. Vai-se para uma academia espiritual a fim de dispor o espírito para ação de Deus. Trava-se difícil equilíbrio entre um esforço humano exaustivo e uma acolhida serena das moções gratuitas de Deus.
Na origem está a experiência de conversão de Santo Inácio que tematizou, com extrema lucidez, o próprio processo espiritual de uma vida mundana até a entrega radical a Deus. Organizou pedagogicamente tal itinerário de maneira a iluminar a outros que o perfazem.
Inicia-se com a reflexão de cunho antes intelectual. Giram-se dias em torno de verdades fundamentais da existência. De onde viemos, onde estamos, para onde vamos. Viemos do gesto criador. Estamos num mundo criado para que encontremos a Deus e vivamos dele. Eis a ordem. A desordem da nossa vida choca-se com esse projeto de Deus. Entra-se no universo das meditações. Exercícios que têm suas regras e disciplina. Em seguida, caminhamos lentamente pela via da contemplação dos mistérios da vida de Jesus até chegar aos píncaros de uma experiência mística de comunhão de unidade com a Trindade. Nesse itinerário, confrontamos a vida concreta com a busca de novos rumos, orientada por uma decisão fundamental pedida e desejada. Obra da graça. Os Exercícios dispõem a pessoa. Realizam o que Santo Tomás de maneira sucinta ensinou: a graça supõe e aperfeiçoa a natureza. Inácio pensa assim. Trabalha a natureza com seu método para que a graça aí se expanda. Acompanhamos o trabalho interior com insistente pedido da graça na qual depositamos toda confiança.
