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Carlos Leão: lições de beleza e estética
Formado em Medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo, Carlos Eduardo Leão tornou-se rapidamente um dos grandes cirurgiões plásticos brasileiros e uma das maiores autoridades do país em calvície e queimaduras.
Dono de uma importante produção literária científica com repercussão internacional, ele é o chefe do Serviço de Cirurgia Plástica e Queimados da Fundação Hospitalar de Minas. Capixaba de Vitória, Carlos Eduardo vive em Belo Horizonte onde é casado e pai de três filhas.
Na entrevista que concede ao jornalista Marco Lacerda, Carlos Eduardo revela que a calvície é o maior trauma psicológico do homem em todo o mundo, desbancado inclusive o velho tabu do pênis pequeno.
Ele fala também sobre a obsessão pela beleza física nos dias de hoje e sobre o prestígio mundial da cirurgia plástica brasileira. Entre outros assuntos, ele aponta as mulheres que considera as mais belas do país, fala sobre a beleza que existe na velhice e sobre a influência da arte na formação de um cirurgião plástico.
Confira abaixo trechos da entrevista e no áudio acima a entrevista completa.
Marco Lacerda: Como cirurgião plástico, já operou ricos e famosos em todo o Brasil. Qual é a sua noção de beleza?
Carlos Leão: Acho que beleza é algo cultural. Aquilo que nos parece belo pode não o parecer para outras culturas. Mas diria o seguinte: é comum a várias culturas a ideia de beleza como harmonia e simplicidade no traço físico.
Embora eu tenha certeza que a beleza possa ser realçada por outros fatores. O magnetismo pessoal, por exemplo, é algo que realça muito a beleza. A pessoa que é feliz, alegre, extrovertida - que interage bem - tem a sua beleza realçada.
É aquela coisa: “fulano tem uma beleza morta, insípida”. Ou seja, não tem esse complemento interior. Da mesma forma, esses complementos atenuam a fealdade. Pessoas muito feias que são extremamente simpáticas, agradáveis, alegres, que convivem bem, têm a fealdade amenizada.
Marco Lacerda: Qual é a diferença entre o bonitinho que está na moda e o belo que é eterno?
Carlos Leão: A resposta está até na pergunta. A moda é uma coisa fugaz, efêmera, passageira. A beleza é o clássico. E o clássico é aquilo que resiste ao tempo. Se você imaginar o traço da beleza física, ele é muito bem estipulado. Leonardo da Vinci, em 1500, determinou as medidas da beleza física através do Homem Vitruviano. Nós, cirurgiões plásticos, nos baseamos nisso para termos os nossos parâmetros. Acho que é isso, a beleza é uma coisa clássica, que resiste ao tempo.
Marco Lacerda: Homens e mulheres te procuram para cirurgias plásticas. Qual a diferença entre as motivações femininas e masculinas?
Carlos Leão: As motivações são as mesmas. Décadas atrás, essas motivações estavam meio ocultadas devido ao machismo. O homem tinha motivação para procurar um cirurgião plástico, mas ficava receoso de estar numa sala de espera de um consultório de cirurgia plástica.
O tempo foi passando, as coisas foram mudando. Hoje o homem não tem o menor problema de estar numa sala de espera de um cirurgião plástico. No meu consultório (além de cirurgião plástico, sou também cirurgião de calvície), tenho 50% de clientes homens e 50% mulheres. E os homens não nos procuram apenas para corrigir a calvície, eles ficam tão felizes com os resultados que voltam para fazer uma lipoaspiração, uma cirurgia de rosto.
As motivações são as mesmas. O ser humano quer estar bem consigo mesmo. Existe uma frase que diz o seguinte: quem procura a cirurgia plástica não quer se destacar na multidão, quer se juntar a ela. É uma coisa muito profunda, se você analisar o conteúdo dessa frase você vai entender toda a mística da cirurgia plástica.
Marco Lacerda: A cirurgia plástica é capaz de transformar em belo o que por natureza é feio?
Carlos Leão: Não acredito nisso. O cirurgião plástico não consegue transformar o feio em bonito. A cirurgia plástica é uma especialidade milenar, comprometida hierarquicamente com a função e a forma. E é nessa ordem, função, forma.
O feio, por natureza, quando chega a minha clínica... Vamos falar das mulheres: uma mulher é naturalmente feia e chega a minha clinica com uma fotografia de uma mulher muito bonita, dizendo que gostaria de se parecer com ela. Entendo que essa paciente está necessitando muito mais de um psicólogo ou de um psiquiatra do que de um cirurgião plástico. É completamente fora de propósito. Nós não somos deuses, somos médicos.
Agora, aquela mulher que tem traços que denotam uma fealdade e chegam para mim: “estou aqui, sei que sou feia, mas não gostaria de ter essas rugas”. Essa é uma pessoa extremamente preparada para a cirurgia. Nós vamos, então, tirar aqueles estigmas do tempo e ela vai ficar feliz consigo mesmo. Embora particularmente ache que o tempo é benéfico com o feio.
Vamos dar um exemplo que é muito clássico: Caetano Veloso. Na juventude não era um homem bonito, pelo contrário, era feio. Muito magro, com fisionomia fora dos padrões. Hoje ele está um sessentão elegante, até bonito. O tempo favorece o feio, mas não favorece o bonito.
Marco Lacerda: Como é o seu processo de trabalho no campo da cirurgia estética? Você faz o que o paciente pede ou existe uma negociação?
Carlos Leão: É muito importante explicarmos ao público que o cirurgião plástico bem formado tem que dizer não ao paciente, quando necessário. O que a gente vê hoje é uma grande quantidade de médicos lançados anualmente no mercado, não só da área de cirurgia plástica, de outras especialidades também, e eles não estão preparados para isso. Eles precisam operar, mas esse comprometimento necessita ser revigorado pelo médico hoje.
Acredito que temos a obrigação de dizer não aos nossos pacientes, com educação, elegância. “Doutor, gostaria de colocar uma prótese de mama de 400 ml”. E essa mulher tem um metro e meio de altura, quer dizer, é totalmente incongruente você colocar uma mama de 400 ml numa pessoa de um metro e meio. Você tem que ponderar com essa pessoa.
Se você me perguntar o que é cirurgia plástica em uma palavra: é proporção. E se fizer o que ela quer, vou deixar essa pessoa totalmente desproporcional. Cabe ao médico dizer: “não é possível colocar uma mama de 400 ml”. Ela responde: “ah, mas o doutor fulano coloca”. Então eu pondero: “não vou colocar por esta razão. Agora, se você tanto quer, volte no doutor fulano que ele coloca para você”.
Nós temos um nome a zelar e uma especialidade a zelar. A cirurgia plástica hoje, um pouco que combalida por esses profissionais que não conseguem dizer “não”, passa por um momento delicado. Temos que ter muito cuidado com esse tipo de coisa.
Entrevista realizada pelo jornalista Marco Lacerda no programa Frente Verso, que vai ao ar aos domingos, às 21h, pela Rádio Inconfidência FM (100,9), de Belo Horizonte.
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Comentários
Parabéns pela bela entrevista. Dr.Carlos Leão sempre muito esclarecedor nas suas entrevista e competente no que faz. Abraços e sucesso