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Psicopata aos 9 anos de idade
![]() Psicopatia infantil: carência de afeto e explosões de ódio (Foto: Arquivo) |
Ano passado, Anne e o marido Miguel levaram o filho de 9 anos, Michael, para o seu primeiro dia num acampamento de verão na Flórida. Há anos, Anne e Miguel lutam para entender o que se passa com o filho, um menino elegante, bonito, de olhos grandes, cabelos pretos e lisos. Com freqüência Michael é dominado por surtos de raiva e violência contra os pais, logo seguidos de gestos carinhosos e afetivos. Na verdade, o objetivo da temporada do garoto no acampamento, com duração de dois meses, era submetê-lo a um tratamento psicológico rigorosamente estruturado.
Acompanhando o desenvolvimento dos trabalhos no acampamento estava Jenniffer Kahn, professora de Jornalismo na Universidade de Berkeley, na Califórnia, que acaba de relatar o que viu e ouviu em livro – “Psicopata aos 9 anos”? – que mereceu ampla reportagem no jornal The New York Times. Segundo a escritora, os problemas de Michael começaram aos 3 anos de idade, pouco depois do nascimento de seu irmão mais novo. Na época, Michael já se comportava como uma criança insuportável, atirando objetos nas pessoas, aos berros e logo em seguida caindo num pranto inconsolável e incompreensível.
“Era evidente que não se tratava meramente do comportamento assumido por crianças quando são contrariadas ou estão cansadas e frustradas”, diz a mãe, Anne, em entrevista a Jenniffer Kahn. “Havia algo profundamente estranho e assustador, pois eram manifestações que podiam durar boa parte do dia, apesar das tentativas dos pais de compreender e acalmar o menino”, conta a escritora.
Durante anos, Michael gritava como uma criança enlouquecida toda vez que os pais lhe pediam para calçar os sapatos ou que guardasse os brinquedos que deixara espalhados pela sala. Ir a passeio a algum lugar, passar a noite num hotel, qualquer coisa era motivo para provocar nele as reações mais inesperadas. Esses acessos de fúria duraram durante toda a infância. Aos 8 anos, Michael era capaz de dar demonstrações de ódio – espancando as paredes e abrindo buracos na porta de madeira com martelos - simplesmente porque Anne ou Miguel tentavam vesti-lo para ir para a escola. Quando deixado sozinho em seu quarto, cortava as calças com tesouras, raspava os cabelos da cabeça ou se trancava no banheiro e batia a tampa da privada até quebrá-la.
O primeiro terapeuta que tratou de Michael diagnosticou o caso como a síndrome do menino que ganha o primeiro irmão e vê sua hegemonia na família ameaçada pela nova presença. Embora os pais reconheçam a hostilidade de Michael dirigida ao irmão caçula, não consideravam a simples presença de um bebê na casa suficiente para justificar o comportamento descontrolado do filho.
Aos 5 anos, Michael já desenvolvera a estranha habilidade de alternar espasmos de raiva com momentos de pura racionalidade e charme calculado. Era impossível prever as reações dele, que emoções cada situação poderia provocar.
O pesadelo dos pais
Anne e Miguel vivem numa pequena cidade costeira ao sul de Miami, o tipo de lugar onde crianças podem passear de bicicleta, com segurança, por trilhas bucólicas e bem cuidadas. “Na manhã em que os conheci, Anne bebericava uma Coca-Cola, enquanto os dois filhos mais novos – Allan, de seis anos e Jake, de 2 – brincavam no carpete da sala. Até aquele dia, nenhum deles manifesta desajustes como os de Michael”, relata a escritora.
O casal tem em casa estantes cheias de livros do tipo “Crianças Desafiadoras” ou “Crianças Explosivas”, todos sugerindo estratégias de lidar com o problema. Algumas delas funcionaram por alguns dias mas logo a situação voltou à a estaca zero. Ex-professora primária formada em Psicologia infantil, Anne não disfarça sua frustração. “É como se eu estivesse correndo em volta de uma mesa, tentando agarrar minhas próprias costas. Seria culpa nossa? Ou é um problema dele. Ou ambos? Procuramos uma infinidade de médicos com técnicas e tecnologias de última geração, mas ninguém foi capaz, até agora, de nos dizer: Este é o problema e isso é o que vocês têm de fazer”, desabafa a mãe.
Aos 37 anos, Anne é uma mulher sincera e franca. Miguel é um tipo mais reservado. Ex-piloto comercial agora trabalhando como corretor de imóveis, ele atua como mediador na crise familiar, sempre tentando dominar as situações mais tensas com a calma de quem já pousou aviões em meio a tempestades bíblicas. “Mas Michael desafia a lógica. Estamos tão cansados de brigar com ele em público que já não temos vida social”, reclama o pai.
