Textos da Liturgia
O “PODER” DE JESUS
1ª leitura: (Dt 18,15-20) O profeta, porta-voz de Deus – Deus suscita, na assembleia de Israel, a figura do “profeta”, conforme o modelo de Moisés, seu porta-voz no Sinai,. O profeta deve anunciar a cada geração o que Deus acha dela, e não sensacionalismo, adivinhação ou seja lá o que for. – O judaísmo interpretou Dt 18,15, “um profeta como eu” (cf. 18,18) não mais no sentido genérico, mas individual, como significando o Messias. Jo 6,14 (cf. 1,21.45; At 3,22-23) mostra que Jesus foi identificado com este Messias-profeta. * Cf. 12,30-31; Nm 12,6; 23,23; Dt 34,10; Is 42,1-4; 39,2; 50,4.
2ª leitura: (1Cor 7,32-35) As vantagens do celibato – Continuando no espírito da “reserva escatológica”, dando importância não tanto ao estado de vida que se escolhe, quanto à diligência escatológica com a qual se o assume, Paulo explica que a ele o estado celibatário permite uma dedicação mais intensa àquilo que se relaciona de modo imediato com o Reino escatológico, mas não condena as “mediações” do Reino, entre as quais o casamento, para o qual Jesus mesmo deu instruções (1Cor 7,10). O celibato é um conselho pessoal de Paulo (7,25).
Evangelho: (Mc 1,21-28) A autoridade de Jesus – A palavra de Jesus é um acontecer e um agir. Por isso, Mc não narra o conteúdo do que Jesus pregou na sinagoga de Cafarnaum, mas o efeito: Jesus age com autoridade (1,22.27), o que se mostra na expulsão dos espíritos imundos, que reconhecem em Jesus o representante de Deus. * Cf. Lc 4,31-37 * 1,22 cf. Mt 7,28-29 * 1,24 cf. Is 6,3; Lc 1,35; Jo 6,69.
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Uma das características do antigo judaísmo é seu caráter profético, o fato de ser orientado por personagens carismáticos, considerados porta-vozes de Deus.
Nos três séculos antes do exílio babilônico, a figura do profeta ganhou sua imagem “clássica”. Com a reforma religiosa de Josias (620 a.C.), surge o livro do Deuteronômio, recapitulação da Lei de Moisés. Comporta uma espécie de definição do que deve ser um profeta (nem todos eram assim!): alguém como Moisés, alguém que escute a palavra de Deus, alguém a quem Deus coloque suas palavras na boca para transmiti-las, alguém que não fale em nome de Deus o que este não lhe tiver inspirado, nem fale em nome de outros deuses; alguém cujas palavras sejam confirmadas pelos fatos (Dt 18,15-22) (1ª leitura). Pela instituição do profetismo, o povo de Israel se distingue das nações pagãs, que praticam todo tipo de adivinhação e superstição (18,14). Mas pouco depois do exílio, a instituição entra em declínio. A partir do século IV a.C., Israel não tem mais profetas. Aí surge a saudade. O texto de Dt 18,15.18, que fala genericamente do “profeta como Moisés” – originalmente indicando a instituição profética – é agora interpretado no sentido individual, como apontando uma figura do tempo messiânico: o Messias-profeta.
Ora, a figura do “profeta como Moisés”, que a 1ª leitura da liturgia de hoje evoca, é apenas um “aperitivo” daquilo que o evangelho (Mc 1,21-28) deixa entrever. Apresenta Jesus como alguém que ensina com autoridade, portanto, não como os escribas! Essa “autoridade” evoca o poder profético de ensinar no nome de Deus e fazer sinais que confirmem a palavra. Porém, o termo grego (exousia) não é costumeiro no judaísmo helenístico para falar do poder profético, e sim, do poder escatológico do Filho de Homem e de Deus, no livro de Daniel! O episódio de Mc 1,21-28 (evangelho) dá a entender que o povo teve, diante de Jesus, a impressão de ver um profeta, o que é confirmado pelas opiniões populares citadas em Mc 6,15 e 8,28. Mas a constatação da presença da “autoridade” esconde algo que o povo não consegue entender: “Que é isso?” (1,27). Ao percorrermos o evangelho de Mc, descobriremos que a identidade que Jesus atribui a si mesmo é a do Filho do Homem, o enviado escatológico de Deus, prefigurando em Dn 7. A este pertence aexousia(Dn 7,14), a “autoridade”. Quem parece suspeitar a identidade de Jesus é o demônio que é expulso naquela ocasião (Mc 1,24); ele conhece seu adversário.
No evangelho de Mc paira um mistério sobre a figura de Jesus. Aos demônios (1,25.34; 3,12), aos miraculados (1,44; 5,43; 7,34; 8,26), aos discípulos (8,30; 9,9), Jesus lhes proíbe publicar o exercício de sua “autoridade” que eles presenciaram. O mistério da identidade de Jesus só é desvendado na hora da morte, quando o centurião romano, representante do mundo inteiro, proclama: “Este homem era verdadeiramente o Filho de Deus” (15,39). Só na morte fica claro, sem ambiguidade, o modo e o sentido da obra messiânica de Cristo, segundo “os pensamentos de Deus” (cf. 8,31-33).
