Fato em Foco

28/01/2013

Em busca de si mesmo no Facebook

O livro ‘Vida digital’ é um retrato de como perseguimos a nós mesmos na vida, usando a tecnologia digital como pretexto.

Por Marco Lacerda*

  • Fabrizio Mejía: “Na Internet não somos navegantes, mas peixes capturados pela rede” (Arquivo)
  • Yvette Vickers, ex-coelhinha da Playboy, encontrada morta diante de um computador (Arquivo)

 “Um computador desligado é, quando muito, um espelho de má qualidade. Já um computador ligado é a possibilidade de não pensar em si mesmo e inventar uma vida à parte”. Assim começa o livro ‘Vida Digital’, do escritor e jornalista mexicano Fabrizio Mejía, dedicado a descrever as noites de insônia de milhões de pessoas ao redor do planeta, vagando pela Internet de página em página. A isto se dedica também o personagem sem nome do romance de Mejía ao passar horas mergulhado no universo virtual, buscando a si mesmo nos devaneios e perfis de estranhos arquivados no Facebook. O próprio autor admite passar horas conectado, além de ter 20 mil seguidores no Twitter.

Fabrizio Mejía escreve para a revista política Proceso e é colaborador de outras publicações mexicanas de peso, como Letras Libres, Gatopardo, Chilango e da seção cultural do jornal Reforma. ‘Vida Digital’ é inspirado em um amigo de Fabrizio que se ocupa de escrever biografias falsas no Wikipedia. A uma certa altura o narrador diz: “Na Internet não somos navegantes, mas peixes capturados pela rede. A água é a vida e a rede”.

O personagem de ‘Vida Digital’ é um homem nascido antes das redes sociais (“Quando a Internet servia apenas para enviar emails e nos masturbamos diante de sites pornôs”) que, de repente, torna-se escravo delas numa época mais complexa em que perdemos a inocência e já não cremos em quase nada.

Depois da simplicidade dos emails e dos sites pornôs, agora o computador permite que as pessoas tenham acesso à informação ilimitada. “Se alguém perde a memória, basta ligar o computador e a encontrará guardada lá dentro, numa nuvem que não representa lugar nenhum. Ter Alzheimer não será problema num futuro próximo”, ironiza Mejía.

Ironia e fervor

O Facebook tem servido também para mais coisas, como o ativismo político. Fabrizio tem sido combativo nesse sentido, denunciando fraudes eleitorais do Partido Revolucionário Institucional (PRI), o maior do México, e a manipulação de informação pela cadeia Televisa. “Ambos subestimaram o poder das palavras-de-ordem saídas de computadores e celulares para se transformarem em manifestações nas ruas”, diz o escritor. As gigantescas mobilizações populares antes e depois de comícios, no México, se devem ao fato de que no Twitter não importa quantos te seguem, mas quantos ‘retuiteiam’, criando com isso uma bola de neve que se expande sem limites.

Fabrizio Mejía fala com ironia de uma rede como o Twitter, mas também com fervor. As comunidades do futuro não se basearão em geografia nem em vizinhança, mas em valores e opinião. “Numa comunidade de fãs de Justin Bieber, por exemplo, não importa a imbecilidade desse garoto. O que vale é como se cria uma comunidade a partir de um nome, como se ele fosse o chefe da tribo, o deus”, afirma. No futuro, a única diferença entre a vida virtual e a real será a capacidade de chegar até aqueles que no momento já existem indigentemente em três dimensões . “Com o advento das redes sociais, nunca escrevemos tanto e com ortografia tão deslavadamente ruim”, dispara o autor.

Em outro de seus livros, ‘A multidão solitária’, Fabrizio Mejía lamenta a perda dos anos dourados em que nos casávamos melhor, tínhamos comunidades melhores, ruas mais seguras e eram mais felizes. Estamos nos tornando perigosamente ilhados diante de uma pergunta inevitável: “Quando voltaremos para os nossos amigos, famílias e colegas para discutir o motivo pelo qual não passamos mais tempo juntos”.

