MÊS DA BÍBLIA: O êxodo: início de uma longa história de libertação
Há dois movimentos que correm paralelos na história do povo eleito. De um lado, existe a consciência progressiva da opressão: não é possível libertar quem não tem consciência da opressão em que vive. Não saberia o que é liberdade, nem poderia recebê-la. De outro lado, paralelo ao progresso da consciência da opressão, surge a libertação progressiva: uma conscientizado a respeito da sua situação, o povo desperta e empreenda a ação libertadora como tarefa sua inalinável. A Bíblia faz saber que tanto um como outro tem a ver com Deus.
Nesse sentido, o Êxodo foi apenas um inicio e não um ponto de chegada. A tomada de consciência começou onde a opressão era sentida: opressão político-cultura. Mas depois do êxodo, a ação conscientizadora de Deus, através de líderes por ele escolhidos, continuou até atingir a raiz de toda a opressão que é o egoísmo: o fechamento do homem sobre si mesmo, que leva a criar estruturas de opressão em todos os níveis da vida. Por outro lado, a tarefa de libertação não parou com a saída do Egito, mas apenas começou e procurou, em seguida, atingir a erradicação do germe da opressão pelo amor libertador que Cristo pregou. A verdadeira liberdade que Deus sonha para os homens é aquela que nasce do amor a Deus e ao próximo. O êxodo, iniciado por Moisés, chega ao seu termo com Jesus Cristo, ressuscitado da morte para a vida verdadeira. Resume-se na frase do Evangelho: perder a vida por amor para poder possuí-la plenamente (Mc 8,35).
Deus não precisa da nossa liberdade, nem está interessado em dar a liberdade, como se fosse um presente. Deus é livre. É o contato com Ele que liberta o homem e que deposita no coração do homem o germe da verdadeira liberdade.
Esse germe foi depositado no coração do povo hebreu por ocasião do Êxodo e começou a crescer. O povo vivera muito tempo no Egito, 430 anos (Ex 12,40), sem ter consciência da opressão que estava sofrendo. Quando esta chegou ao limita da tolerabilidade, aí o povo tomou consciência e surgiu nele o desejo da liberdade que se expressou na oração (Ex 1,1-2,25). Deus respondeu à prece do povo, chamando Moisés paa realizar a libertação (Ex 3,7-10; 6,2-8).
Apesar da toda a exaltação da ação de Deus que se nota na descrição do êxodo, feita à luz de uma fé ulterior mais esclarecida, transparecem ainda no texto as artimanhas usadas por Moisés, para conseguir o seu objetivo. O pretexto que devia encobrir a fuga era fazer uma romaria, a três dias de viagem, no deserto (Ex 5,1-3; 7,16; 9,1; 8,25-27). Para evitar combates perigosos com o exército do faraó, Moisés dirigiu o povo pela estrada do sul em direção ao Mar Vermelho (Ex 13,17-18). Conseguiu atravessar o mar, devido a um vento forte e seco que faz a água recuar (Ex 14,21) e que fez surgir uma tempestade de areia no deserto, a ponto de impedir a visibilidade para os egípcios (Ex 14,19-20). Mas tudo isso, que revela o esforço e o cálculo humano, não era o mais importante.
Importante mesmo, para eles e para nós, foi a fé nova que nasceu no povo, a partir dessa experiência vivida, fé em Deus que caminhava com eles e fé na palavra de Moisés, como intéprete de Deus (Ex 14,31). A descrição do êxodo visa provocar essa fé nos leitores, suscitar neles o mesmo esforço de libertação e levá-los a celebrar entre entre si essa presença libertadora de Deus no meio deles: “Cantai ao Senhor porque Ele fez brilhar a sua glória” (Ex 15,21). Dessa maneira, a descrição do êxodo esclarece um caminho que começou lá no Egito e que ainda não terminou. É o caminho de todos nós umo à terra prometida, inde reina a plena liberdade, nascida de Deus.
Com essa visão da vida, adquirimos óculos novos para obervar e perceber o verdadeiro alcance dos fatos qe hoje acontecem. É no esforço vivido e calcurado de libertação que Deus se deixou ecnontrar e se deixa encontrar ainda pelos homens, para poder levá-los para Cristo. Hoje, esse esforço tem os mais variados aspectos: vencer as limitações pessoais pelo estudo; vencer o vício que deprime; contribuir para eliminar o analfabetismo; ensinar como praticar a higiene e plantar a horta; povos que se esforçcam para ser livres do colonialismo e do imperialismo; tentar vencer as dintâncias que são uma força de opressão; operários que se unem em defesa dos seus direitos que não são respeitados; os povos que juntos elaboram a declaração dos direitos da pessoa humana; vencer sobretudo toda as formas de egoísmo; denunciar as injustiças e torturas que se praticam contra as pessoas humanas; promover o desenvolvimento do povo. Milhares são as formas desse esforço gigantesco de libertação.
Através de tudo isso, a humanidade faz o seu penoso caminho, o seu penoso êxodo, até conquistar a sua plena liberdade. Cada um tem o seu êxodo: o simples crescimento humano da criança para adulto como forma de vencer as limitações e de se afirmar na vida; cada grupo, cada povo, tem o seu êxodo. A humanidade toda está envolvida no êxodo, como diz o Concílio, está radicalmente comprometida com o “Mistério Pascal de Cristo”. Em tudo isso, existe a brecha por onde Deus entra, se faz presente e atua em favor dos homens, e onde pode ser encontrado. Quem olha de fora, nada vê nem percebe, mas a visão de fé pode levar a descobrir aí, pela experiência vivida e sofrida, essa dimensão mais profunda de Deus.
Deve-se concluir, então , que todas as ações, feitas em nome da liberdade, tenham a assinatura de Deus? Essa conclusão vai além das premissas. Há movimentos, ditos de libertação, que em vez de levar à liberdade, levam a uma opressão maior enquanto promovem o ódio e o fechamento egoístico dentro do grupo.
(MESTERS, Carlos. Deus, onde estás? Editora Vega, BH: 1971, páginas 32-34.)
