Livro: É possível mudar. Em defesa de uma nova forma de relacionamento na Igreja.
HÄRING, Bernhard. É possível mudar. Em defesa de uma nova forma de relacionamento na Igreja. SP: Santuário, 1994
Resenha do livro "É possível mudar", de Häring: a humilde declaração de um importante teólogo e engajado cura de almas em favor de uma Igreja mais humana. Pensamento sem censura, que discute sadiamente o relacionamento intereclesial.
A interpretação de Bernhard Häring para as “tentações de Jesus” apresentam à Igreja um espelho para aquelas tentações que sempre a estão ameaçando. Exemplos concretos deixam claro onde progressivamente ela se afasta do espírito de Jesus e corre o perigo de falhar na sua missão.
Bernhard Häring apresenta a visão de uma Igreja fraterna, que pode reconquistar a confiança perdida à media que, como Jesus, se colocar radicalmente a serviço da humanidade. ele mostra que, onde estão as grandes tentações, ali também estão as grandes oportunidades de renovação. Esta é uma defesa apaixonada, construtiva e cheia de esperança.
Transcrevemos a seguir, um trecho do livro em que Häring destaca a misericórdia como a característica principal da vida cristã:
“Esse é ponto mais alto do Sermão da Montanha e do Campo (Lc 6,36) onde as palavras “sejam cheios de compaixão, sejam misericordiosos” traduzem muito bem o pedido de Mateus (5,48): “sejam perfeitos como Pai celeste é perfeito”. Ambas as expressões, que contêm o mesmo anúncio de graça e a mesma missão, estão em correlação com o amor reconciliante de Deus Pai, que para nós se tornou visível e palpável no Filho do Homem, no Messias Servo de Deus.
Uma Igreja que raciocina não a partir de uma superestrutura terrena de comando ou de controle, mas vive e respira somente a partir do amor de Deus que se doa, é uma Igreja misericordiosa. Como Jesus, ela procura os leprosos, os afastados, os marginalizados. Penso que, no momento atual, a Igreja católica precisa principalmente aprender de novo com a Igreja Ortodoxa Oriental, tão fortemente marcada pela Eucaristia, como ocupar-se dos divorciados, que novamente se casaram, de uma maneira mais sanante e menos julgadora.
Os homens de Igreja, que tão facilmente exigem juramento de fidelidade diante do Magistério do Vaticano, não sentem nenhum escrúpulo quando lêem no Sermão da Montanha: “Eu, porém, lhes digo: Não jurem de maneira alguma... Basta dizer sim, quando for sim, e não, quando for não. O que se acrescenta a isso vem do Maligno” (Mt 5,34-37). Pelo contrário, toda a sua atenção fica nos versículos anteriores que se referem à honrosa maneira patriarcal como os homens, pelos menores motivos, repudiavam suas mulheres, e preferem a tradução que mais favorece seu rigorismo. Estivessem eles totalmente imbuídos do mandamento centra do Sermão da Montanha e do mandato central da Eucaristia, estariam mais inclinados a escolher a tradução desde sempre acolhida nas Igrejas Orientais e que hoje é seguida sem hesitação pela maioria dos exegetas católicos: “Quem repudiar sua mulher, a não ser por fornicação, torna-a adúltera” (Mt 5,32).
De minha parte estou convencido que uma verdadeira piedade eucarística, regularmente alimentada pela vivência de uma comunidade eucarística, encontra o caminho para uma pastoral mais humana com mais facilidade do que o pensamento de homens da Igreja, cuja ortodoxia olha apenas para as ordens do chefe. A misericórdia, também na práxis pastoral, nasce da compreensão da Igreja, segundo o modelo de Jesus, como sinal do amor sanante de Deus: “não vim para julgar, mas para salvar” (Jô 12,47). Pela celebração da eucaristia de uma maneira próxima da vida, sabemos que todos vivemos pelo amor misericordioso que perdoa e cura. E, então, também percebemos a missão de, a partir dessa experiência, procedermos do mesmo modo diante dos outros.”
(HÄRING, Bernhard. É possível mudar. Em defesa de uma nova forma de relacionamento na Igreja. SP: Santuário, 1994, pp. 108-110)
