Ecumenismo: um século depois de Edimburgo
A Igreja católica não esteve presente nesses começos. Convencida de que o único ecumenismo possível se reduziria ao retorno das igrejas separadas a seu seio, negava sentar-se em torno de uma mesma mesa de igualdade.
O processo ecumênico recente lança suas raízes no movimento do início deste século. A faísca ecumênica acendeu no meio dos missionários de várias denominações evangélicas que se reuniram em 1910 em Edimburgo na Escócia e se disseram uns aos outros. Estamos evangelizamos países não cristãos. As pessoas olham para nós e perguntam: Vocês, então, anunciando uma mesma religião cristã, estão tão divididos?! Por que se combatem mutuamente? Como assim a religião de vocês pode ser verdadeira?
Esse espinho pungia-lhes o coração. Doía-lhes ser pedra de escândalo em vez de palavra de salvação. O ecumenismo nasce da dor de não poder testemunhar para os não cristãos aquela unidade dos inícios e que constituiu o objeto central da oração sacerdotal de Jesus no evangelho de João.
A Igreja católica não esteve presente nesses começos. Convencida de que o único ecumenismo possível se reduziria ao retorno das igrejas separadas a seu seio, negava sentar-se em torno de uma mesma mesa de igualdade.
O Papa João XXIII dá passo decisivo. Criou o Secretariado para a União dos Cristãos e confiou-o à maravilhosa figura do Cardeal Bea. Veio o Concílio. O Decreto do Ecumenismo lançou bases sólidas para a caminhada. Paulo VI e João Paulo II não se envergonharam de pedir, várias vezes, perdão em nome da Igreja católica pela sua parcela de culpa na divisão das igrejas.
João Paulo publicou a corajosa Encíclica Ut unum sint, em que se mostra absolutamente convencido de que o primeiro ato fundador do ecumenismo se chama conversão, a começar pelo sucessor de Pedro. Nessa perspectiva, há espaço para crescer no diálogo.
Com efeito, alguns pontos do ecumenismo se desenvolveram grandemente nos últimos anos. Líderes religiosos, pastores da igreja católica e os das oriundas da Reforma ou de outras do mesmo espírito aberto, têm conseguido estabelecer pontos de encontro, além de cordata relação humanocristã entre si. Teólogos sérios e responsáveis têm avançado, ao assinalar proximidades, semelhanças e até mesmo coincidências, onde antes reinava a polêmica. Revelou sinal auspicioso a Declaração conjunta Católica Romana e Evangélica Luterana sobre a Doutrina da Justificação por Graça e Fé. O que se constituiu, lá nos idos de Trento, pomo de discórdia, hoje consegue bela consciência de estar-se na mesma fé.
E, entre nós no Brasil, a prática social tem sido um campo de proximidade. Nas lutas das CEBs, católicos e evangélicos se unem na mesma causa. Os anos de repressão militar nos aproximaram na mesma batalha pelos direitos humanos.
Resta-nos ainda longa via no referente a práticas eclesiais, especialmente à participação na mesma Eucaristia de modo visível e patente. O tema do ministério esconde pesadas dificuldades. O próprio João Paulo reconhecera que o exercício do ministério petrino necessita ser repensado, já que constitui um dos maiores empecilhos para a união das Igrejas.
Se ainda não comungamos com as igrejas evangélicas em todos os pontos, ao menos, na comemoração do centenário de Edimburgo , cresçamos em proximidade. Oxalá nos unamos em 2010 em mais uma Campanha da Fraternidade, embora não tenhamos conseguido ainda a desejada reconciliação na doutrina e na disciplina eclesiástica.
