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17/02/2017 | domtotal.com

Deixem o povo sambar em paz!

O Carnaval é a mais popular festa brasileira, não tem dono, nem sócios, nem incorporadores.

O negócio do ócio dá lucro e todos querem tirar algum.
O negócio do ócio dá lucro e todos querem tirar algum. (Reprodução)

Por Eleonora Santa Rosa*

Chegou às raias do absurdo!

Última novidade: os foliões de Belo Horizonte não terão direito de tomar a velha e consagrada Catuaba porque a patrocinadora do Carnaval da capital mineira, uma poderosa empresa de cervejas e conexos, proibiu a venda de bebidas que não pertençam ao seu ‘cast’.

Sinceramente, pouco importa o produto, o que choca mesmo é a mercantilização da cidade, a venda desabrida e desmedida de espaços públicos onde ocorrem os grandes eventos, a monopolização empresarial das festas da população, a comercialização desenfreada dos cordões, cujas regras são balizadas tão-somente pelo interesse do mercado e ponto final.

Assistimos nos últimos tempos, às vezes impassíveis e outras nem tanto, as prefeituras negociarem, afoita e desmesuradamente, todo e qualquer festejo de rua, agora transformado em duto privilegiado de arrecadação, pondo no balcão tudo aquilo que possa render receita e desoneração, pouco importando, de fato, o que o cidadão, o morador, enfim, a comunidade quer. O negócio do ócio dá lucro e todos querem tirar algum. Querem alimentar o caixa infinito do buraco negro que suga, vorazmente, toda e qualquer ‘dinheirinho’, com baixíssimo retorno para a ‘populacho’ que está do outro lado da folia.

Começam fechando, depois cercando, depois vendendo cada metro de rua, passeio e banco, impondo marcas e apetrechos, restringindo nomes, comes e bebes, numa roda viva de ‘criatividade’ sem fim. Já virou medida corriqueira a vedação de acesso a espaços públicos, com o consequente comprometimento do direito de ir e vir (nesse sentido, vale registrar a magistral intervenção-guerrilha denominada Praia da Estação, nascida da reação ao cerco da Praça Rui Barbosa por parte do antigo alcaide, cerceamento operado por razões de fazer corar de vergonha qualquer cidadão que honra e paga seus impostos), enfim, aplicação daquela máxima: manda quem pode e engole quem tem juízo mais curto.

Via de regra (detesto a expressão, mas é a que melhor se aplica à situação), os editais para exploração comercial desse tipo de atividade de alegria estão cada vez mais sofisticados, direcionados e restritivos, no que toca ao direito de consumo e de usufruto livre pela população, atendendo, primeiramente, ao interesse de quem detém o capital contra o espírito daqueles que vivem na capital.

O Carnaval é a mais popular festa brasileira, não tem dono, nem sócios, nem incorporadores. Deixem o samba rolar em paz, cada um na sua, cada qual bebendo o que quiser: Catuaba, Catuçaí, Cinzano, Underberg, Martini, Conhaque, Cachaça, ‘refri’,  água e o que mais pintar!  Viva o Drink do Amor, o Cravinho do Belô, as louras geladas e as morenas encorpadas!

Lembremos e cantemos a deliciosa Saca-Rolha, atemporal marchinha da década de 50, que bem poderia ser o hino momesco de BH em 2017:

“As águas vão rolar 
Garrafa cheia eu não quero ver sobrar
Eu passo mão na saca saca saca rolha
E bebo até me afogar
Deixa as águas rolar.”

*Eleonora Santa Rosa – jornalista, produtora e empreendedora cultural, foi secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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