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Nilton Bonder: um rabino fora de série
Nilton Bonder é rabino, ordenado pelo Jewish Theological Seminary de Nova York. Sua forma de ajudar as pessoas é resgatar os ensinamentos da tradição judaica e traduzi-los para uma linguagem acessível aos adeptos de qualquer religião. Ele mesmo diz: "Meu objetivo é popularizar a tradição judaica da mesma forma que os hippies fizeram nos anos 60 com as religiões orientais".
Bonder é casado pela segunda vez, tem dois filhos e é visto com frequência pegando onda na Barra da Tijuca ao lado de outros surfistas. Seus livros são best-sellers já publicados em vários países, sendo saudados por medalhões da nossa literatura, como Haroldo de Campos e Moacyr Scliar, como um raro banquete espiritual e intelectual.
Na entrevista ao jornalista Marco Lacerda, Bonder fala sobre cabala, inteligência espiritual e sobre seu encontro com o teólogo Leonardo Boff. Ele avalia também os desequilíbrios provocados pela competição entre os sexos e faz comentários críticos sobre homossexualismo, adultério e traição. Um momento delicado da entrevista: como Bonder enfrenta as críticas de sua comunidade por ser um judeu fora dos padrões?
Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa:
Marco Lacerda: Que motivações te levaram a tornar-se um rabino? Você vem de família religiosa?
Nilton Bonder: Minha família tem conexões com a tradição. A parte materna era mais ligada à religião, mas a prática dos meus pais era praticamente nenhuma. Eles eram profissionais liberais, pessoas extremamente liberais.
Acho que sou um pouco filho de uma época, como todos nós somos. Por um lado, eu represento o adolescente dos anos 70, que estava saindo de uma ditadura. Tenho lembranças claras do colégio. Os meninos que tiravam boas notas eram indicados para fazer vestibular de engenharia (exatas). Havia um pouco dessa divisão, essa coisa que foi empurrada.
Sou engenheiro mecânico de formação, mas com desejo muito grande de fazer incursões nas áreas humanas. Carrego essa marca meio brasileira de resgate, de saída de uma infância/adolescência na ditadura, querendo talvez sair de algum lugar mais censurado e olhar para um horizonte mais amplo.
Ao mesmo tempo, sou parte de uma geração que quis olhar um pouco para a dimensão da espiritualidade, para as tradições do oriente. Esses elementos da cultura e da época em que vivia me levaram a ser uma espécie de ponte entre o mundo exato (das coisas muito concretas) e o espiritual. Essa é um pouco a minha história.
Marco Lacerda: Você casou espanto há algum tempo quando apareceu como um rabino jovem e surfista. Foi isso mesmo?
Nilton Bonder: Qual o meu interesse maior quando busquei esse caminho? Achava que podia contribuir de alguma forma, não só em termos de contribuição intelectual, mas sendo também uma espécie de modelo para a minha geração.
Tentei aproximar essas tradições de sabedoria em um formato em que não tivesse que ficar prisioneiro ao estilo de vida antigo. Sempre me permiti ser uma pessoa do meu tempo no lugar onde vivia. Sou gaúcho de nascimento, mas morei no Rio de Janeiro desde os seis anos, muito próximo a praia.
Então eu fazia o que o jovem da minha época fazia: ia muito à praia, comecei a pegar onda. Era um detalhe do lugar onde eu vivia, mas sempre foi lido como uma forma de modernidade ou de uma coisa assim mais radical, que acompanhava essa figura que tinha um pé na tradição (no antigo) e um pé nesse lugar mais moderno.
Marco Lacerda: A peça “A Alma Imoral”, baseada no livro homônimo de sua autoria, faz um sucesso estrondoso, principalmente entre as mulheres, que até obrigam os maridos a assistir o espetáculo. Do que trata esse texto e por que você acha que ele se comunica tão bem com as mulheres? Qual é a mensagem contida no texto que elas querem passar pros homens?
Nilton Bonder: “A Alma Imoral” é um livro onde tento falar um pouco sobre essa ponte entre cumprir a obediência (as leis, a tradição) e o espaço que cada um de nós tem para pensar sobre as nossas transgressões.
Todo o ser humano, até uma criança, quando vai começar a experimentar seu crescimento (quando a gente vai ousando), chega sempre a um momento que tem que transpor o limite, a fronteira de um território.
Nesse livro, eu faço o jogo inverso. Normalmente a alma é apresentada com aquele aspecto puro e ingênuo do ser humano, enquanto o corpo é apresentado como o lado da tentação. Eu digo que é o contrário. A parte que deseja preservar, que tem uma visão mais conservadora, que busca ficar nas fronteiras do já conhecido é justamente o corpo.
E a alma é essa força dentro de nós que empurra-nos em direção a transcendência e, muitas vezes, à transgressão. Na verdade, é um texto quase subversivo, não no sentido negativo ou destrutivo da palavra, mas no desejo de ampliar fronteiras, de que as pessoas tenham coragem de viver uma vida mais ampla, mais inteira.
É o que digo no livro, a infidelidade em relação a uma moral já estabelecida, estruturas que a gente tem na nossa vida. Essa infidelidade, na verdade, é o contrário, é uma fidelidade, é um cuidado para conosco, que muitas vezes exige movimentos ousados e de transgressão. O texto (acho) instiga as pessoas, provoca. É muito forte nesse sentido.
Marco Lacerda: Ainda no livro “A Alma Imoral” você defende a idéia de que existe um lado positivo na traição e que ela é inevitável e bem-vinda. Como uma atitude que a sociedade condena tanto pode ser considerada positiva?
Nilton Bonder: Para entender isso, é preciso entender o que é traição. Obviamente, o sentido que temos no dicionário (de uma pessoa que não é leal com a outra) é carregado com um peso muito negativo.
O que chamo de traição é romper com o padrão, mudar uma atitude em relação a si mesmo, e não necessariamente trair o outro. Não é uma coisa no sentido de lesar e fazer mal, mas a traição, mesmo quando aparece em situações conjugais, é importante. Normalmente ela é vista por aquele que é traído como um movimento extremamente negativo, mas nos faz perceber que muitas vezes existem formas de casamento, formas de contratos entre pessoas, que não cumprem verdadeiramente sua função, de oferecer qualidade.
Alguns compromissos iniciais que são mantidos no casamento podem ser extremamente cruéis e perversos. Nesse caso, trair esse compromisso é muitas vezes uma fidelidade maior, tanto para a própria pessoa quanto para os objetivos iniciais daquele contrato.
Essa traição resgata uma qualidade, permite às pessoas saírem de compromissos que aparentemente devem ser mantidos, mas que muitas vezes sua manutenção é mais prejudicial do que a coragem de romper com ele.
Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa Frente Verso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.
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Comentários
Tive a oportunidade de assistir a peça "Alma Imoral". Texto e espetáculo maravilhoso. Pena que em Belo Horizonte são poucoas as oportunidades que temos de assistir peças desse nível e inteligência.