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Religião Roteiro Homilético

15 de setembro / 2013 - 24º domingo do tempo comum/C
Liturgia do domingo 

DEUS PROCURA A RECONCILIAÇÃO 

1ª leitura: (Ex 32,7-11.13-14) “O Senhor arrependeu-se das ameaças que fizera contra seu povo” – Enquanto Moisés está ainda no Sinai, o povo adora o bezerro de ouro (Ex 32,1-6). A sanção de Deus é dura. Não quer mais este povo (“teu povo”, diz ele a Moisés). Mas Moisés se torna mediador e lembra a Deus suas promessas, como Abraão lhe lembrou sua justiça (Gn 18,25). E Deus se deixa convencer. – A narração representa Deus de modo bastante humano (antropomorfismo): tanto a cólera de Deus quanto seu arrependimento são modos de falar; importa que mostrem que Deus não é indiferente, nem ao nosso pecado, nem à nossa prece. São maneiras humanas de falar de seu amor sem fim. * 32,8-10 cf. Ex 34,12-14.17; Dt 9,7-8.12-14; Jr 31,32; Gn 12,2 * 32,13 cf. Gn 15,5; 22,16-17; 35,11-12.

2ª leitura: (1Tm 1,12-17) Jesus veio para reconciliar os pecadores: experiência de Paulo – Desde a 2ª viagem missionária, Timóteo acompanhou Paulo como fiel colaborador. As cartas a Timóteo e Tito são o “testamento espiritual” de Paulo. Mostram como foram as comunidades pelo fim do século I. – A mensagem central do texto de hoje é a vinda de Jesus ao mundo, para salvar os pecadores (cf. 1ª leitura e evangelho). Paulo mesmo o experimentou e, além disso, recebeu uma missão importante. A partir daí, gratidão e * 1,17 cf. 1Tm 6,15-16; Rm 16,27.

Evangelho: (Lc 15,1-32 ou 15,1-10) Deus procura o que está perdido; o “filho pródigo” – Jesus à mesa dos publicanos e pecadores é um escândalo para os fariseus. Mas Deus tem preferência pela ovelha desgarrada, que está em perigo; pela moeda extraviada, que é mister reencontrar. Cada um importa para ele e recebe preferência quem mais precisa! Quem está sempre com Deus (o outro filho), não é problema; mas o desgarrado recebe uma atenção especial. Deus vai ao encontro dele, até que ele volte (cf. Jr 31,18; Lm 5,21). * 15,1-2 cf. Mt 9,10-13 * 15,3-7 cf. Mt 18,12-14; Jo 10,11-12; Ez 34,4.16 * 15,11-32 cf. Os 11 * 11,17-19 cf. Is 55,6-7; Jr 3,12-13; Sl 51[50],4 * 15,20-24 cf. Is 49,14-16; Jr 31,20; Ef 2,5; 5,14 * 15,25-32 cf. Lc 18,9-10. 

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“Não quero a morte do pecador, e sim, que ele se converta e viva”. Estas palavras de Ez 18,23 formam o pano de fundo (não expresso) da liturgia de hoje (cf. Lc 15,32). A 1ª leitura mostra Deus voltando atrás no seu projeto de rejeitar Israel, depois de sua apostasia (bezerro de ouro). Em Ex 32,7, Deus já não o chama “meu povo”, como na fórmula da Aliança (cf. Ez 37,23 etc.), mas “teu povo”. Porém, por causa da intervenção de Moisés, que lhe lembra sua promessa, ele retira sua ira. O N.T. penetra mais fundo no ser de Deus. Nas parábolas colecionadas em Lc 15 (evangelho), ninguém precisa lembrar a Deus a promessa dele. Ele está totalmente voltado para o que se afastou do caminho, como um pastor concentra toda sua atenção na ovelha que está faltando em seu rebanho, ou como a dona-de-casa que deixa até queimar a comida por estar preocupada com uma nota de dez reais faltando na sua carteira...

Deus tem razão. Quem vai bem, siga à frente; o que está errado é que necessita de atenção. O médico não vem para os sãos, mas para os doentes. Já o pensamento “elitista” diz: ocupa-te com os “bons”, os que rendem, pois com os outros perdes teu tempo. Enfraquece-os. Deixa-os viver na falta de higiene e na subnutrição, para que sejam exterminados. Expulsa o povinho de sua área, o “primitivo” de suas terras... O pensamento de Deus não é assim. Ele sabe que rejeitar um só homem seria a mesma coisa que rejeitar a todos: o princípio é o mesmo. Por isso, está ansioso de ver voltar qualquer um, até o mínimo, o mais rebaixado, aquele que conviveu com os porcos (que horror, para os judeus a quem Jesus contou a parábola de filho pródigo!). Pois é seu filho, mesmo se o próprio filho já não se acha digno de ser chamado assim. Deus não pode esquecer seu filho (Jr 31,20; Is 49,15). Nós gostamos de resolver os “casos difíceis” pela expulsão, a repressão (e vemos os frutos...). Deus opta pela reconciliação.

