Data: 29/10/2010
O cristão e a comunidade de fé

Muitas gerações foram educadas a considerar a fé como ato individual, que liga a pessoa a Deus. Trata-se de problema a dois: Deus e eu. Evidentemente há um quê de verdade. Ninguém crê no meu lugar. Em última instância, a consciência e a liberdade pessoais respondem pelos próprios atos, éticos e religiosos.

As meias verdades carregam perigo. Iludem pelo lado de verdade, enganam pelo lado de equívoco. A fé, considerada como ato puramente individual, reflete falsa concepção do ser humano. Ninguém vive em esfera perfeita em si mesma, nem em ilha fechada sem ponte para o continente do outro.

As ciências humanas e especialmente a fé cristã questionam a unilateralidade de tal visão. Que aconteceria com criança recém-nascida entregue a si mesma? Morreria. Que educação existiria sem pais, professores, sociedade?

Conhecemos experiência extrema. Circulou pelo noticiário mundial o fato exótico das meninas Amala e Kamala, encontradas na Índia, em 1920, criadas por famílias de lobos. De constituição genética humana, assemelhavam-se, porém, em tudo aos lobos. Desconheciam a maneira humana de andar sobre dois pés, dos hábitos alimentares, da linguagem, das emoções do choro ou do riso. Careciam de expressões culturais. Faltou-lhes o convívio social das pessoas para humanizarem-se. Imaginemos as Amalas e Kamalas da fé. Teriam fé fechada nela mesma, sem comunidade, sem ver como ela se vive e se celebra, como se pratica o evangelho. Como aprender isso fora de uma comunidade?

Avancemos com a fantasia. Alguém viveu e aprendeu os hábitos humanos, os valores da convivência, a alegria de estar com os outros. Pouco a pouco, fecha-se, isola-se. Que acontecerá? Adquirirá manias que o tornarão cada vez mais a-social, incapaz de conviver com os outros. A psicologia o considera enfermo mental. Muitos desses tipos a-sociais enveredam-se pelo caminho da violência, odeiam a convivência humana. Enfim, tornam-se ouriços, que, no inverno, morrem de frio e quando se aproximam, espetam-se.

Continuemos a parábola, a comparação. Por que não acontecerá o mesmo com a fé? Crer implica, ao mesmo tempo, dom de Deus e realidade humana. Pelos dois lados se faz comunitária. Se não, vejamos.

Ao deixar de freqüentar a comunidade, acabamos por desaprender aquela fé recebida um dia no momento comunitário da família ou na catequese inicial. Como tudo o que é humano, perde-se fora da contínua memória dos encontros com os outros. Pelo lado psicológico e humano, a comunidade se faz necessária para continuarmos crendo. Em tantos e tantos cristãos, a fé estiola precisamente pela ausência de uma comunidade que a sustenta, que a nutre, que a recorda, que pede coerência e prática.

Vamos mais longe. Que significa ser cristão? Seguir a Jesus Cristo. Como Jesus pensou o seguimento de sua pessoa? Os evangelhos nos falam de Jesus caminhando pela Palestina, sendo seguido por grupo de discípulos e discípulas. Não chamou as pessoas para terem relação individual com ele, mas para segui-lo, inserindo-se no cortejo dos que o acompanhavam. Até junto à cruz, embora muitos o tenham abandonado, estavam lá alguns, simbolizando a Igreja viva na primeira sexta-feira da paixão da história.

Ele morre. Ressuscita. Que acontece? Os discípulos e discípulos recordam-se dele. Seguem-no criando comunidades. No Cenáculo lá estava reunida a comunidade-matriz com Maria. E logo depois da iluminação e fortaleza de Pentecostes, a Igreja primitiva se difunde pelo mundo, fundando comunidades. Eis a grande obra de S. Paulo e de outros apóstolos. Até hoje a fé cristã se nutre da vida comunitária.

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