Data: 01/09/2011
MÊS DA BÍBLIA: Discípulos de Emaús: a Palavra, os sinais dos tempos, o pão partilhado

A narrativa dos Discípulos de Emaús (Lc 24,13-35) nos conta uma das manifestações de Jesus ressucitado, através de um jeito catequético que nos possibilita uma tentativa de atualização do Êxodo.

Os discípulos retornavam de Jerusalém “naquele mesmo dia” em que Pedro havia ido ao túmulo e, sem encontrar o corpo de Jesus, também voltara para casa. A narrativa começa destacando o sentimento de tristeza e derrota dos discípulos.

Esta situação assemelha-se à experiência do Povo Hebreu (Êxodo 15,22-27) em que, após a passagem pelo Mar Vermelho (símbolo da libertação da escravidão do Egito), ao caminharem durante três dias pelo deserto, estavam sem água, pois a água que havia era “amarga”: “Que havemos de beber?”, murmuravam contra Moisés.

Os Discípulos de Emaús, no terceiro dia da ressurreição de Jesus, enquanto caminhavam também murmuravam sua decepção: “Nós esperávamos que fosse ele quem havia de restaurar Israel...”

Jesus, que já estava caminhando com eles, inicia uma conversação perguntando “por que estais tristes?” E passa a lhes recordar as Escrituras: “começando por Moisés”, lembra-lhes a história na qual Deus já havia manifestado sua presença e seu jeito de caminhar com o seu Povo. No Novo Testamento, com a paixão, morte e ressurreição de Jesus, completa-se o Antigo Testamento: é a nova e permanente Páscoa.

O conhecimento que surgiu do reconhecimento da presença de Deus na história do povo desperta a inteligência da fé, na dialética que vai da leitura dos sinais dos tempos à escuta da Palavra.

A expressão “já é tarde”, por sua vez, pode representar a consciência dos discípulos da completude do tempo da Graça. Enquanto isso, “o dia declina” (a aproximação da noite), pode representar o medo que então dominava os discípulos. E dessa dupla consciência do entardecer da história e do temor da escuridão do futuro surgiu uma súplica humilde e esperançosa: “Fica conosco!”

Este reconhecimento da presença de Deus significou para eles a fé no Deus que, desde Moisés, caminhava com seu Povo, assim como caminhou com eles, mesmo nos momentos de tristeza e decepção. Talvez, não do modo como eles imaginavam que deveria ter sido: a Terra Prometida e a “restauração de Jerusalém” surpreende pela forma, método e significado. A presença de Deus na travessia é discreta e humilde. O Reino de Deus acontece através do pobre de Javé, o profeta rejeitado, morto e crucificado (embora, eles ainda teimavam em ver n´Ele o profeta “poderoso em obras e palavras”).

A presença do resssuscitado na caminhada dos dois discípulos também não se dá de modo triunfalista, mas humilde e simples: o ressuscitado é um “forasteiro” que se põe a caminhar com os discípulos e dialoga com eles, a partir de suas dúvidas, decepções e expectativas. E neste diálogo com Jesus, a inteligência dos discípulos é esclarecida: Sim, Jesus cumpre a promessa de Deus.

Por fim, enquanto que no deserto, a confirmação da presença de Deus se deu através da água, que se tornou potável para matar a sede; o desfecho dos Discípulos de Emaús se dá no pão que alimenta o corpo: “estando juntos sentados à mesa, ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e serviu-lho.”

Somente, então, a revelação se completa ao reconheceram Jesus no gesto fraterno da partilha do pão abençoado. A dimensão da compreensão, da “inteligência da fé”, que se esclarece pela análise dos sinais dos tempos e pela hermenêutica bíblica, é completada pelo ato de crer e celebrar a presença viva e atual de Deus. A partilha do pão, com o significado da presença de Jesus, é o ato que alimenta a fé dos discípulos e identifica a comunidade dos seguidores de Jesus, o Povo da nova e permanente “travessia”. A partilha do pão é a chave de compreensão da nova forma de presença de Jesus entre os Discípulos, nas primeiras comunidades cristãs, e que marcará definitivamente o cristianismo.

A Revista Dom Total, ao partilhar com seus leitores esta reflexão, no Mês da Bíblia, refaz a prece: “Fica conosco, Senhor”. Procuramos rezar a História da Salvação em que o Povo Eleito foi conduzido por Javé e em que Jesus cumpre a promessa de Deus. Procuramos ler os sinais dos tempos e compreender este momento histórico que também nos passa a sensação de que “já é tarde e o dia declina”. Tempo que requer de nossa fé a atitude dos Discípulos de Emaús e que nos faz suplicar, com humildade, mas também, com esperança: “Fica conosco, Senhor!”

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