Igreja e juventude
A Igreja tem vivido em relação aos jovens, nessas últimas décadas, relação ambivalente de atração e repulsa, de proximidade e distância, de entusiasmo e frialdade.
A juventude está a anunciar o novo. A Igreja deposita nela expectativas de futuro. Sem ela, apagam-se as últimas velas da presença eclesial no mundo.
A Igreja tem vivido em relação aos jovens, nessas últimas décadas, relação ambivalente de atração e repulsa, de proximidade e distância, de entusiasmo e frialdade. Nos anos 60, a Ação católica especializada no meio secundarista, universitário e operário aqueceu, com sangue novo, a vida eclesial. Contagiou-a o entusiasmo de jovens que praticavam com fidelidade diária o método ver, julgar e agir, ensaiando o que mais tarde seria a teologia da libertação. No movimento de educação de base, a presença deles contribuiu para o despontar das CEBs. Nem faltou o toque da Ação Católica na gestação da própria Conferência dos Bispos. Tudo o que de novo brotava na Igreja levava a marca juvenil.
Faz bem recordar momentos de ontem para que a geração jovem de hoje saiba que, se eles foram importantes em momento do passado, o poderão ser também nos dias atuais. O vigor da idade, a abertura de espírito, a coragem empreendedora continuam sendo virtudes próprias da idade. Daí lhes vêm a criatividade e a capacidade de transformação da realidade.
Infelizmente, mal entendidos, conflitos dolorosos conduziram ao estremecimento das relações da Igreja oficial com a JEC e JUC até sua extinção. Vieram novas expressões de movimentos juvenis. Já não tinham a profundidade e consistência da experiência anterior. Originaram-se da matriz dos Cursilhos com entusiasmos afetivos e de prática de menor densidade. Foram ondas abundantes que rapidamente se desfizeram e hoje não passam de suaves marolas.
Praticamente os novos movimentos religiosos, alguns de nascentes européias, outros já gerados entre nós, monopolizam, na situação atual, a presença juvenil na Igreja. Diferentemente da Ação Católica e mesmo da marca Cursilho, os jovens vivem dos, nos e para os movimentos. Lá recebem os incentivos, as consignas, a espiritualidade, a formação. Comprometem-se com eles e assumem-lhes a missão. João Paulo II confiara-lhes a nova evangelização, acreditando em seu fervor, coragem e vigor.
O vazio da pastoral da juventude acontece em nível de paróquia e Igreja local. Os grupos de jovens nascem e morrem como a erva do campo, na metáfora de Jesus. Não lançam raízes. As suas sementes secam ao primeiro golpe de sol quente do verão das paixões ou são sufocadas pela ondas virtuais que povoam a imaginação e afetividade do jovem, mas fora dos encontros reais dos grupos e ações pastorais.
O Brasil mergulha com rapidez assombrosa no mundo eletrônico. As estatísticas anunciam que 100 milhões de brasileiros já andam colados aos celulares. E milhões também acessam a Internet. Já é tempo de pensar-se numa inteligente, conseqüente e ampla pastoral midiática.
O desafio consiste em transformar pedagogicamente os conhecimentos oferecidos por sites religiosos em momentos de reflexão e aprofundamento espiritual. A informação necessita superar o mero nível de comunicação de conhecimento para provocar busca e ulterior reflexão.
Em segundo momento, o solitário encontro com a telinha informativa precisa transformar-se na criação de grupos de debate, de troca de experiências no campo espiritual. E assim se criam grupos estáveis de jovens, vinculados por laços eletrônicos.
E, finalmente, num terceiro passo, aquecido o motor da afetividade pela midiática, que se caminhe para o verdadeiro campo da formação: os encontros reais com agentes de pastoral. Os grupos virtuais deixam assim o espaço midiático e descem ao real, onde se forjam grupos de vida, de formação.
O curso de crisma que existe nas paróquias tem condições de transformar-se em campo experimental da nova pastoral juvenil. E destarte a Igreja disporá de outra maneira para fazer-se presente com mensagem evangelizadora na formação dos jovens.
O mundo ocidental se transformou nos séculos XV e XVI por obra das grandes navegações, ao descobrir novos continentes. Hoje estamos, não a descobrir, mas a construir o sexto continente: a Internet. Diferentemente dos outros que lá estavam na física de suas terras e gentes, o novo continente se fabrica a cada dia pelos sites que se criam, pelas conexões que se armam, pela facilitação dos acessos. Sem ele, já não vivemos. Nele habitam os jovens, sobretudo nas horas avançadas da noite. E a Igreja só os evangelizará se lá estiver bem dentro, anunciando a novidade de Jesus pelas infovias.
A nova evangelização cibernética requer conteúdos e linguagem diferentes da tradicional linguagem escrita ou mesmo falada nos recintos sagrados. E os melhores evangelizadores serão os próprios jovens que conhecem bem tal mundo e assim falam a linguagem dos colegas. Está aí o desafio de criar uma nova pastoral da juventude internética.
