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17/12/2010 | domtotal.com

A fé faz bem ou mal ao mundo?


Por Marco Ventura

A revista inglesa The Economist dividiu os seus leitores com a pergunta do nosso tempo: a religião é uma "força para o bem"? Só 25% manifestou confiança na fé. Para 75%, a religião não contribui para o bem da humanidade.

Na Economist, estão bem conscientes de que, na religião, bem e mal estão indissoluvelmente entrelaçados. Mas querem levar os leitores a uma posição extrema. "Você acha que a fé é perigosa, inspirando um dogmatismo feroz do qual derivam conflitos, intolerância e barbárie? Ou a fé é positiva, estimulando as pessoas a viverem uma existência moral, virtuosa e rica?".

Ambas as coisas são verdadeiras, mas o que você pensa, no fim das contas? De que lado você está? Acredita mais no bem de fiéis crentes como Madre Teresa e Desmond Tutu, ou no mal de fiéis crentes como Bin Laden, Milosevic e Pinochet?

Mark Oppenheimer, editorialista do New York Times, se assumiu como padrinho dos pró-religião em nomes de três ideias. Primeiro: a religião educa para a ritualidade; segundo, a religião organiza a busca de um sentido, de uma ética, de um bem comum; terceiro, "religion is fun", a religião é divertida.

O escritor Sam Harris representou os antirreligião em nome do absurdo da fé. Quem crê no que é falso não pode fazer o bem daquilo que é verdadeiro: "A religião dá às pessoas más razões para fazer o bem, enquanto razões melhores estariam ao alcance da mão". Ele venceu, 75 a 25.

A sociedade secularizada cultiva bens híbridos, identidades confusas. Somos um pouco tudo junto. Incrédulos e crentes. Amigos e inimigos da fé. Por isso, somos tentados a encontrar clareza em uma escolha de campos, crentes aqui e não crentes lá, que apague a confusão e divida o mundo em branco e preto. É essa a provocação da Economist.

Acreditamos de verdade que basta pertencer ao campo dos crentes ou dos não crentes para sermos melhores? Acreditamos de verdade que a fé ou a não fé nos destinam a priori ao bem ou ao mal? Na realidade, não sabemos e não podemos saber disso. Sabemos apenas que nenhuma ortodoxia, nenhum credo religioso ou não religioso, justifica uma vida mau gasta.

As fés, loucuras do Ocidente

O último livro de Emanuele Severino, um dos maiores filósofos italianos contemporâneos, enfrenta os grandes antagonismos sobre os quais se funda a civilização, principalmente cristianismo e islã. Segundo ele, a sua oposição é aparente, pois têm raízes comuns.

Agora, sobre a terra, todo conhecimento tornou-se uma fé, e também todo conhecimento que guia a vontade e que guia, portanto, a vontade de paz. Uma fé: mais ou menos complexa, coerente, poderosa, consciente de si mesma, mas ainda assim uma fé.

A ciência moderna também é fé. Porém, o sentido daquilo que é chamado de "fé" se mostra apenas em relação com o sentido da "não fé", isto é, o sentido trazido à luz pela filosofia, na Grécia. A filosofia se dirige àquilo que se mostra de modo tão pleno e inevitável que não pode ser negado – que "não pode ser de outra forma", diz Aristóteles. "Deus" é o conteúdo central daquilo que se mostra no interior da episteme da verdade.

Tudo aquilo que não se mostra na episteme da verdade pode ser de outra forma, é controverso, é afirmado porque se quer que a isso compita aquilo que disso se afirma. Todo o resto é, exatamente, fé, mito. Enquanto saber hipotético, a ciência também é fé e mito. A própria vontade, enquanto tal, é fé: sobretudo, é a fé de obter aquilo que ela quer.

Agora, sobre a terra, toda a vontade – também a vontade de paz – é guiada pelas formas contrapostas da fé e do mito. A episteme da verdade entrou em declínio. Dado o modo em que deu o seu primeiro passo, o seu declínio é inevitável.