Solidão acompanhada

Mejía faz uma afirmação inusitadamente radical sobre essa desunião: "Padecemos de uma alienação sem precedentes. Nunca estivemos mais afastados uns dos outros ou mais sozinhos do que agora. Em um mundo consumido por formas cada vez mais modernas de socialização, a nossa é cada vez menos uma sociedade de verdade. Vivemos uma contradição acelerada: Quanto mais nos conectamos, mais solitários ficamos".

Mejía usa como exemplo a história de Yvette Vickers, ex-coelhinha do Playboy e atriz de filmes B que, ao chegar à meia-idade, tornou-se uma freqüentadora voraz das redes sociais. Yevette morreu de um ataque cardíaco, sozinha em seu apartamento de Beverly Hills, Los Angeles, no ano passado. Seu corpo foi encontrado ‘mumificado’ diante de um computador. Para Fabrizio Mejía, a morte da ex-coelhinha é um símbolo desses tempos de solidão acompanhada em que grande parte da humanidade passou a viver.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do DomTotal. Este texto foi escrito com base em informações dos jornais El País e Reforma.



Comentários








Escreva o código informado para comentar k6g2o
*Seu comentário irá aparecer mediante a resposta correta.


Evaldo - Praia dos Castelhanos,ES | 28/01/2013 15:08
Quantos foram os que já escreveram e continuarão escrevendo para alertar sobre essa noite escura que se abate sobre a maior característica do humano, que é a capacidade de socialização? Mejia, Chaim, Lacerda, permito-me incluir-me entre vocês, cada um a seu modo aponta para o que McLuhan previa como a grande “aldeia global”, sem imaginá-la no que se vai tornando: a grande “solidão global”. Onde muito se fala, sem se falar nada. Onde todas as comunicações irão, cada vez mais rapidamente, se tornar totalmente virtuais. Ou seja: NADA!
responder comentário Responder Evaldo - Praia dos Castelhanos,ES







Escreva o código informado para comentar a7d4r
*Seu comentário irá aparecer mediante a resposta correta.


Lev Chaim | 28/01/2013 13:02
Este artigo vai de encontro com vários textos que escrevi. Ele é um soco na boca do estômago de todos nós. A única coisa é que eu sou mais otimista que o mexicano e menos saudosista. Este contato social intenso digital não vai substituir por muito tempo o contato cara-a-cara. Este último é redundantemente mais ativo, mais saboroso, mais cheiroso e muito mais substancioso. O caso da coelhinha é um extremo muito triste. Mas, antes dela ter esta vida, a vida dela já era triste, vazia e supérflua. Ou estou enganado? Nada vai substituir uma boa troca de informações cara-a-cara. Só a distância e as vezes a morte. (coloquei o texto novamente porque na pressa de bater me esqueci de algumas letras)
responder comentário Responder Lev Chaim







Escreva o código informado para comentar k6g2o
*Seu comentário irá aparecer mediante a resposta correta.


Lev Chaim | 28/01/2013 12:59
Este artigo vai de encontro com vários textos que escrevi. Ele um soco na boca do estômago de todos nós. A única coisa é que eu sou mais otimista que o mexicano e menos saudosista. Este contato social intenso digital não vai substituir por muito tempo o contato cara-a-cara. Este último é redundantemente mais ativo, mais saboroso, mais cheiroso e muito mais substancioso. O caso da coelhinha é um extremo muito triste. Mas, antes dela ter esta vida, a vida dela já era triste, vazia e supérflua. Ou estou enganado. Nada vai substituir uma boa troca de informações cara-a-cara. Só a distância as vezes e a morte.
responder comentário Responder Lev Chaim







Escreva o código informado para comentar a7d4r
*Seu comentário irá aparecer mediante a resposta correta.




Últimas reportagens

+ Mais Fato em Foco
Super Dom
Fato em FocoQue crime cometeu este escritor iraniano? + Fatos em Foco
Arte e CulturaO disco solitário que Kurt Cobain não terminou + Mais matérias
Somos tão jovens
Somos tão jovens
Drama
104 min.


Pablo Villaça
Crítica de Cinema
Newsletter
Assine e fique por dentro das novidades

Newsletter
Assine e fique por dentro das novidades
Mídias Sociais