Data: 11/09/2008
O mistério que intrigava Paulo

O início do mês da Bíblia é uma boa ocasião para re-visitarmos Paulo de Tarso e seus abundantes e inspirados escritos. Tanto mais estando, como estamos, em plena comemoração do Ano Paulino, proclamado pelo Papa Bento XVI em 28 de junho próximo passado e que deve estender-se até 29 de junho de 2009.

Figura central do Cristianismo das origens, Saulo de Tarso, judeu, filho de judeus, circuncidado ao oitavo dia, da tribo de Benjamin, pela lei fariseu e formado aos pés do grande rabino Gamaliel, era inicialmente adversário dos adeptos do galileu Jesus de Nazaré, do qual diziam haver ressuscitado dos mortos. Colaborava o jovem Saulo nas condenações e execuções feitas aos primeiros cristãos e testemunhou pessoalmente o martírio do jovem Estevão, que era inclusive seu conhecido.
Após isso, na estrada de Damasco pela qual viajava levando cartas para perseguir os cristãos daquela região, teve uma experiência tão luminosa que mudou totalmente sua vida. Uma experiência da presença de Jesus Ressuscitado, que passou a ser o centro da vida e do destino do jovem Saulo, dali em diante chamado Paulo.

A situação de Paulo passa a ser, então, bastante complexa. O zelo pelo judaísmo que o impulsionou a tomar parte na repressão inicial contra o cristianismo nascente acabou se transformando em ardor proselitista pela nova religião, ao mesmo tempo em que sentia dentro de si o dilaceramento interior por causa de sua pertença ao povo de Israel. Nenhum outro escrito exprime isso melhor do que a Carta aos Romanos, inquestionavelmente paulina e fruto de uma reflexão amadurecida do grande teólogo Paulo.

O contexto é o de uma comunidade, a de Roma, onde as divergências parecem conduzir a sérios desentendimentos entre os convertidos do judaísmo e do paganismo. Na Epístola, Paulo parte da contraposição entre Cristo, justiça de Deus, e a justiça que os homens pretendem alcançar por seu próprio esforço. Não nega o valor da antiga economia da salvação, mas lhe marca limites precisos. Escreve: "A Lei é santa. Justo e bom é o preceito". Ao mesmo tempo, enfrenta o problema de sua debilidade e a consciência da própria culpa, e não consegue ver na Lei a ajuda necessária para superá-las. Daí, a sua solução: "Somente em Cristo encontra-se essa ajuda e ela se obtém através da fé".

A conseqüência lógica seria a exclusão da salvação dos judeus que permanecessem no judaísmo. Contudo, Paulo não parece satisfeito com aquela dedução e passa a polemizar com os cristãos provenientes da gentilidade, que numa soberba mal dissimulada desprezavam os judeus. Deixa muito claro que, diante de Deus, não há acepção de pessoas. Paulo está convicto de que aos israelitas, textualmente, pertencem a adoção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto, as promessas, os patriarcas. E deles é, conforme Romanos 9, 4-5, o Cristo, segundo a carne. E esses dons são irrevogáveis. E diz aos gentios: "Do que vocês se vangloriam? Vocês são apenas ramos de oliveira silvestre enxertados no tronco da videira autêntica capaz de dar frutos e esse tronco é Israel. E o tronco não foi arrancado".

Como solucionar essa contradição? Paulo acaba, na realidade, entoando esse hino ao mistério de Deus. "Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis seus juízos e impenetráveis seus caminhos. Quem, com efeito, conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem se tornou seu conselheiro? Ou quem primeiro lhe fez o dom para recebê-lo em troca? Porque tudo é d´Ele, por Ele e para Ele. A Ele, a glória pelos séculos! Amém".

À distância de 20 séculos, esse mistério continua vivo. Mistério de uma vocação que é irrevogável. Mistério de um Deus de misericórdia que chama todos à salvação e do qual se espera a presença salvadora. Olhando Paulo podemos hoje aprender o muito que nos falta ainda para viver plenamente o diálogo com aqueles de cujo tronco somos ramos. Aqueles a quem foi dada a aliança e de quem nasceu o Cristo segundo a carne: o povo de Israel.

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