Nos últimos seis anos o casal levou o filho a oito diferentes terapeutas e ouviram os mais variados diagnósticos. Até que, no ano passado, foram apresentados a Dan Waschbusch, um pesquisador da Universidade Internacional da Florida. Depois de uma bateria de exames e avaliações, o cientista apresentou aos pais um diagnóstico até então nunca ouvido por eles: “Há uma grande possibilidade de que seu seja um psicopata”.
Pequenos monstros
Há dez anos Waschbusch estuda casos de crianças amargas e sem emoções que deixam explícita sua carência de afeto, remorso ou empatia com os demais. São crianças com tendência de se tornarem psicopatas quando adultas. Para avaliar a situação de Michael, o pesquisador lançou mão do que existe de mais moderno em Psicologia – instrumentos capazes de detectar condutas predatórias associadas à psicopatia. Waschbusch entrevistou professores e pais de colegas do menino sobre seu comportamento em casa e na escola. Quando todos os exames foram concluídos, o médico pode perceber claramente que Michael era um caso atípico situado completamente fora do espectro da normalidade.
Atualmente, não existe ainda um teste padrão para detectar psicopatia em crianças, mas um número cada vez maior de psicólogos acredita que a psicopatia, assim como o autismo, é um tipo especial de distúrbio neurológico que já pode ser identificado antes dos cinco anos de idade. Para estabelecer tal diagnóstico é crucial localizar características como amargura e falta de emoções em crianças impulsivas, difíceis de controlar e violentamente desobedientes, que demonstram comportamento hostil e agressivo, como no caso de Michael.
Outro especialista, Paul Frick, psicólogo da Universidade de New Orleans que, há duas décadas, estuda tendências psicopatas entre crianças, cita um caso chocante: um menino que usou uma faca para cortar o rabo do gato da família, pedaço por pedaço, durante semanas. O menino sentia-se orgulhoso daquela série de amputações infligidas ao animal sem ser notado pelos pais. Quando o psicólogo perguntou-lhe porque fizera aquilo, o menino foi direto: “Quero ser um cientista e precisava saber qual seria a reação do gato”.
Outro caso famoso foi o de um menino de 9 anos, Jeffrey Bailey, que empurrou um bebê que apenas engatinhava para o fundo de uma piscina num hotel de Miami. Enquanto a criança lutava para voltar à tona e aos poucos se afogava, Jeffrey puxou uma cadeira, sentou-se e apenas contemplou a cena. Interrogado pela polícia, Bailey explicou que sempre fora curioso de ver alguém se afogando. Não demonstrou nenhum sinal de arrependimento, ao contrário, sentia-se realizado por ser o centro das atenções.
“Em muitas crianças, porém, os sinais de psicopatia precoce são mais sutis. Elas tendem a ser altamente manipulativas. Mentem com freqüência, não para evitar punições, como faz a maioria das crianças, mas por razões estapafúrdias ou por razão nenhuma”, diz Paul Frick. “Crianças portadoras da semente da psicopatia não se importam se alguém está irritado com elas ou se feriram os sentimentos de um amigo. Como adultos psicopatas, parece faltar-lhes humanidade. Se podem conseguir o que querem sem ser cruéis, tudo bem. Se não, agirão da forma que funcionar melhor”, conclui.
Jeffrey Dahmer - Mais que psicopata, um monstro. Veja o vídeo.
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Comentários
Fui graduado pela Dom Helder sempre me interessei por esse assunto pricipalmente na psiquiatria legal uma vez que atuo na àrea criminal, parabéns pela materia. Samir Alves
Acredito que a suspeita diagnóstica do Dr. Waschbusch seja a mais interessante dentro das teorias psicanalíticas aqui descritas. O psicopata é um ser humano sem alma, portanto sem os sentimentos mais nobres que o definem como tal. Não chegam a ser irracionais pois pensam diuturnamente na maldade e suas ramificações aterrorizantes. Penso no sofrimento e angústia dos pais dessas criaturas e o inferno que de ve ser a convivência diária com o problema. A medicina é uma ciência dinâmica e logo teremos algo que resolva os insondáveis problemas da mente doente. Resta-nos sempre a esperança. Parabéns pelo artigo.
Meu único filho, de 8 anos, é um exemplo extremo dos casos citados neste artigo. Meu marido e eu não sabemos mais o que fazer. O comportamento destemperado e imprevisível - muitas vezes violento - do menino acabou por torná-lo uma ameaça que escola nenhuma quer ter por perto. Atualmente, ele passa o dia numa instituição, em regime de semi-internato, para que meu marido e eu possamos pelo menos trabalhar em paz, sem o temor de que alguma tragédia possa acontecer. Não sabemos que futuro esperar nem o que será da vida dele.
Prezada Heloisa, convivi, por toda a minha vida, com alguém muito próximo portador de sofrimento mental. Deus nos ajuda. A luta é diária amiga, mas Deus não nos abandona.