Fato em Foco
Foi Pinochet o assassino de Pablo Neruda?
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Pablo Neruda com a mulher, Matilde Urrutia, em Santiago do Chile (AFP)
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Neruda recebe o Prêmio Nobel na Suécia, em 1971 (Reuters)
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Salvador Allende, primeiro presidente socialista eleito pelo voto popular (Reuters)
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Palácio de La Moneda bombardeado pelas forças de Pinochet, em 1973. (AFP)
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Pinochet toma o poder e governa o Chile com mãos de ferro (Reuters)
Fazia pouco mais de uma semana que o general Augusto Pinochet dera o golpe de estado que acabou com o governo e com a vida de Salvador Allende, o primeiro presidente socialista eleito pela via democrática na América Latina. Pablo Neruda, o poeta chileno mais universal (Prêmio Nobel de Literatura em 1971), era transferido de sua casa em Isla Negra, um povoado há poucos quilômetros de Valparaíso, para a clínica Santa Maria, na capital Santiago.
Neruda tinha sofrido várias crises em casa. Seu estado de saúde se agravara depois do sangrento golpe militar. Tinha um câncer de próstata, o que levou o embaixador do México no Chile a reservar-lhe um apartamento na clínica Santa Maria. O diplomata tinha em mãos também duas passagens de avião que transladariam Neruda e sua mulher, Matilde Urrutia, até a Cidade do México, abandonando – talvez para sempre – sua pátria querida, fonte de inspiração maior de sua obra literária incomparável. A viagem estava marca para 24 de setembro de 1973, duas semanas depois do golpe que instalou no Chile uma das ditaduras mais brutais que a América Latina jamais conheceu.
Nada aconteceu como estava previsto. Neruda morreu um dia antes de voar para o México. Segundo versões oficiais e a cultura popular chilena o poeta morreu em conseqüência do câncer. Atualmente, porém, esta versão voltou a ser contestada. Matilde Urrutia, o chofer da família Neruda, Manuel Araya e o juiz que investiga a morte do poeta, Mario Carroza, entre outros, estão convencidos de que o Nobel de Literatura não faleceu por causa naturais.
Coincidência ou não, o ex-presidente chileno Eduardo Frei, morreria em 22 de janeiro de 1982, em plena ditadura militar, na mesma clínica onde foi hospitalizado Neruda. A causa do desaparecimento de Frei hoje é atribuída a uma dose letal injetada em suas veias. O caso está sendo investigado e tudo indica que foi um assassinato.
Sombras sobre Isla Negra
O jornalista espanhol Mario Amorós há um ano tenta elucidar a morte de Neruda com o objetivo de publicar aquele que é seu sexto livro sobre o assunto. O livro (“Sombra sobre Isla Negra – A Misteriosa Morte de Pablo Neruda”) é um documento de 246 páginas em que o jornalista de Alicante reconstitui os últimos dias de vida do poeta (1904-1973).
“Desde que fiquei sabendo que o Chile abrira uma investigação judicial sobre o possível assassinato de Neruda, o assunto imediatamente despertou o meu interesse. Escrevi uma extensa reportagem onde entrei fundo na história. Descobri informações valiosas nos arquivos da Agência Efe e decidi seguir em frente”, revelou o jornalista e doutor em História do jornal espanhol El Mundo durante o lançamento do livro no Chile.
O documento defende a tese de que o poeta foi assassinado pela ditadura de Augusto Pinochet e tem causado barulho no país andino. “A ditadura destruiu aquela que era, na época, a principal democracia da América Latina, onde se construía um socialismo que era a esperança, não só do povo chileno, mas de outro povos do mundo, por seus pressupostos de democracia, pluralismo e liberdade”, afirma o escritor.
“Hoje o Chile é a sociedade onde o domínio do modelo neoliberal tem mais força e poder na América Latina. A conseqüência disso é que a distância entre as classes mais pobre e as mais ricas seja mais evidente, onde os trabalhadores têm maior dificuldade para defender seus direitos, com sistemas de saúde e educacional privados – fora do alcance da maioria da população – e um dos custos de vida mais altos da região”, diz Amorós.
Apesar do neoliberalismo selvagem, o jornalista acredita que as investigações sobre direitos humanos realizadas no país são de grande utilidade. “Mario Carroza (o juiz que decidirá se o corpo de Neruda será exumado) tem feito uma investigação séria e todo o possível para reunir provas sobre a denúncia que apresentou ao Partido Comunista chileno sobre os depoimentos do motorista Miguel Araya”, acrescenta.
Graças às novas revelações, segundo Amorós, a porcentagem de gente que defende a ditadura chilena é muito menor hoje do que era antes dos anos 90. O conhecimento da atrocidade dos crimes cometidos por Pinochet (condenado, no final da vida, por roubo e corrupção) levou uma imensa fatia da sociedade a repudiar seu regime.
Para o escritor, Neruda, além de poeta, foi um político e uma referência literária para a humanidade. “Quando penso nele, não penso apenas em sua maravilhosa poesia, mas também em seu compromisso político, que nasceu na Espanha nos anos 30. Mais de dois mil refugiados espanhóis perseguidos por outro ditador, Francisco Franco, chegaram ao Chile no Winnipeg, barco que ancorou em Valparaíso em 1939”, lembra Amorós. Em 1945, Neruda ingressou no Partido Comunista, do qual foi senador e candidato à Presidência da República.
“Sombras na Isla Negra – A Misteriosa Morte de Pablo Neruda” defende, com argumentos bem fundamentados, a tese de que Neruda foi mais uma vítima do general Pinochet. “A imolação do presidente Salvador Allende, a perseguição de seus companheiros, o final escabroso do projeto político ao qual o poeta havia consagrado alguns de seus mais belos versos e os melhores anos de sua vida, produziram em Pablo uma situação de agonia física e emocional que o levaram a uma terrível enfermidade, mas não à morte, como o regime de Pinochet pretendeu convencer o mundo”, conclui o escritor.
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Comentários
Parabéns, MARCO, pela veiculação dessa matéria, que é altamente polêmica e requer profundas apurações e investigações. Se verdadeira a tese levantada, esta tese mobilizará meio mundo contra essas ações militares que tentam comprovar que só eles são a lei e a ordem do mundo. Você tem lido, também, as matérias com as confissões da Dilma, de anos atrás, e agora divulgadas pelo “Estado de Minas” e “Correio Braziliense”? E ainda há quem critique os que lutavam pela volta da democracia...