O grande problema a ser enfrentado é que querer a "paz" deixando-se guiar pela fé significa querer a "paz" colocando-se na dimensão da guerra. Toda fé quer que o mundo tenha um sentido em vez de outro e, portanto, toda fé encontra-se essencialmente em contraste com as outras formas de fé, que, pelo contrário, querem que o mundo tenha um sentido diferente.

Dialogando entre si, ou as fés renunciam a si mesmas em favor de uma fé prevaricante, ou não efetuam essa renúncia, mas então é inevitável que, no fim, entrem em confronto não só no plano do diálogo, mas também no do agir efetivo dos povos e que, no fim, prevaleça a fé mais poderosa.

Relativamente à "razão", cristianismo e islã são, aparentemente, muito divergentes. Mas, além das aparências e das suas intenções explícitas, elas são substancialmente solidárias (embora a cristandade tenha se afastado bem mais do que o islã real, histórico, da brutalidade do mundo arcaico).

Mas não é, talvez, totalmente explícita a sentença de Jesus, sobre aquilo que se deve a César e a Deus? Não é, talvez, essa sentença a prova mais evidente da autonomia que a Igreja reconhece a César, isto é, ao Estado, e, por último à "razão"?

Indubitavelmente, Jesus conduz a consciência religiosa a uma dimensão em que o islã se recusa a entrar. Para o islã, aquilo que é de Deus, ou seja, é a lei de Deus que tem o direito de configurar a estrutura e as leis do Estado e da "razão": deem a César o que é de Deus; tornem Deus patrão de César.

Mas perguntemo-nos mais uma vez: quando Jesus afirma para se dar a César aquilo que é de César e a Deus aquilo que é de Deus, ele pensa talvez que pode-se dar a César algo que é contra Deus? Certamente não! A Igreja Católica, de fato, rejeita essa "liberdade sem verdade" (isto é, sem verdade cristã) que caracteriza a democracia simplesmente processual do nosso tempo. Mas, então, Jesus e a Igreja pensam que César deve ser cristão, isto é, que as leis do Estado devem ser cristãs. E, já que não podem existir leis do Estado cuja violação não implique em uma sanção, vem que a violação das leis cristãs do Estado requer uma sanção terrena, ou seja, já aqui na terra, antes ainda do além.

A teoria, substancialmente comum a Avicena e a Tomás, de que uma filosofia que desmente a fé é uma falsa filosofia é a tradução, no plano mais amplo da razão, do modo pelo qual, para Jesus, César e Deus devem ser postos em relação. De fato, se a César não se deve dar aquilo que é contra Deus, então, quando César é contra Deus, ele é um César falso, um Estado que está em contraste com o verdadeiro Estado: é um César falso, assim como uma filosofia que esteja em contraste com a "Revelação" é uma falsa filosofia.

Também à filosofia deve-se dar aquilo que é da filosofia, e à fé aquilo que é da fé – para que à filosofia não se dê aquilo que é contra a fé (ou que é indiferente à fé). Também a filosofia, e em geral a razão, como o Estado, deve ser filosofia cristã ou islâmica; razão cristã ou islâmica.

Cristianismo e islã não são, portanto, simplesmente duas formas diferentes e contrastantes de civilizações (não dão lugar a um "choque de civilizações"), mas afundam as suas raízes no mesmo terreno, isto é, ambas pertencem ao grande passado do Ocidente, isto é, da mesma civilização.

Cristianismo e islã certamente estão em contraste, mas esse seu contraste é a superfície de um contraste radicalmente mais profundo, no qual cristianismo e islã estão do mesmo lado, encontram-se combatendo o inimigo mortal comum, isto é, a Europa moderna, embora, em um nível ainda mais profundo, uma "mão íntima" uma a Europa moderna ao cristianismo e ao islã.

A reportagem é de Marco Ventura, publicada no jornal Corriere della Sera. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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