São Paulo entendia bem isso. Ele foi perseguidor, como escreve no início de 1Tm. Mas a graça de Deus foi tão abundante, que em Cristo lhe deu vida e caridade. Jesus veio para salvar os pecadores (cf. Lc 15; 19,10, etc.), e Paulo foi o principal deles (1Tm 1,15). Com isso, ele se tornou exemplo daquilo que ele apregoa no seu serviço: a reconciliação (cf. 2Cor 5,18) (2ª leitura).

Ora, se Deus faz assim uma “opção preferencial” pelas ovelhas perdidas, não sobrará mais carinho para as que ficaram no rebanho? Seria ter uma ideia muito mesquinha do carinho de Deus pensar assim. O pai faz festa para o filho pródigo, porque “aquele que estava morto voltou à vida”, mas não para o outro filho, que sempre está com ele, pois o “estar sempre com ele” é que deve ser a mais profunda alegria (Lc 13,31-32). Ou será que, talvez, o filho mais velho, no fundo de seu coração, permanece com o pai apenas por constrangimento? Se for assim, deve reconhecer seu afastamento interior e voltar ao pai; então, o pai oferecerá um bom churrasco também para ele! A gente reconhece no filho mais velho a figura do fariseu: contas em dia, mas o coração longe de Deus. Não é tal a atitude dos que reclamam porque o padre anda nas favelas em busca de ovelhas perdidas em vez de rezar missas particulares ou ir a reuniões piedosas? Ao contrário, felizes por ter Deus sempre diante dos olhos, deveriam ser solidários com a Igreja que busca os abandonados, em vez de se sentirem abandonadas no meio de tanta atenção que receberam. Em vez de criticar a prioridade dada aos excluídos, deveriam ser os primeiros a procurar o reencontro, tornando-se “agentes da reconciliação”. 

OPÇÃO PREFERENCIAL PELOS PECADORES? 

Certo dia, eu tive de interromper uma palestra para um grupo de padres, porque não aceitavam que os pecadores convertidos serão tão bem-vindos no céu quanto os que se comportaram bem. Será que Deus é generoso demais para com os malandros que se convertem?

São Paulo diz com clareza: “Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro” (2ª leitura). Já a 1ª leitura nos ensina que Deus é capaz de mudar de ideia: reconcilia consigo o pecador penitente. O evangelho (texto longo) nos mostra Deus como um pastor procurando a ovelha perdida do rebanho, como um pai que espera a volta de seu filho vagabundo.

Nós achamos estranho um Deus que dá mais atenção a uma ovelha desgarrada do que a noventa e nove que permanecem no rebanho. Não será melhor que uma se perca do que o rebanho todo? Pois bem, foi exatamente isso que disse o sumo sacerdote Caifás para justificar a morte de Jesus. “E melhor que um morra pelo povo todo” (Jo 11,49-51)! Mas esse um não era um pecador!

Deus, em relação ao pecador, não segue o raciocínio de Caifás. É mais parecido com um motorista, que não se preocupa com aquilo que funciona bem, mas fica atento àquilo que parece estar com defeito. Os pensamentos de Deus não ficam parados nos bons; ele está mais preocupado com os extraviados. Faz “opção preferencial” pelos que mais necessitam, os que estão em perigo e, sobretudo, os que já caíram – pois para Deus nenhum mortal está perdido definitivamente. Quem caiu tem de ser recuperado. Esta é a preocupação de Deus. Com os bons, os seus semelhantes se preocupam; para Deus, todos importam. Por isso ele se preocupa com quem é abandonado por todos. Ele não descansa enquanto uma ovelha está fora do rebanho. Ele não quer a morte do pecador, mas sua volta e sua vida (Ez 33,11).

E nós? Nós devemos assumir os interesses de Deus. A Igreja deve voltar-se com preferência para os pecadores, orientá-los com todos os recursos do carinho pastoral e mostrar-lhes o incomparável coração de pai de Deus. Quem se considera justo, como o irmão do filho pródigo, não se deve queixar deste modo de agir de Deus. Pois ser justo é estar em harmonia com Deus, receber dele o bem e a felicidade, estar realizado. Por que então lamentar sua generosidade para com o pecador convertido? O “justo” alegre-se com o pecador, aquele que realmente necessitava atenção, o morto que voltou à vida! Mas, talvez, muitos se comportem como justos, não por amor e alegria em união de coração com Deus, mas por medo... e então, frustrados porque Deus é bom, resmungam, como Jonas quando a cidade de Nínive se converteu.

“Não é a justos que vim chamar, mas a pecadores” (Mt 9,13).

(O Roteiro Homilético é elaborado pelo Pe. Johan Konings SJ – Teólogo, doutor em exegese bíblica, Professor da FAJE. Autor do livro "Liturgia Dominical", Vozes, Petrópolis, 2003. Entre outras obras, coordenou a tradução da "Bíblia Ecumênica" – TEB e a tradução da "Bíblia Sagrada" – CNBB. Konings é Colunista do Dom Total. A produção do Roteiro Homilético é de responsabilidade direta do Pe. Jaldemir Vitório SJ, Reitor e Professor da FAJE.)

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