Especiais Religião: um novo papel?

28/09/2008

A noite escura

Por Dom Pedro Casaldáliga
A vida dos pobres não é de dia, é de noite. Noite escura menos poética e menos mística do que a noite de João da Cruz
Em minhas viagens de solidariedade à América Central - região desconcertantemente sacramental, centro geopolítico de Deus e do diabo, povo crucificado, coletivo Servo Sofrente- e tropeçando, em cada esquina, com mutilados de guerra, viúvas e órfãos, clandestinos e refugiados, deslocados e proibidos de toda espécie, com freqüência me faziam esta pergunta:

- Monsenhor, onde está o Deus dos pobres? Com a fácil retórica eclesiástica a qual nós estamos acostumados, eu sempre respondi:

- Com os pobres!

Reconheço, no entanto, que mais do que uma resposta, ela é uma nova pergunta:

- Como se demonstra que Deus está com os pobres? Como se vê seu rosto e seu coração no meio dessas situações desumanas, sob a autoridade da injustiça e opressão, na desolação da miséria?

A vida dos pobres, aqui, na América Central muito concretamente- não é de dia, é de noite, "noite escura". Menos poética e menos mística do que a noite escura de João da Cruz. Esses pobres têm todos os motivos humanos para rebelar-se contra o Deus vida-amor-libertação. Sua esperança, essa sim, "contra toda esperança" justifica demasiadamente a surpresa que Péguy põe na boca de Deus a respeito da "menor" das três virtudes teologais: a incompreensível esperança dos humanos.

Em todo o Terceiro Mundo, mas bem especificamente na América Central, que é um Terceiro Mundo de crentes cristãos, oprimidos por outros cristãos, a tentação da blasfemia poderia ser decididamente normal, atendidas as situações em que o Povo centro-americano vive ou não vive e morre. Porque tudo ali converge para duvidar, para sublevar-se contra tudo e contra todos, para negar a própria vida. Desde a natureza -com seus vulcões e terremotos e maremotos- até o poder civil ou religioso, talvez.

Os sucessivos governos se vendem, lacaios dos impérios de sempre, e as instituições – mesmo as denominadas democráticas - não funcionam quando se trata dos direitos dos pobres. O desemprego atinge cerca de 60 por cento, pelo menos, da população centro-americana. É a região com maior índice de migração em todo o continente. Suas revoluções falharam e suas transformações estruturais foram castradas -na reforma agrária, na saúde, na educação na moradia, na participação popular efetiva- e alguns líderes revolucionários não foram dignos de seu passado heróico nem das esperanças que neles depositou seu povo.
Para a América Central, "pátio traseiro" do império capitalista, a queda da utopia socialista foi a entrada cega numa nova noite, enquanto para os poucos de sempre outra vez se faz realidade a nova rasteira utopia do Capital e o Mercado divinos, senhores definitivos de uma História humana (!) que já chegou a seu "não vai mais".

Quem poderia sustentar melhor a esperança desse povo cristão, eu disse- seria evidentemente a própria Igreja de Jesus. Mas em certos países centro-americanos essa igreja, em sua oficialidade, em suas estruturas ou na rotina de seus religiosos ou de seus fiéis mais abastados, com demasiada freqüência foi, ou é, uma nova pedra de tropeço para a esperança dos pobres. Com a qual, a noite da sociedade -sua economia de fome, sua política de marginalização e/ou repressão- se estendeu também sobre a Igreja. "No mundo - na sociedade humana-, poderia explicitar melhor Jesus, passareis muitos apertos; e na Igreja -que deveria ser minha comunidade fraterna- os passareis também". (Jesus acrescentaria , conseqüente sempre , "mas não temais, que eu venci o mundo e ‘essa’ Igreja"?).

Não estou acusando ninguém. Ou estou acusando a mim mesmo igualmente, em todo caso. Porque essa insensibilidade ou a conivência eclesiástica frente à miséria, a marginalização e a injustiça institucionalizada facilmente se tornam hábito em nós, que não somos pobres nem estamos muito perto, e diariamente dos pobres, nem temos a humilde coragem de mártires de enfrentar os ricos, os poderosos e os injustos deste mundo. A pergunta "Onde está o Deus dos pobres?", deveria ser desdobrada em outra: "Onde está a igreja do Deus dos pobres, se este é o Deus de Jesus?"

O que não desculpa a sociedade -considere-se cristã ou não- nem justifica a iniqüidade de governos, exércitos e oligarquias, mais ou menos genocidas em nossa América Central. Sei muito bem que essa "noite escura" não é de hoje. Desde Job a Guamán Poma ou desde Camus a César Vallejo, Deus vem sendo citado, com diferentes tons, a responder pela dor dos inocentes e pela desolada noite dos pobres.

Essa sim é que foi "a última tentação de Cristo": "Deus meu, Deus meu, por que nos abandonaste?" Ele a viveu e a morreu, como uma noite escura pessoal e como a noite escura de todos seus irmãos e irmãs pobres de todos os tempos. Mas Ele -e aí está a resposta definitiva para nossa fé cristã- também a "ressuscitou", superando-a com sua vitória sobre a injustiça e sobre a morte.

Sem que isto impeça que siga sendo "noite escura" a vida dos pobres. Sem que isto justifique sua esperança inerte nem a boa consciência dos que não somos pobres. Sem que isto nos dispense -nem os Pobres nem os seus aliados - da oração de agonia ou da rebeldia solidária ou da luta política ou da organização popular. Só vivendo a noite escura dos pobres pode-se viver o Dia de Deus. As estrelas só são vistas à noite.
Dom Pedro Casaldáliga é bispo emérito de São Félix do Araguaia, Brasil
Além da Escuridão: Star Trek (D)
Into Darkness: Star Trek
Ação
132 min.


Pablo Villaça
Crítica de Cinema
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