Portanto, se Jesus ensina com autoridade (e com essa misteriosa autoridade expulsa demônios, confirmando sua palavra profética), devemos enxergar no profeta de Nazaré (cf. 6,4) o Filho do Homem, que vem com os plenos poderes de Deus.
A 2ª leitura é tomada, mais uma vez, das “questões práticas” da 1Cor. Na linha da “reserva escatológica”, Paulo explica as vantagens do celibato, ao menos, quando assumido com vistas à escatologia. Como o sentido da escatologia é que o Senhor nos encontre ocupado com sua causa (cf. 1º dom. Adv. B), é melhor adotar o estado de vida que deixe nosso espírito mais livre para pensar nisso. É um conselho de Paulo, não para truncar nossa liberdade, mas para a libertar mais ainda. Claro, está falando do celibato assumido, não do celibato “levado de carona”, como é, muitas vezes, o do nosso clero; pois, quando não é assumido interiormente, desvia mais a mente da causa do Senhor do que as preocupações matrimoniais. Bem entendido, porém, o celibato, além da liberdade para Deus que proporciona aos que o assumem, é também um lembrete para os casados, ajudando-os, no meio de suas preocupações, a conservarem, também eles, a reserva escatológica, que os faz ver o caráter provisório de seu estado e problemas e, sobretudo, o sentido último que deve ser dado a tudo isso.
O PROFETA DO REINO DE DEUS
Jesus é o profeta do Reino de Deus. Mas que é um profeta? Conforme a 1ª leitura, o profeta é mediador e porta-voz de Deus. Os antigos israelitas, vivendo ao lado dos cananeus, estavam tentados a consultar, como estes, as divindades dos “lugares altos” por aí (que supostamente conheciam bem as necessidades locais). Consultavam os sortilégios, os búzios, os necromantes que evocavam espíritos etc. Não eram muito diferentes de muitos dos nossos contemporâneos. Diante disso, Moisés lembra-lhes que, quando da manifestação de Deus no monte Sinai (Ex 19), eles tiveram tanto medo que Deus precisou estabelecer um intermediário para falar com eles: o primeiro profeta bíblico, ele mesmo. Em vista disso, sempre haveria profetas em Israel para serem mediadores e porta-vozes de Deus, de modo que os israelitas não precisariam mais consultar os deuses de Canaã, nos santuários locais. O profeta é aquele que fala com a autoridade de Deus, que o envia. Muitas vezes, sua palavra é corroborada por Deus por meio de milagres, “sinais”.
No evangelho, Jesus é apresentado como porta-voz de Deus e de seu Reino. Deus mostra que está com ele. Dá-lhe poder de fazer sinais: na sinagoga de Cafarnaum, Jesus expulsa um demônio, e o povo reconhece sua autoridade profética: “Um ensinamento novo, dado com autoridade…” (Mc 1,27).
Ora, os sinais milagrosos servem para mostrar a autoridade do profeta, mas não são propriamente sua missão. Servem para mostrar que Deus está com ele, mas sua tarefa não é fazer coisas espantosas. Sua tarefa é ser porta-voz de Deus. Jesus não veio para fazer milagres, e sim, para nos dizer e mostrar que Deus nos ama e espera que participemos ativamente de seu projeto de amor. Por outro lado, os sinais, embora não sejam sua tarefa propriamente, não deixam de revelar um pouco em que consiste o reino que Jesus anuncia. São sinais da bondade de Deus. Jesus nunca faz sinais danosos para as pessoas (como as pragas do Egito que aconteceram pela mão de Moisés). O primeiro sinal de Jesus, em Mc, é uma expulsão de demônio. A obsessão demoníaca simboliza o mal que toma conta do ser humano sem que este o queira. Libertando o endemoninhado do seu mal, Jesus demonstra que o Reino por ele anunciado não é apenas apelo livre à conversão da cada um, mas luta vitoriosa contra o mal que se apresenta maior que a gente.
O mal que é maior que a gente existe também hoje: a crescente desigualdade social, a má distribuição da terra e de seus produtos, a lenta asfixia do ambiente natural por conta das indústrias e da poluição, a vida insalubre dos que têm de menos e dos que têm demais, a corrupção, o terror, o tráfico de drogas, o crime organizado, o esvaziamento moral e espiritual pelo mau uso dos meios de comunicação... Esses demônios parecem dominar muita gente e fazem muitas vitimas. O sinal profético de Jesus significa a libertação desse mal do mundo, que transcende nossas parcas forças. E sua palavra, proferida com a autoridade de Deus mesmo, nos ensina a realizar essa libertação.
Como Jesus, a Igreja é chamada a apresentar ao mundo a Palavra de Deus e o anúncio de seu Reino. Como confirmação dessa mensagem, deve também demonstrar, em sinais e obras, que o poder de Deus supera o mal: no empenho pela justiça e no alívio do sofrimento, no saneamento da sociedade e na cura do meio ambiente adoentado. Palavra e sinal, eis a missão profética da Igreja hoje.
(Pe. Johan Konings SJ – Teólogo, doutor em exegese bíblica, Professor da FAJE. Autor do livro "Liturgia Dominical", Vozes, Petrópolis, 2003. Entre outras obras, coordenou a tradução da "Bíblia Ecumênica" – TEB e a tradução da "Bíblia Sagrada" – CNBB. É Colunista do Dom Total).