Livro: Curso Fundamental da Fé
RAHNER, Karl. Curso Fundamental da Fé. SP: Paulinas, 1989
Resenha: Seguindo as orientações do concílio Vaticano II, o livro Curso Fundamental da Fé, de Karl Rahner, pretende ser uma introdução aos estudos teológicos e nova orientação da Teologia Fundamental. Para tanto, o Autor busca embasamento bíblico e dogmático. Utiliza os modernos métodos exegéticos; recolhe o mais seguro e fundamental dos resultados da investigação bíblica e tem muito presente os problemas do homem hodierno, as ideologias e os sistemas em que se fundam.
Transcrevemos a seguir, um trecho do livro em que Karl Rahner destaca a importância dos sacramentos para vida cristã:
“Cada sacramento, para que se veja o seu sentido, deve-se considerar, por um lado, a partir da Igreja enquanto sacramento fundamental, e, por outro lado, há de se inserir na história da vida individual, onde surge como a manifestação sacramental da vida cristã de Graça nos momentos existenciais fundamentais da vida humana. É assim que temos de início um conjunto de sacramento de iniciação: o Batismo e a Confirmação.
No Batismo, a pessoa torna-se cristã e membro da Igreja. É o primeiro sacramento da remissão dos pecados, da participação no esplendor da Graça divina, na natureza divina, da capacitação interna e permanente da fé, esperança e caridade para com Deus e para com o homem. Mas este agraciamento interior, permanente e individual do homem, que de pecador se torna justo, no Batismo acontece pelo fato de o homem, através deste rito de iniciação, ser acolhido na comunidade dos que crêem e confessam a salvação de Deus em Cristo. No Batismo Deus confere a Graça ao homem em ordem á sua própria salvação individual, pelo fato de inseri-lo e enquanto o insere como membro na Igreja. A pertença à Igreja, o ser membro da Igreja é o efeito primeiro e imediato deste sacramento da iniciação que todo cristão recebe, que para todos constituiu a base da existência cristã em tudo o que nessa vida possa existir inclusive de poderes hierárquicos, sacramentais e de governo, porque o não-batizado não pode receber nenhum outro sacramento validamente nem pode deter qualquer poder jurídico na Igreja.
No Batismo o homem recebe a Graça para sua própria salvação enquanto se torna membro da Igreja. Mas essa afirmação não deve ser bagatelizada no sentido de que essa pertença à Igreja como seu membro, conferida pelo Batismo, exista somente para fazer com que o batizado receba também os outros dons de sua justificação e santificação individual e para nada mais. Que isso seja inteiramente falso segue-se já do fato de que essa justificação e santificação individual, em caso de necessidade, pode-se conseguir só através da fé e da caridade sem o sacramento, e que semelhante coisa ocorre no caso de muito não-batizados. O Batismo deve, pois, ter conteúdo e significado positivo para o indivíduo já com antecedência a esse efeito salvífico individual, conteúdo e significado que não podem esgotar-se neste efeito salvífico individual. A inserção na Igreja, na qualidade de membro, não é somente meio para obter a salvação privada, mas antes, por força do Batismo, deve possuir sentido que lhe seja próprio. E é dado com o sentido e a função da Igreja em geral.
A Igreja não tem somente o sentido e a finalidade de tornar possível e facilitar a soma das aquisições individuais da salvação por parte da multidão de indivíduos. Pois para conseguir essa finalidade ela poderia ser considerada útil e importante, mas não incondicionalmente necessária, pois tal finalidade atinge-se também, com freqüência, sem a intervenção tangível da Igreja, por mais que essa salvação esteja orientada para a Igreja pelo mandamento de Deus e pela vontade obrigatória de receber o sacramento, objeto de preceito. Uma coisa, porém, não é concretamente possível sem a Igreja: que a Graça de Deus em Cristo esteja presente no mundo como evento que perdura em tangibilidade história, em corporalidade encarnada. Quem é agraciado pelo Batismo, enquanto se incorpora nesta Igreja, como a corporalidade histórica e societária da Graça de Cristo no mundo, recebe necessariamente com esta Graça da Igreja também parte, missão e capacitação para que participe nesta função da Igreja de ser tangibilidade histórica da Graça de Deus no mundo. Ele recebe a tarefa de verdadeiramente assumi-la por decisão pessoal e exerce-la em toda a sua vida. Pelo Batismo é destinado a ser portador da palavra, a testemunha da verdade, o representante da Graça de Cristo no mundo.
Mas então como ainda é possível estabelecer uma distinção entre o Batismo e a Confirmação? Antes de tudo a tradição da Igreja dá testemunho – apesar da justificada distinção entre Batismo e Confirmação, sancionada pelo Concílio de Trento (cf. DEZ 1601 e 1628) – de que estes dois sacramentos estão estreitamente unidos como a única iniciação cristã. Neles a Igreja expressa eficazmente a Cristo também historicamente e não apenas na profundidade da consciência. E isso de maneira definitiva, de tal forma que estes dois sacramento, em virtude da natureza desta primeira e definitiva fundação da existência humana e cristã, também não se pode repetir. Ambos os sacramentos são parte, portanto, da única iniciação cristã. Distinguem-se, de certa forma, assim como podem distinguir um aspecto mais negativo de um mais positivo no seio de um evento que em última análise é único – ainda que extenso no tempo.
No Batismo, o homem morre na morte de Cristo inclusive na tangibilidade sacramental, tempora-espacial e social. É inserido na Igreja como membro por invocação do nome do Deus trino: do Pai que chama, do Filho que é a palavra do Pai dirigida ao homem e do Espírito Santo em quem esta expressão do Pai no Filho chega ao homem de forma verdadeiramente santificante e redentora. A Confirmação é como que o aspecto positivo deste mesmo evento e frisa ulteriormente a função social do batizado, enquanto este se equipa para a comunicação do Espírito Santo. A Confirmação é o sacramento do testemunho da fé, da plenitude carismática, da missão no mundo confiada a quem recebeu o selo do Espírito, a fim de que o mundo se sujeite à soberania de Deus; é o sacramento que confirma na fé contra os poderes e forças deste mundo, contra os poderes da mentira e da incredulidade, da soberba demoníaca que pretende autoredimir-se.
A Graça da Confirmação é, portanto, justamente a Graça da Igreja para a missão ao mundo e para anunciar a sua transfiguração. Que funções esta Graça atribui preferentemente a cada indivíduo como sua tarefa particular, isto é disposto por Deus através de sua vocação e da distribuição dos carismas do Espírito, que nada mais são do que desdobramento e orientações privilegiados do único e mesmo Espírito que todos recebem neste sacramento.”
(RAHNER, Karl. Curso Fundamental da Fé. SP: Paulinas, 1989. pp. 480-482)
