Igreja, ética e sociedade
O tema da ética inquieta a todos. Uns, porque dotados de profundo senso ético, sentem-se mal numa sociedade em que os valores éticos estão sendo tão ampla e facilmente violados. Outros percebem que suas práticas sem ética estão gerando para si e para a sociedade efeitos deletérios.
Tem a Igreja uma palavra sobre a ética na sociedade? Dois mil anos de experiência em confronto com os problemas da sociedade deram-lhe larga experiência. Depois que deixou o silêncio sofrido das catacumbas e projetou-se para dentro da sociedade ocidental, ela exerceu sobre a cristandade verdadeiro papel de tutela ética. Sendo a grande instituição instituidora do Sagrado e sendo o marco referencial religioso obrigatório de todo cidadão medieval, ela se sentia na obrigação de tutelar esse cidadão e sua sociedade, ditando-lhes as normas e regras éticas. Cumpriu tal missão durante séculos.
A modernidade surge como uma rebelião diante dessa tutela. As ciências, as instâncias econômicas, políticas e sociais gritam sua independência em face da Igreja. Já não querem o seu controle. Encantoam-na na sacristia, permitindo-lhe opinar eticamente só nos rincões religiosos. Que fale, mas somente para os fiéis no âmbito eclesial. A sociedade quer ela mesma criar sua ética a partir da razão humana, independentemente da religião.
No momento em que se abandona a religião como um dos baluartes da ética, perde-se a referência a uma Transcendência. E a ética entra no redemoinho das experiências subjetivas e vê-se desprovida de força normativa. Surgem tantas éticas, que já não se consegue pautar o comportamento da sociedade.
A situação da Igreja na modernidade sofreu de certa ambiguidade. De fato, nalguns países, sobretudo na Europa, ela foi alijada do mundo público e teve que viver no casulo intraeclesial. No Continente latinoamericano, porém, ela continuou a exercer a função tutelar em certos momentos. Mas a tendência também foi, pouco a pouco, de subtrair-lhe a presença social instituidora e normativa.
No Brasil, tal fase se acentuou com a implantação do regime militar. A burguesia triunfante e de má consciência pelos crimes que tal regime perpetrava temia uma Igreja que falasse, que gritasse pela ética. A ética estava sendo conculcada pelo regime sob a complacência conivente e atuante da burguesia dominante.
A Igreja do Brasil reagiu contra essa tendência ideológica do liberalismo, que, em nosso país, se contradizia profundamente. Afastava a religião do âmbito público em nome da liberdade e igualdade do Estado laico. E, no entanto, institucionalizara uma repressão nua e crua.
A Igreja rompeu o silêncio do ghetto e assumiu posição crítica respeito a aspectos éticos. Sendo praticamente a única instituição de credibilidade nacional e mundial que podia falar em defesa dos direitos humanos nos anos sombrios da repressão, ela alçou voz profética defendendo os presos, os torturados, os banidos, os exilados, os marginalizados de todos os tipos. Denunciou as mortes e assassinatos.
O silêncio conivente de parte da burguesia não resistiu a esse grito. Pouco a pouco, a sociedade reconheceu agradecida e assim legitimou e justificou a posição da Igreja no campo da ética.
Não implantou nenhuma tutela medieval. Mas também não aceitou aprisionar-se no silêncio das sacristias, que o liberalismo moderno queria impor-lhe. Escolheu o caminho novo da profecia. Não se fundamentou nos seus direitos institucionais, nem reivindicou a defesa de privilégios corporativistas.
Voltou-se para os direitos fundamentais do ser humano e sobretudo do pobre, marginalizado, oprimido. Desde essas raízes profundas do direito, gritou pela justiça, pela ética. A Igreja viveu momentos belos de grandeza ética. Além disso, pagou essa ousadia em nosso continente com longo rosário de mártires.
Reconhecendo, de um lado, a autonomia do mundo secular, a Igreja já não pensa tutelar a sociedade. Mas, doutro lado, sabendo-se especialista em humanidade, na expressão de Paulo VI no seu discurso na ONU, tendo dois milênios de profunda experiência com os seres humanos e tendo recebido o legado universal do mistério humano do Verbo, sabe que não pode calar sua voz. Os homens têm o direito de ouvi-la. E ela o dever de falar.
É desde essa perspectiva que a Igreja desenvolve as Campanhas da Fraternidade, que, em geral, giram em torno de problemas éticos. Entre uma Igreja que tutela a sociedade - fase histórica irreversivelmente ultrapassada - e uma Igreja prisioneira em seu mundo interno - fase imposta por uma modernidade liberal agonizante - , existe a Igreja da crítica profética em defesa dos direitos humanos, sobretudo os dos pobres. Voz dos sem voz, continua clamando onde se cala ou se faz calar a voz da justiça, da honestidade, dos direitos dos pobres, pessoas e países. Vocação eminentemente ética.
