Pecado e graça, considerações pastorais
A experiência humana habita as regiões cinzentas, que se mostram em graus diferentes de tonalidade desde as mais escuras até as mais claras. Os seres humanos, porém, com sua capacidade de analisar separam logo os tons e dividem-nos nos extremos. O cinzento decompõe-se no branco e preto. Tal perspectiva ampliamo-la com freqüência para as ações morais, espirituais, religiosas.
Toda ação humana revela misto de graça e de pecado. Mas não na mesma proporção. Praticamos atos de quase puro amor de Deus e dos irmãos de clareza brilhante da graça, mas que nunca deixarão de ter traços escuros de imperfeição. Outras ações participam das trevas do pecado pelo egoísmo acentuado, frio, calculista que apenas toleram raios luminosos de graça.
Falar de pecado e graça de nossas ações não significa criar duas colunas opostas de modo que os atos de graça se situem numa e os pecados noutra. Na hora da confissão, simplesmente olharíamos para a lista de pecados e a recitaríamos para o sacerdote.
Será que a realidade humana é tão simples assim? Ou há olhar melhor para vermos o mundo da graça e do pecado de modo que a vida progrida constante, coerente e harmonicamente e não saltite contínuamente do pecado para a graça ou vice-versa?
Todas as ações humanas – aqui Nossa Senhora e Jesus fazem gloriosas exceções – carregam dentro de si elementos de graça e pecado em misturas variadas, desde a quase pureza de graça até as trevas quase totais dos pecados graves.
Que torna nossas ações cada vez mais luminosas de modo que percebemos sempre melhor os traços opostos de trevas nelas? E o contrário: qual é a contaminação pecaminosa que atinge todos os nossos atos?
Graça vai além das ações boas que fazemos. Afeta todos os atos ao serem tocados por presença e ação de Deus acolhida por nós. A face verdadeira da graça escapa-nos a experiência imediata. Impossível sentir e perceber a graça visivelmente. Alimenta a árvore da nossa vida cristã. Jesus nos ensinou a descobri-la, não pelo olhar para dentro da árvore, mas pelos frutos. “Toda árvore boa dá fruto bom e a árvore doente dá fruto ruim. Não pode a árvore boa dar fruto ruim nem a árvore doente dar fruto bom. Toda árvore, que não der fruto bom, é cortada e lançada ao fogo. É pelos frutos que os conhecereis.” (Mt 7, 17-19).
A graça não se vê nela mesma, mas nos frutos tocados por ela: amor, justiça, fraternidade, liberdade, misericórdia. Tanto mais esses frutos amadurecerem suculentos, sazonados, saborosos, tanto mais eles se carregarão de graça. Ela informa de bondade e beleza, de verdade e sentido, as nossas ações. Pela graça o Espírito atua em nós. Ela tudo santifica, tudo embeleza, tudo purifica. Mas infelizmente não conseguimos que atue em total eficácia, porque há os limites da fraqueza, da pequenez, do egoísmo.
Graça não é uma coisa, nem pacote que aumentamos com atos para um dia trocá-lo por céu. Pertence a outra natureza. Significa o atuar, o estar-presente do Espírito de Deus em cada um de nós. Princípio ativo e animador a influenciar-nos e a orientar-nos na direção do que o evangelho chama de “bons frutos”. Por eles descobrimos a graça em nós.
O pecado revela a outra face da realidade humana. Tristemente presente em todos os atos. Toca até as melhores ações, depositando nelas certo grau de veneno – egoísmo, vaidade, busca de nós mesmos, exploração do outro. Ele não consegue destruir totalmente a ação salvadora de Deus, mas pode inibi-la em muito, fazendo de nós um ser cada vez mais fechado para Deus e para os outros.
Os sacramentos – e de modo especial os sacramentos do batismo, da reconciliação e da eucaristia – têm a força de provocar-nos com a graça ao movimento de rejeição da face escura da ação egoísta e de fazer aumentar a dimensão de bondade, de liberdade, de desprendimento, de saída de nós.
Pecado e graça agem em nós e os assumimos como orientação maior ou menor da vida. Reina a graça quando nos orientamos para o outro, para o bem, para a verdade, para a beleza, apesar dos traços de fechamento, de maldade, de mentira, de feiura sempre presentes. Reina o pecado quando os traços do mal engrossam deixando pouco espaço para o bem.
Graça e pecado lançam-nos em duas aventuras. A graça faz-nos felizes e inicia o céu. O pecado transforma-nos em crescente inferno para nós e para os outros.
