O sermão da montanha e o símbolo de Nicéia
De tempos em tempos, levanta-se a pergunta se existe radical oposição entre doutrina e evangelho, entre Credo elaborado pelos Concílios e Sermão da Montanha, entre seguimento de Cristo e pertencer a uma Igreja. Questão bem atual.
Evidentemente, em nível pessoal, não se nega que alguém viva ou tenha vivido essa tensão até o limite da necessária ruptura, percebendo contradição entre esses dois pólos. A história prodigaliza inúmeros exemplos. Não nos toca julgar a interioridade das pessoas em decisão tão grave. Acatamento e silêncio.
No entanto, o teólogo vai além do silêncio respeitoso de casos pessoais. A teologia se esforça para entender a fé objetivamente e naquilo em que ela é partilhada pela comunidade. Santo Agostinho e nas suas pegadas Santo Anselmo e outros definiram esse esforço teológico como “fides quaerens intellectum” – a fé que busca inteligência, autocompreensão.
Nesse sentido, perguntamos se na busca de intelecção profunda do evangelho encontramos realmente oposição insanável e irreconciliável entre ele e todo esforço de vivê-lo na Igreja, que o interpreta a longo dos séculos, elaborando doutrinas e práticas novas.
M. Weber colocou em termos amplos o processo de institucionalização dos carismas. Essa reflexão ajuda-nos a entender parte do processo da relação entre Igreja e evangelho. A Igreja oferece corpo histórico ao evangelho para que ele seja vivido ao longo do tempo. Isso traz riscos, mas também resulta necessário antropológica e sociologicamente. Toda institucionalização do evangelho ameça-o de encurtamento, de rotinização, de concretização aquém da sua beleza. A vantagem, diria a necessidade, vem da condição humana de só se viver o evangelho de maneira encarnada, limitada, fazendo-o história e ajudado por irmãos de uma comunidade.
Quem anunciou o evangelho submeteu-se ao limite da história, da condição humana. Eis o escândalo da Encarnação. Mais. A maneira de manifestar a realidade divina na forma humana se perpetuou no seio da comunidade com todos os perigos que isso necessariamente implica. O sentido da Igreja só se entende na perspectiva da Encarnação. Ela é sinal, manifestação visível, menor e frágil, do maravilhoso mistério salvador de Deus. Em toda pequenez, procura que tal desígnio de Deus se torne visível e realizável para todos os seres humanos. Por essa missão, cabe a Igreja ser vista, entendida e julgada.
O evangelho permanece constante instância judicante da Igreja. Toda crítica vinda do evangelho é bem-vinda. Neste sentido, a Igreja mostra-se coerente, não revidando as críticas, mas deixando-se continuamente questionar pelo evangelho e assim corrigir-se. A teologia contribui, ao ajudar o conjunto da Igreja a fazer esse processo contínuo de aperfeiçoamento e correção.
A Igreja católica, por ocasião do Concílio Vaticano II, em nível mundial, e, nas Assembléias Episcopais de Medellín, Puebla e Santo Domingo, em nível latino-americano, submeteu-se a profunda autocrítica. Logo depois do Concílio, o nada suspeito jornal comunista italiano L’Unità escrevia que o partido comunista deveria ter a coragem de fazer a mesma autoanálise crítica que a Igreja católica acabara de fazer.
Toca ao teólogo manter o contacto com o frescor matutino do evangelho, do Sermão da Montanha, de toda a vida e prática de Jesus, e, desde aí, ajudar a Igreja na sua reflexão e prática a fim adequar-se cada vez mais à mensagem evangélica. Ela nos propõe horizonte inalcançável precisamente para que não imaginemos tê-lo atingido. Jesus nos disse simplesmente: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 36).
