Especiais Uma nova Cuba sem Fidel
21/11/2008
A espera cubana
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O melhor modo de ver como a espera integrou-se ao subconsciente cubano está na paciência infinita que o povo desenvolveu para resistir às filas que faz há 50 anos para cada ato da vida cotidiana
Alguns escritores e pensadores cubanos refletiram sobre a agoniante presença da espera na história da vida cotidiana do país. O fato de que desde a cristalização da nacionalidade, no século XIX, os cubanos sempre tiveram de esperar do futuro a chegada de algo que nos completasse ou aliviasse (a independência política, melhor governo, desenvolvimento econômico, etc) fazendo dessa vigília pelo futuro uma atitude tão visceral que muitas vezes se tornou inconsciente e integrou-se como uma parte harmônica do caráter nacional: quase todos os cubanos, à margem de credos políticos, sociais e religiosos vivem, e temos vivido, à espera de algo.
Talvez, o melhor modo de ver como e quanto a espera integrou-se ao subconsciente cubano está na paciência infinita que desenvolvemos para resistir às filas que durante 50 anos fizemos para cada um dos atos da vida cotidiana, embora o verdadeiro coroamento da espera como atitude vital se possa observar na estendida prática de aniquilar o tempo com que tantos cubanos gastam suas horas em qualquer sombra propícia, à espera de algo (talvez caído do céu) que movimento suas vidas.
Nos últimos dois anos os cubanos residentes dentro e fora da ilha viveram a expectativa de possíveis mudanças que poderiam (ou deveriam) ocorrer nas esferas econômica, social e até política da polêmica e atraente ilha do Caribe. A espera dessas transformações chegou a ter momentos de alta dramaticidade quando em meados de 2007 o governo admitiu a necessidade de mudanças “estruturais e conceituais” no modelo econômico e social, sobretudo quando foram ouvidas vozes que publicamente reclamavam alguns desses movimentos (no congresso da União de Escritores e Artistas, por exemplo) e quando começou-se a introduzir algumas transformações e a eliminar proibições, embora a maioria delas se localizasse mais em um nível formal do que no universo estrutural ou conceitual do modelo social. Mas, a dilatada espera por novos e mais profundos movimentos sonhados que não parecem chegar nunca venceu as expectativas de alguns meses atrás e voltou a despertar a inércia da espera sem horizontes.
Uma das mudanças nas quais se apostava e que com mais ânsia se esperava era a relacionada com o rígido e limitador mecanismo migratório que devem seguir os cidadãos cubanos para viajar ao estrangeiro (a chamada “permissão de saída”, sem a qual ninguém pode cruzar legalmente as fronteiras da ilha). Em certos círculos, inclusive, chegou-se a criticar abertamente – pela primeira vez dentro do país – a existência dessa onerosa autorização da qual depende a liberdade e a possibilidade de viajar dos cidadãos. Mais recentemente até se começou a falar de sua iminente revogação ou de uma mudança, mais realista para a lógica cubana, como seria a substituição da permissão por uma autorização válida por dois anos que seria colocada no passaporte no momento de sua obtenção.
Como quase sempre ocorre nos fluxos que vinculam a base de uma sociedade com sua superestrutura, a insistência de tantas pessoas quanto à necessidade de eliminar a permissão de saída respondeu a uma realidade social e econômica que luta por se manifestar, com independência dos discursos e das argumentações oficiais que as retardem e as condenem à espera. Mas, como também costuma acontecer, quando uma sociedade tem um caminho fechado seus integrantes fazem o possível para buscar uma via alternativa, e isso é o que acontece em Cuba com relação à emigração como reflexo já não de antagonismos políticos, mas, e sobretudo, do cansaço da espera.
Para a lógica oficial cubana o desejo de emigrar não deveria existir em um cidadão da ilha: só o fato de viver no país de maior justiça, igualdade social e de respeito à dignidade humana, deveria bastar para que ninguém quisesse abandonar a terra eleita pela história. Mas, a realidade é mais obstinada inclusive do que os discursos, e estes podem ser muito obstinados, adverte para a tendência ao aumento das ações migratórias e do patente aumento do número de pessoas que deixam a ilha por um ou outro caminho, legal ou ilegalmente, atraídas ou não por essa Lei de Ajuste que automaticamente aceita todo cubano que entra em território norte-americano.
O mais complicado nessa ânsia migratória é que com ela se está revelando uma das mais visíveis manifestações do cansaço da espera. Porque embora as migrações formem parte da cultura humana desde suas origens, no caso específico cubano o doloroso é que com ela está se produzindo um fenômeno que compromete diretamente a essência da sociedade atual e, principalmente, da sociedade do futuro, pois um número considerável de migrantes das duas últimas décadas (e me desculpem a falta de números, tão difíceis de conseguir para determinados aspectos da vida cubana) são jovens profissionais que desmotivados, desinteressados e desconfiados (como alerta um estudo sobre o assunto) decidem mover suas expectativas para territórios que lhes pareçam mais promissores.
