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Rita Lobo: das passarelas para o fogão
O belo par de olhos azuis foi um presente da natureza para Rita Lobo. Mas a habilidade na cozinha é resultado de muito trabalho e dedicação. Rita tem 35 anos e, como a maioria das mulheres de sua geração, não trouxe da infância os segredos de forno e fogão que credenciavam as mocinhas a se tornarem boas donas de casa.
Aos 15 anos, descoberta pelo fotógrafo Bob Wolfenson, Rita iniciou uma carreira de modelo que durou três anos. Durante uma viagem a Nova York decidiu estudar para ser chef. Em seis meses engordou os dez quilos mais instrutivos de sua vida. Logo ela recuperou a silhueta, mas nunca mais voltaria a ser modelo no sentido fashion da palavra.
Hoje Rita tem quatro livros publicados e é a autora do site Panelinha, um fenômeno de bom gosto na Internet com 20 mil visitantes por dia, entre eles batalhões de mulheres em busca das famosas receitas anti-TPM criadas por Rita. De um modo geral, maioria do público do Panelinha são mulheres à cata de dicas para entrar na cozinha e, meia hora depois, sair com um jantar nas mãos. Rita não ensina gastronomia. Prefere chamar o que faz de culinária, por ter mais a ver com a vida real, a vida cotidiana que ela considera sagrada. Rita Lobo é a convidada da semana no Dom Total.
Confira abaixo trechos da entrevista, realizada pelo jornalista Marco Lacerda, e no áudio acima a entrevista completa:
Marco Lacerda: Você foi modelo durante algum tempo. Uma carreira curta, mas marcante. O que te fez trocar as passarelas pelo fogão?
Rita Lobo: A fome. Quando fiz 18 anos, comecei a pensar sobre o que iria ser quando crescer e a vontade foi justamente fazer um curso de formação de chefs. Tinha viajado bastante no período que trabalhei como modelo, para todos os cantos: Japão, Europa, Estados Unidos. E o contato com várias culturas gastronômicas, de certa maneira, me abriu o apetite. Então, decidi fazer um curso de formação de chefs e a partir daí não desencostei mais a barriga do fogão.
Marco Lacerda: Você começou a se interessar pela culinária em Tóquio, no Japão. Como foi esse despertar do seu interesse?
Rita Lobo: Imagine, você tem quinze anos de idade e vai para Tóquio, com todos aqueles peixes frescos. Os hábitos alimentares são totalmente diferentes. Lembro que certa vez estava fotografando em Okinawa, uma ilhazinha no sul do Japão. Cheguei lá à tarde e só começava a trabalhar no dia seguinte.
No café da manhã, ainda brinquei com a produtora: “nossa, eu sonhei que não ia ter café com leite”. E ela falou: “mas a gente não tem leite aqui, nem café. O nosso café da manhã será peixe com chá”. Isso despertou meu interesse por outras culturas gastronômicas.
Marco Lacerda: Nesses 10 anos de vida do site panelinha, criado por você, muitas mulheres aprenderam a cozinhar. E você, como aprendeu?
Rita Lobo: Eu fui para Nova Iorque, me formei na Peter Kump’s School of Cooking Arts. É uma escola que tem no currículo a formação por técnicas francesas, mas por ser nos Estados Unidos, tem essa coisa boa de pegar outras culturas e traduzir para um jeitão americano de fazer, então é tudo mais fácil.
A partir disso, acabei trabalhando em vários restaurantes. Em 1996, comecei a escrever sobre comida para a revista do grupo Folha de São Paulo. E fiquei alguns anos lá, até que resolvi fazer o Panelinha, que é justamente um site de receitas para quem não sabe cozinhar, para quem não tem experiência.
Marco Lacerda: Ainda bem garota, você se tornou modelo e viajou muito pelo mundo. Como foi essa experiência?
Rita Lobo: Foi muito, muito rica. Dificilmente você tem a oportunidade de ir para tantos lugares em uma idade tão jovem (a não ser que seu pai seja diplomata, o que não é o caso). Naturalmente do ponto de vista do estômago foi ainda mais rica, porque me despertou para esse mundo.
É interessante de pensar. Hoje existe esse modismo, a gastronomia tem uma aceitação. Quer dizer, uma pessoa chegar e falar “papai, mamãe, quero ser chefe” não é nada muito estranho.
Quando eu resolvi fazer um curso de formação de chefe, os meus pais diziam: “não dá para entender. Primeiro você resolver ser modelo, daí quando você está muito bem na carreira decide parar. E quer ser chefe? Que história é essa?”. Mas foi uma experiência muito boa, além das capitais mundiais, você acaba visitando muitos outros lugares. Valeu!
Marco Lacerda: Em sua opinião, o que é comida boa?
Rita Lobo: Em primeiro lugar, comida de verdade. Tem um autor americano que diz o seguinte: não coma nada que seus avôs não entendessem como comida. Temos hoje essas invenções, denominações - a comida vira light, diet. Nada disso é comida boa. Comida boa é aquela que você faz em casa, que vem da natureza, quanto menos processos melhor.
Quero dizer o seguinte: você pega o milho em lata. Ele já foi cozido, debulhado, fervido, temperado. Ai você retira o milho da lata, ferve novamente, mistura com leite, bate e vira um creme. São muitos processos. Bem, na vida moderna, chega um momento que a gente tem mesmo que recorrer aos enlatados, a comida semi-pronta. Mas isso não é comida boa.
Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa Frente Verso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.
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