Especiais A tragédia européia

18/06/2012

Tudo começou e acabará na Grécia


Por Leonardo Boff*
A Grécia é uma das primeiras vitimas da catástrofe econômica européia. Para salvar seus ganhos, os banqueiros lançaram toda uma sociedade no desespero.

Nossa civilização ocidental hoje mundializada tem sua origem histórica na Grécia do século VI antes de nossa era. Ruira o mundo do mito e da religião que era o eixo organizador da sociedade. Para pôr ordem àquele momento crítico fez-se, num lapso de pouco mais de 50 anos, uma das maiores criações intelectuais da humanidade. Surgiu a era da razão critica que se expressou pela filosofia, pela política, pela democracia, pelo teatro, pela poesia e pela estética.

Figuras exponenciais foram Sócrates, Platão, Aristóteles e os sofistas que gestaram a arquitetônica do saber, subjacente ao nosso paradigma civilizacional: foi Péricles como governante à frente da democracia; foi Fídias da estética elegante; foram os grandes autores das tragédias como Sófocles, Eurípides e Ésquilo; foram os jogos olímpicos e outras manifestações culturais que não cabe aqui referir.

Esse paradigma se caracteriza pelo predomínio da razão que deixou para trás a percepção do Todo, o sentido da unidade da realidade que caracterizava os pensadores chamados pré-socráticos, os portadores do pensamento originário. Agora se introduzem os famosos dualismos: mundo-Deus, homem-natureza, razão-sensibilidade, teoria-prática. A razão criou a metafísica que na compreensão de Heidegger faz de tudo objeto e se instaura como instância de poder sobre este objeto. O ser humano deixa de se sentir parte da natureza para se confrontar com ela e submetê-la ao projeto de sua vontade.

Este paradigma ganhou sua expressão acabada mil anos depois, no século XVI, com os fundadores do paradigma moderno, Descartes, Newton, Bacon e outros. Com eles se consagrou a cosmovisão mecanicista e dualista: a natureza de um lado e o ser humano de outro de frente e encima dela como seu “mestre e dono”(Descartes) e coroa da criação em função do qual tudo existe. Elaborou-se o ideal do progresso ilimitado que supõe a dominação da natureza, no pressuposto de que esse progresso poderia caminhar infinitamente na direção do futuro. Nos últimos decênios a cobiça de acumular transformou tudo em mercadoria a ser negociada e consumida. Esquecemos que os bens e serviços da natureza são para todos e não podem ser apropriados apenas por alguns.

Depois de quatro séculos de vigência desta metafísica, quer dizer, deste modo de ser e de ver, verificamos que a natureza teve que pagar um preço alto para custear esse modelo de crescimento/desenvolvimento. Agora tocamos nos limites de sua possibilidades. A civilização técnico-científica chegou a um ponto em que ela pode por fim a si mesma, degradar profundamente a natureza, eliminar grande parte do sistema-vida e, eventualmente, erradicar a espécie humana. Seria a realização de um armgedon ecológico-social.

Tudo começou há milênios na Grécia. E agora parece terminar na Grécia, uma das primeiras vitimas do horror econômico, cujos banqueiros, para salvar seus ganhos, lançaram toda uma sociedade no desespero. Chegou à Irlanda, a Portugal, à Itália, podendo-se se estender à Espanha e à França e, quiçá, a todo o sistema mundial.

Estamos assistindo a agonia de um paradigma milenar que está, parece, encerrando sua trajetória histórica. Pode demorar ainda dezenas de anos, como um moribundo que resiste, mas o fim é previsível. Com seus recursos internos não tem condições de se reproduzir.

Temos que encontrar outro tipo de relação para com a natureza, outra forma de produzir e de consumir, desenvolvendo um sentido geral de interdependência face à comunidade de vida e de responsabilidade coletiva pelo nosso futuro comum. A não encetarmos esta conversão, ditaremos para nós mesmos o veredito de desaparecimento. Ou nos transformamos ou desapareceremos.

Faço minhas as palavras de Celso Furtado, economista-pensador:”Os homens de minha geração demonstraram que está ao alcance do engenho humano conduzir a humanidade ao suicídio. Espero que a nova geração comprove que também está ao alcance do homem abrir caminho de acesso a um mundo em que prevaleçam a compaixão, a felicidade, a beleza e a solidariedade”. Mas à condição de mudarmos de paradigma.

Zorba - Sirtaki original. Veja o vídeo:

 

*Leonardo Boff é teólogo e escritor


Comentários








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Alexandre | 18/06/2012 14:12
Bela e oportuna reflexão de Dirceu Haas, acima, que serve de complemento ao expressado por Leonardo em seu magnífico texto, por não temer a verdade, por mais que ela doa e possa até nos fazer sofrer. Parabéns aos dois e ao Dom Total por esta ótima reunião de artigos publicada semanalmente num ESPECIAL, sempre jogando luzes sobre temais atuais e de enorme interesse para todos.
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Dirceu Haas | 18/06/2012 13:29
...izacional traz em seu bojo, desde as origens, a força da mudança, transformação.. . Por isso, penso que redirecionar um modelo de desenvolvimento e de relação internacionais passa necessariamente pela concepção de felicidade e de realização humana na vida como um todo. O atual modelo econômico em crise é resultado de um foco quase exclusivo da nossa civilização na racionalidade tecno-científica. Contudo, o "logos" crítico também submete ao seu crivo esta exclusivação e aponta para a necessidade de outras expressões/manifestações de si mesmo como a arte, a religião, a ética, o direito, etc. Reaprender e ensinar às nossas crianças que a maior parte da felicidade é gratuita e não pode ser comprada, pode ser um começo.
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Dirceu Haas | 18/06/2012 13:27
Bela ontogênese da civilização ocidental, Leonardo Boff. Acrescentaria ainda às citadas criações do "logos" a ética e o Direito. Se o sistema da razão técnico-científica capacitou um indivíduo (banqueiro, cientista, general, etc.) de dotes e poder de intervenção em escala internacional, penso que este mesmo sistema racional é capaz de criar princípios éticos e jurídicos de gestão das relações inter-humanas globais de modo a equilibrar o poder e interesse individual com o interesse humanitário, coletivo e ambiental. Esta relação não precisa de ser antagônica, mas pode ser de recíproca viabilização dialética de extrair do indivíduo o melhor de suas potencialidades e ao mesmo tempo proteger a sociedade de indivíduos deviantes, capazes de expor a vida no planeta ao risco da extinção. Assim, pode não se tratar de uma crise civilizacional. Mas, de crise de um modelo de desenvolvimento econômico. Consequentemente, não vejo o fim tão perto, nem tão drástico. Nosso modelo civil
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