Esse êxodo dos jovens, dos inteligentes, dos preparados é, sem duvida, uma sangria do presente e do futuro cubanos. Inclusive, é hoje uma das causas que, entre outras, estão provocando a diminuição da população cubana e seu envelhecimento. Ao que parece, para os mais jovens a arte da espera praticada por seus antecessores não é uma opção com a qual desejam brincar por mais tempo. O que valeria a pena agora é saber se a sociedade cubana pode dilatar indefinidamente suas esperas, enquanto vê partir tantos de seus melhores jovens.
Talvez, o melhor modo de ver como e quanto a espera integrou-se ao subconsciente cubano está na paciência infinita que desenvolvemos para resistir às filas que durante 50 anos fizemos para cada um dos atos da vida cotidiana, embora o verdadeiro coroamento da espera como atitude vital se possa observar na estendida prática de aniquilar o tempo com que tantos cubanos gastam suas horas em qualquer sombra propícia, à espera de algo (talvez caído do céu) que movimento suas vidas.
Nos últimos dois anos os cubanos residentes dentro e fora da ilha viveram a expectativa de possíveis mudanças que poderiam (ou deveriam) ocorrer nas esferas econômica, social e até política da polêmica e atraente ilha do Caribe. A espera dessas transformações chegou a ter momentos de alta dramaticidade quando em meados de 2007 o governo admitiu a necessidade de mudanças “estruturais e conceituais” no modelo econômico e social, sobretudo quando foram ouvidas vozes que publicamente reclamavam alguns desses movimentos (no congresso da União de Escritores e Artistas, por exemplo) e quando começou-se a introduzir algumas transformações e a eliminar proibições, embora a maioria delas se localizasse mais em um nível formal do que no universo estrutural ou conceitual do modelo social. Mas, a dilatada espera por novos e mais profundos movimentos sonhados que não parecem chegar nunca venceu as expectativas de alguns meses atrás e voltou a despertar a inércia da espera sem horizontes.
Uma das mudanças nas quais se apostava e que com mais ânsia se esperava era a relacionada com o rígido e limitador mecanismo migratório que devem seguir os cidadãos cubanos para viajar ao estrangeiro (a chamada “permissão de saída”, sem a qual ninguém pode cruzar legalmente as fronteiras da ilha). Em certos círculos, inclusive, chegou-se a criticar abertamente – pela primeira vez dentro do país – a existência dessa onerosa autorização da qual depende a liberdade e a possibilidade de viajar dos cidadãos. Mais recentemente até se começou a falar de sua iminente revogação ou de uma mudança, mais realista para a lógica cubana, como seria a substituição da permissão por uma autorização válida por dois anos que seria colocada no passaporte no momento de sua obtenção.
Como quase sempre ocorre nos fluxos que vinculam a base de uma sociedade com sua superestrutura, a insistência de tantas pessoas quanto à necessidade de eliminar a permissão de saída respondeu a uma realidade social e econômica que luta por se manifestar, com independência dos discursos e das argumentações oficiais que as retardem e as condenem à espera. Mas, como também costuma acontecer, quando uma sociedade tem um caminho fechado seus integrantes fazem o possível para buscar uma via alternativa, e isso é o que acontece em Cuba com relação à emigração como reflexo já não de antagonismos políticos, mas, e sobretudo, do cansaço da espera.
Para a lógica oficial cubana o desejo de emigrar não deveria existir em um cidadão da ilha: só o fato de viver no país de maior justiça, igualdade social e de respeito à dignidade humana, deveria bastar para que ninguém quisesse abandonar a terra eleita pela história. Mas, a realidade é mais obstinada inclusive do que os discursos, e estes podem ser muito obstinados, adverte para a tendência ao aumento das ações migratórias e do patente aumento do número de pessoas que deixam a ilha por um ou outro caminho, legal ou ilegalmente, atraídas ou não por essa Lei de Ajuste que automaticamente aceita todo cubano que entra em território norte-americano.
O mais complicado nessa ânsia migratória é que com ela se está revelando uma das mais visíveis manifestações do cansaço da espera. Porque embora as migrações formem parte da cultura humana desde suas origens, no caso específico cubano o doloroso é que com ela está se produzindo um fenômeno que compromete diretamente a essência da sociedade atual e, principalmente, da sociedade do futuro, pois um número considerável de migrantes das duas últimas décadas (e me desculpem a falta de números, tão difíceis de conseguir para determinados aspectos da vida cubana) são jovens profissionais que desmotivados, desinteressados e desconfiados (como alerta um estudo sobre o assunto) decidem mover suas expectativas para territórios que lhes pareçam mais promissores.
Esse êxodo dos jovens, dos inteligentes, dos preparados é, sem duvida, uma sangria do presente e do futuro cubanos. Inclusive, é hoje uma das causas que, entre outras, estão provocando a diminuição da população cubana e seu envelhecimento. Ao que parece, para os mais jovens a arte da espera praticada por seus antecessores não é uma opção com a qual desejam brincar por mais tempo. O que valeria a pena agora é saber se a sociedade cubana pode dilatar indefinidamente suas esperas, enquanto vê partir tantos de seus melhores jovens.
Leonardo Padura Fuentes, escritor e jornalista cubano. Suas novelas foram traduzidas para uma dezena de idiomas e sua obra mais recente, “A neblina de ontem”, ganhou o Prêmio Hammett de melhor novela policial em espanhol de 2005
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