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Edney Silvestre: testemunha da história
Como correspondente da Rede Globo em Nova York, durante dez anos, Edney Silvestre estava entre os primeiros jornalistas a chegar ao World Trade Center, naquele 11 de setembro de 2001, minutos depois do ataque terrorista que mudaria o mundo. Um episódio, aliás, que hoje ele confessa que preferia nunca ter presenciado "para que em minhas retinas e em meus ouvidos não ficassem gravadas as imagens e os gritos de horror de uma das maiores barbáries de que se tem notícia na história”, diz.
Em entrevista ao Dom Total, Edney recorda o que veio bem antes desse episódio. Era filho de um dono de armazém e de uma operária de fábrica, em Valença, no interior do Rio de Janeiro. A custo de muita disciplina e sacrifício, ainda adolescente mudou-se para a capital para estudar. Como não tinha dinheiro para frequentar a noite carioca, o cinema era sua única diversão.
Foi assim que Edney aprendeu a falar e escrever em inglês e deu os primeiros passos que o conduziram a uma carreira brilhante como jornalista e mais tarde como escritor premiado. Em 2010, com o livro “Se eu fechar os olhos agora” foi o vencedor do Prêmio Jabuti de Melhor Romance e do Prêmio São Paulo de Literatura.
Como jornalista, Edney Silvestre construiu uma sólida carreira na Rede Globo. Criou os programas “Brasileiros” e “Milênio” e é o apresentador do “Espaço Aberto Literatura”, onde já entrevistou alguns dos personagens mais importantes das Letras mundiais.
Confira abaixo trechos da entrevista, realizada pelo jornalista Marco Lacerda, e no áudio acima a entrevista completa:
Marco Lacerda: De que forma Valença influenciou sua vida pessoal e profissional?
Edney Silvestre: Completamente! Tem aquele ditado que diz: você sai de algum lugar, mas o lugar não sair de você. Não quero e nem pretendo. Vivi em Valença até os 15 anos, quando fui para o Rio de Janeiro estudar. Não tinha como continuar em Valença, mas sempre me senti ligado a ela, aos valores que aprendi ali.
Quando vivi em Nova York - passei 12 anos lá - tinha certeza que me estava me adaptando bem por causa de Valença. Nova York é uma cidade de estrangeiros, todo mundo acha que é americana, mas não é. Ela fica nos Estados Unidos, mas não é uma cidade americana. É formada por chineses, americanos (também, claro), japoneses, irlandeses, polacos, russos, brasileiros, mexicanos, salvadorenhos.
E Valença, nos anos 1930 e 1940, recebia refugiados da Europa Central. E eles foram aumentando conforme as décadas passavam. Quando o nazismo ficou muito forte, os judeus fugiam da Europa Central e, entre outros lugares, se refugiaram em Valença. Alemães também, não nazistas.
No romance “Seu eu fechar os olhos agora”, conto a vinda dos italianos. Valença tem a maior população de descendência italiana do Brasil, em proporção, evidentemente. Eu cresci comendo angu e polenta, achando que era a mesma coisa. Só que um era da nossa origem mineira, outro da italiana.
Marco Lacerda: Que caminhos te levaram ao jornalismo?
Edney Silvestre: Foram as traduções. Por causa delas eu me sustentava no Rio de Janeiro na época de estudante. Fazia traduções tanto de histórias em quadrinhos quando de literatura e ensaios. (...) E escrevia também roteiros de curtas metragens, sempre gostei de cinema.
Numa dessas situações, ganhei um prêmio com um curta metragem. Por alguma coincidência inexplicável, a pessoa que ficou sabendo do prêmio leu também alguma tradução que eu havia feito. Essa pessoa era da então Revista Manchete, que estava criando um novo departamento e precisava de alguém que vertesse do português para o inglês.
Eu tinha a sorte de saber, ai fui contratado. Gostaram do meu texto e alguém sugeriu, não me lembro quem, que eu fizesse uma reportagem tal, uma entrevista tal, ai comecei.
Marco Lacerda: Você foi o primeiro jornalista brasileiro a chegar ao local do atentado às torres gêmeas em Nova York, no dia 11 de setembro de 2001. Passado tanto tempo, quais são as impressões que você ainda guarda do que viu e ouviu?
Edney Silvestre: O som das ambulâncias, o som dos carros de bombeiros, os gritos, a fumaça do prédio desmoronado, aquelas paredes brancas que impediam a gente de ver direito. Havia um horror no rosto das pessoas, na voz das pessoas, que eu nunca esquecerei.
Outra imagem que ficou marcada é de um senhor, entre outras dezenas de pessoas, que pulou do prédio porque fazia tanto calor... A temperatura subiu acima de mil graus, as pessoas não conseguiam pisar. Então elas chegavam às janelas, não tinham outra saída, e elas saltavam.
Elas não se suicidavam, não havia a intenção de morrer. Mas era impossível ficar lá dentro. Essa foi uma situação que nunca imaginei. Nunca imaginei você não optar pela morte, mas não poder continuar vivendo naquela situação de fogo e calor que você está. Nunca tinha me passado pela cabeça, nunca, nunca. E isso ocorreu há 10 anos.
Marco Lacerda: Também como correspondente da Rede Globo você fez uma série de reportagens no Iraque antes da derrubada de Saddam Hussein. Era possível saber naquela época as mentiras fabricadas para justificar a invasão do Iraque?
Edney Silvestre: Toda a imprensa americana, incluindo o New York Times, divulgava informações passadas por ditos especialistas. Alguns desses especialistas eram, descobrir-se-ia depois, manipulados por órgãos ligados ao governo americano.
Mas estando no Iraque (recentemente até discuti com uma pessoa que quis fazer comparação com a Líbia) você via o seguinte: era um horror a vida de boa parte dos iraquianos com Saddam. Como era um horror a vida de parte da população Líbia sob domínio do Kadafhi.
Agora pergunto eu: será melhor hoje? Será melhor no futuro? Eu só penso que a gente deva concluir, ou eu concluo: pobre povo iraquiano, pobre povo líbio! Até onde se sabe, essas ocupações não melhoraram a vida de ninguém.
Não sei o que vai acontecer com a Líbia, há sempre este aspecto do petróleo por trás, “precisamos do petróleo”. Tanto Saddam quanto Kadafhi eram aliados do ocidente. Isso não foi há tanto tempo assim, que o presidente Lula falou dele como nosso amigo, assim como Saddam foi amigo do ocidente. Nós podemos observar e criticar, mas a decisão dos poderosos independe de nós.
Marco Lacerda: Você foi autor também da reportagem que revelou o esconderijo na Flórida de Mohamed Atta e outros terroristas responsáveis pelos atentados de 11 de setembro.
Edney Silvestre: Você sabe o que é pior? Alguns órgãos de inteligência tinham algumas informações, outros órgãos tinham outras. O FBI tinha algumas, a CIA tinha outras. E como havia a rivalidade entre as agências, elas não se comunicaram, uma não revelou nada para a outra, então tudo o que aconteceu poderia ter sido evitado. O embarque dos terroristas, eles foram treinados, Mohhamed Ata treinou como piloto, tudo isso poderia ter sido evitado. Mas elas não se comunicavam e o resultado: mais de três mil mortos.
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