Data: 28/02/2010
Jovens e Igreja

Impressionam-nos a complexidade e o caráter paradoxal da realidade. Passa-se de um polo a outro, mudando os sinais. Ontem a secularização arrancava os jovens da Igreja. Educados numa catequese tradicional ou vivendo no mundo rural de tradição religiosa, ao entrarem de cheio na cultura moderna, urbana, sobretudo a partir da adolescência, consideravam a formação religiosa passada como fase infantil a ser superada. Tranquilamente se alojavam na cidade secular com outro conjunto de regras. Aí a religião não fazia falta nem tinha algum efeito especial. Tanto faz, tanto fez. E por que então prosseguir no cumprimento de ritual sem relevância?

Vivendo em mundo comandado pela eficácia e utilidade, perceber que a fé não lhes trazia vantagem adicional, proveito concreto, para que então dar-se ao trabalho de cumprir uma série de exigências e práticas incômodas? Toda a religião ia água abaixo. Mesmo que façamos coisas sem sentido, iludimo-nos com significados aparentes. Entretanto, quando já não conseguimos, de modo algum, justificar ações, sobretudo se mortificantes, rapidamente as abandonamos. Assim a secularização devastou enorme série de atos religiosos.

Os dois mundos principais da cidade - estudo e trabalho - se distanciaram da religião. Neles funcionam outras leis: eficiência, produtividade, competência. Uma razão bem lógica, instrumental organiza a vida. Dispõe os meios para obter os fins almejados: trabalho, profissão. E no horizonte maior a atração de salários polpudos. Mais uma vez, a religião não serve para nada.

E o relativamente pouco tempo que sobra das crescentes demandas dos estudos e trabalhos se consome no lazer, nas festas, nos prazeres atraentes da cidade. A religião perde o en-canto, comparada com o canto da sereia da sociedade moderna. Quem nas noites de sextas-feiras e sábados se entrega aos embalos do prazer, como terá energia e disposição para no domingo participar de uma celebração religiosa? Na igreja tudo parece insosso diante da exuberância festiva oferecida pela grande cidade. Esfuma-se o sentimento religioso.

Os tempos mudaram. A secularização avançou tanto que conduziu as pessoas a secularismo seco, frio, estéril. Provocou reação oposta de crescente onda religiosa. Muitos daqueles jovens que tinham abandonado as Igrejas começam a buscar experiências religiosas. Não se volta ao passado tradicional. Uns desejam formas festivas, emocionais, coloridas. Embarcam numa das atrações carismáticas. Outros inseguros anseiam por uma voz forte, até mesmo impositiva, para dar-lhes referências, já que a cidade lhas destruiu.

Os jovens estão divididos por dentro e em grupos. Por dentro, ora rejeitando ora buscando sinais religiosos. Rejeitam formas e expressões que outrora praticaram. Buscam alternativas bem diferenciadas até em religiões orientais, xamânicas. Quando juntos, agregam-se em bandos a-religiosos, violentos ou enchem templos evangélicos em busca de uma autoridade firme que lhes dite caminhos. Duas expressões que revelam a insegurança pessoal e a perda de referências na sociedade. Cansados de ser livres, transferem as decisões para outros líderes de gangues ou religiosos.

O mercado tem-se especializado nas faixas etárias. Tecem propagandas para crianças, adolescentes e jovens, aproveitando os resultados de pesquisas de opinião e de análises de psicólogos. A MTV fez uma pesquisa nacional no Universo Jovem entre a faixa de 15 e 30 anos. Aponta como um dos seus traços fundamentais o cultivo do corpo, da beleza. Eles manifestam descompromisso com as próprias raízes para entrarem num processo de constante experimentação.

As Igrejas conseguem cativá-los à medida que lhes ofereçam espaço para diferentes, novas e múltiplas experiências. Nelas buscam momento de prazer, de realização emocional, de alegria, de estética. Horrorizam-se com moralismos, exceto os inseguros, como aludimos acima. Aumenta uma parcela estranha de "jovens nostálgicos", decididos a reviver ou quem sabe a viver uma infância que não viveram. É uma "nostalgia retrô" que assume formas bizarras. Cria-se um mercado dos "kidults" - kid (jovem) + adult (adultos). Daqui a pouco também haverá ritos religiosos da infância que começarão a atraí-los. O futuro aponta para tamanha diversidade de expressões religiosas que haverá campo para todos os gostos. Quem sabe que, no fundo, se esconde terrível medo do futuro? A tentação de uma religião fácil consiste em querer ocupar esse espaço, ao garantir aos jovens um futuro sem compromisso. Ela pode até ter um êxito transitório. Não deixará de ser, no entanto, uma expressão de alienação a mais. Vem somar-se ao carrossel de luzes fugazes que a pós-modernidade midiática move. A Igreja católica não tem direito de trair o Mestre Jesus e a longa tradição, barateando as exigências cristãs. O seguimento de Jesus é o ponto fulcral da fé da Igreja. Fora dele, reina muita ilusão!

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